27/08/2011

Exausto

Eu quero uma licença de dormir,

perdão pra descansar horas a fio,
sem ao menos sonhar
a leve palha de um pequeno sonho.
Quero o que antes da vida
foi o sono profundo das espécies,
a graça de um estado.
Semente.
Muito mais que raízes.

Adelia Prado 

16/08/2011

Diálogos

Debruçados sobre a vida
indagamos seus mistérios
e raramente dançamos
suas respostas cifradas.
Ao calor de interrogar-se
nuvens ocultas esgarçam-se.

Helena Kolody

15/08/2011

Assim eu vejo a vida (Cora Coralina, pseudônimo de Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas, Cidade de Goiás, 20/08/1889/Goiânia, 10/04/1985)


A vida tem duas faces:

Positiva e negativa.
O passado foi duro,
mas deixou o seu legado
Saber viver é a grande sabedoria,
Que eu possa dignificar
Minha condição de mulher,
Aceitar suas limitações
E me fazer pedra de segurança
dos valores que vão desmoronando.
Nasci em tempos rudes,
Aceitei contradições,
lutas e pedras
como lições de vida
e delas me sirvo:
Aprendi a viver.

30/07/2011

53. TUA DÁDIVA

Acolhe-me em teu abraço,
com teu olhar me afirma:
aquele espaço a teu lado
é o porto da minha viagem,
meu lado de rio, minha margem.

Abriga-me no teu corpo,
para que o meu se desdobre
em onda de mar ou concha.
Aceita-me e me recria
como nem eu me conheço:
em ti parece que chego
como uma coisa concreta,
algo que avança e se adianta,
e só assim se desdobra,
pois antes era miragem.

Recebe-me em duas partes:
aquela que o mundo avista,
e a outra, verdadeira,
chão da tua sombra que passa,
e da tua luz se planta.

Lya Luft

54. Dramaturgia


Alguém joga xadrez com minha vida,
alguém me borda do avesso,
alguém maneja os cordéis.
Alguém me inventa e desinventa
como quer:
talvez seja esta a minha condição.

Alguém dirige o teatro de sombras
no qual fui ré setenciada.
Finjo entender de tudo:
ando de um lado e outro,
faço gestos com a mãos,
cuspo as sementes do fruto
entalado na garganta
com um grito: Alguém aí pode me ouvir?

Ninguém reage, ninguém tenta aplaudir:
nesse reino todos usam disfarces,
menos a solidão.

Lya Luft

Foto: Alairce Rodrigues.






29/07/2011

Vitamina de cereais com mel e nozes

Ingredientes:
2 xícaras (chá) de ADES sabor cereais com mel
4 nozes picadas
4 ameixas pretas picadas
1 colher (sopa) de sementes de linhaça
Modo de fazer:

1- Coloque no liquidificador o ADES sabor cereais com mel, as nozes, as ameixas e bata por 3 minutos.
2- Junte as sementes de linhaça e bata por mais 1 minuto. Sirva a seguir.
VARIACÃO
Você pode substituir as sementes de linhaça por 2 colheres (chá) de gérmen de trigo.
DICA
Experimente decorar os copos antes de servir com pedaços de nozes espetados em palitos longos para churrasco.
Rendimento: 2 porções

Preparo: 5 minutos
http://www.ades.com.br/ades/produtos_receitas/ades_receitas/produtos_receitas_integra_4-3-1.asp?id=321

28/07/2011

52. Criança deitada na grama

Dormem os grandes navios
do sonho, como num porto:
boiam, rostos ou espumas
à flor de um espelho morto.

Não tenho certeza de nada
e mesmo assim me disponho:
sou um reflexo no fundo
de um corredor, ou de um sonho?

No azul do céu ou das águas
passam vultos como velas:
são miragens os navios,
ou as nuvens caravelas?

Lya Luft 

27/07/2011

51. Limites



Abro a gaveta, e salta uma palavra:
dança sedutora sobre o meu cansaço,
veste-se de indefinições, vagueira
no labirinto das ambiguidades. 
Acha graça de mim, que espero à frente
encontrar a solução dos meus enigmas.

Tento uma geometria que a contenha
no espaço entre dois silêncios quaisquer,
mas ela decide meus passos: peso de fruta
no sono da semente, assiste à minha luta
quando a desejo aprisionar,  e às vezes até finge
que sou a senhora, a domadora, a fonte.

As palavras riem dos poetas, pois são livres:
nós, mediação incompetente.

Lya Luft

26/07/2011

50. Domação

Cavala de flancos intensos,
patas rebeldes, sem dono nem domação,
rebentando espumas nesse galope, namora
mais do que o amor, a sorte.

Uma cavala dourada e sensual com crinas de leite,
talvez centaura:
carrega um nome então, um pensamento,
uma audácia e uma ausência.
Leva a memória, como cicatriz, de um beijo
no pescoço, a espreita e a espera:
a desabalada cavala na sua danação
e sua glória.

Lya Luft

24/07/2011

49. Escolha

Apesar do medo
escolho a ousadia.
Ao conforto das algemas, prefiro
a dura liberdade.
Voo com meu par de asas tortas,
sem o tédio da comprovação.
Opto pela loucura, com um grão
de realidade:
meu ímpeto explode o ponto, arqueia a linha, traça contornos
para os romper.

Desculpem, mas devo dizer:
eu
quero o delírio.

Lya Luft

20/07/2011

48. Personagens 2

Num fino traço
faço o perfil de ninguém.
Quem quer ser alguém
nesta vida sombria
parida com sangue e papel?
Mas no círculo que traço,
o nariz, os cinco dedos na ponta do braço,
donzela esguia ou boneco de engonço,
limito um novo ser: e me abraço
a mim, no poder de gerar um sinal,
que instaure no nada um todo possível.


Quem faz de nós reis, deuses, réus
da nossa eterna contradição?
No texto que faço
separo o nada do nada,
abrindo o espaço
da minha interrogação.
Lya Luft

18/07/2011

47. Personagens 1

As angústias que descrevo não são minhas:
são desses rostos colados na vidraça
da minha fantasia, ditando-me
os humanos desastres que eu invento.

Fazem-me sinais que nem sempre entendo,
trocam recados que mal adivinho
mas anoto aqui do jeito que posso,
enquanto eles fazem tremer de espanto
as minhas mãos que escrevem.

Eu, de tudo me protejo. Escuto suas vozes
na sombra que habitam: deixo que falem
num tom que não é meu, encenando
no palco da minha escrita o seu drama
de espectros.

Lya Luft 

17/07/2011

46. Ainda infância

Nem sótão nem porão,
 na minha casa real. Nem mar:
porém as águas chegavam,
varando as negativas e os silêncios.
Não havia como não embarcar.

Jardins, morros azuis, fantasmas
nas janelas: para sobreviver podei
a árvore dos ressentimentos,
calei o vento e sua voz
de folhas.
Crescer
foi desistir de a escutar.

Lya Luft

15/07/2011

45. Quarto poema da cega


Dizem que há veleiros no mar, e posso ouvir
o seu rastro de vozes quando o vento é forte.
Abro as mãos em flor, e jogo dentro deles
cada esperança antiga que me oprime,
cada sonho inútil que me embala.
Sigo seu roteiro claro e tranquilo,
deixando um bálsamo de fresca espuma
na chaga destas pálpebras inúteis
que me prendem, sem asas e sem horizonte,
a esta pedra de onde vai me libertar a morte.  

Lya Luft 

14/07/2011

44. Inútil espera


O rumor de uns passos enérgicos,
a voz me chamando no jardim, na sala
rosas com nomes secretos, e um perfume
igual ao dela.
Legou-me a sua alegria inesperada,
o amor à vida,
e algo do perfil. Não sua beleza:
essa ficou nos retratos.
Nada lhe significo mais:
quando me vê enxerga outros rostos,
mais reais do que eu na sua ilha.
É minha mãe e não é,
vive e não vive, na clausura da mente
adormecida.

Mas eu,
a cada visita espero o impossível:
que ainda uma vez o seu olhar me alcance,
e por um momento ame, nesta mulher, a sua filha.

Lya Luft

08/07/2011

43. Convite

Vem me fazer inteira. Vem
mudar a criança que fui em feiticeira
sem medo de morrer por suas crenças.
Vem fazer, da minha fraqueza, força
para enfrentar os meus fantasmas,
e sepultar nessa fogueira os teus.

Vem me transformar em mais
do que sou hoje: mais forte
e mais serena , mais confiante e mais dura
- mas também mais doce quando precisares.

Vem fazer de mim algo maior do que eu.

Lya Luft

07/07/2011

42. Para que fiques


A certeza vela atrás de
um muro
ou dorme num poço
onde nada se escuta ou avista.

Sempre que partes, morro
um pouco
por não saber se retornas.
Minhas mãos doem de
tanto abrir-se
para que vás tranquilo.
Só assim hás de querer
estar comigo:
sem que eu insista.

(Fingir que te deixo
livre é um jeito
egoísta de te amar).

Lya Luft

05/07/2011

41. Circulo

Na vida na morte
esta chama, esta fonte,
esta noite invadida:
seus panos na cama
seus passos na casa
sua voz ao meu lado,
meu bem no seu mundo
varando meu peito:
me povoa, me coroa
de beijos e mágoas
me prende em sua rede,
me define, me redime
me inventa e desinventa
me habita e transfigura,
no ritmo das águas
deste rio sem fundo
que chama na fonte
da morte, na vida.

Lya Luft

04/07/2011

40. Pais e Filhos

(A Madona e o Filho - Giovanni)
*
Aqui não cabe a poesia. Aqui
ficam à mostra as tripas
da nossa dor milenar. Aqui
fala-se de desencontro e impossibilidade,
onipotência e utopia.
Aqui se cantam as verdadeiras feridas
do amor.

Todos os filhos de todos os pais do mundo
estão nas trincheiras cotidianas:
e não podemos apertá-los ao peito
como quando eram pequenos
e tínhamos a ilusão de que eram nossos.
Lya Luft

28/06/2011

39. Meu jeito

Quando pareço ausente, não creias: 
hora a hora meu amor agarra-se a teus braços, 
hora a hora meu desejo revolve teus escombros,
e escorrem dos meus olhos mais promessas.

Não acredites nesse breve sono;
não dês valor ao meu silêncio;
e se leres recados numa folha branca,
não creias também: é preciso encostar
teus lábios nos meus lábios para ouvir.

Nem acredites se pensas que te falo:
palavras
são meu jeito mais secreto de falar.
Lya Luft.

27/06/2011

38, Terceiro poema da cega

O mundo filtra-se pelos ouvidos
de quem não vê senão a própria noite:
meus olhos pegam sons com dedos falhos
mas nada tem substância aqui mais dentro.
Risos e palavras nesta sombra eterna
chegam e nada, giram, se entrechocam
em desenhos de luz que não entendo.

Estendo meu coração, ouvido inquieto,
em busca de algum som definitivo
que abra em claridade estes dois olhos secos,
e me lance desta pedra em voo a céu aberto.
Lya Luft

24/06/2011

37. Mar de Menina

Havia um mar,
e ali brotava uma ilha
povoada de lobos e de pensamentos.
Havia um fundo escuro e belo
onde os náufragos dançavam
com sereias.
Havia ansiedade e abraço.
Havia âncora e vaguidão.

Brinquei com peixes e anjos,
fui menina e fui rainha,
acompanhada e largada,
sempre a meia altura
do chão.

A vida um barco, remos ou ventos,
tudo real e tudo
ilusão.

Lya Luft.

19/06/2011

36. Queda Livre

Bem que eu queria dormir,
mas isso que não esqueço
me chama a noite inteira,
sem nome e sem piedade.

Se abro os olhos, eu caio
no esquecimento. Se durmo,
apagam-se as esperanças
- e não me sobra mais nada.

Devo largar minhas perdas
que ficaram na soleira
entre o passado e o recomeço?
Sempre que me levanto
eu perco um novo pedaço:
ouço os cacos rolando
a noite toda na escada.

Lya Luft

10/06/2011

35. Mar Demais

O mar das nossas viagens

divide horizontes e cais,
e nos dois lados acena
a opção de ir ou ficar.
Quem navega, não pensa
em perda nem permanência:
só busca ocaminho das ondas
e do ar.

O mar da esperança é fundo,
quem nele navega é rei:
pois se estrelas são miragem
entre cais e horizonte, cada viagem
chega mais perto da fonte:
isso não se pode medir nem
mudar.
Lya Luft

09/06/2011

34. Segundo poema da cega


Homens são passos, e mulheres vozes
que se aproximam, param e se esquivam
sem criar raízes nesta treva.
Beijam-se às vezes como num murmúrio,
e eu aperto os lábios solitários
para depois, num mundo só de beijos,
pousar as mãos sobre meus olhos mortos
para que baixe nesses desamados
algum carinho, a medo.

Lya Luft

08/06/2011

33. Demasia

DEMASIA

(para as mães excessivas)




Os filhos que pari trilharam seus caminhos
(como dizem que deve ser)
Eu não me conformei: andei em seus calcanhares,
lancei-me em mil direções, fiquei perdida
nesta casa vazia.
Toda a noite espreito os velhos quartos
para ver se as memórias dormem direito,
se escovaram os dentes, fizeram as lições.


Meus filhos tiveram outros,
e eu me fragmentei ainda mais.
No espelho não vejo ninguém:
virei poeira de gente, soprada entre eles.
Tanto me entranhei em suas vidas,
que tentam limpar-se de mim
para poderem crescer,para não serem
meus filhos.


Lya Luft






Do livro Para não dizer adeus, Ed. Record

07/06/2011

32. Jazz

A boca extrai mel do metal:
contraponto, fingido desencontro,
pois tudo é trama de som e desejo
em espirais.

A boca
extrai segredos de mel
onde antes nada se movia.
O primeiro olhar já foi mar alto:
estás cada vez mais perto, estás
cada vez mais dentro.

O amor extrai mel do metal:
duas almas banidas voltam do desterro,
os destinos giram entrelaçados
no descompasso, na penumbra, na magia.

Lya Luft

06/06/2011

31. Composição

Quando perdi quase tudo,

descobri que a dor
não era maior que o sonho.
Quando esqueci o caminho,
vi que o horizonte
ficava do lado errado.
Quando só o meu rosto
sobrava em cada espelho
(e nada do lado de cá),
juntei desalento e desejo
e me reinventei
com carinho.


(Agora pareço comigo
antes de o amor ser
cancelado.)


Lya Luft

04/06/2011

29. A Casa no Mar



Era uma vez um corredor de amores,
e uma casa ancorada no tempo da vida
para não naufragar.

Era uma vez viagens e descobrimentos.
Era uma vez uma infância dourada
e um quebra-cabeça possível de armar.

Era uma vez- e ainda respira em mim
com um cavalo alado -
aquele mar.

Lya Luft

03/06/2011

28. Somos inocentes

A parte dura desta humana lida
é dizer sim na hora do não,
escolher mal entre silêncio e grito,
entre a noite e a explosão
do dia.

Ceder quando deveríamos negar, dizer
não em lugar  de afirmar, partir
quando era bom amar, fechar-se
em vez de resgatar
a vida.

Sermos tão incertos e indecisos,
perdendo o trem, a hora,
o agora: mas a gente
não sabia.

Lya Luft

02/06/2011

27. Pressentimento

Quando eu era menina,
minha mãe tocava piano
e a árvore de Natal girava
em sua pinha de ferro batido.
Eu cochilava no colo de meu pai:
dentro do peito dele pulsava
a máquina da vida que nunca se cala.
(Mas uma coisa escura e sorrateira
fazia rumor fora de casa:
era o destino chegando
passo a passo, e eu não sabia.)

Junto ao coração de eu pai,
ao ritmo da música do sangue,
meu coração também estremecia:
a faca cortando a minha alma
era pressentir que as águas do mundo
inundariam o tempo e o espaço,
e seríamos um dia os rostos naufragados
de um velho retrato numa mala.

Lya Luft 

01/06/2011

26. Anistia

Bela Dama,
nas mãos discretas esconde
a fita, o metro, a medida
da nossa vida.
Bela Dona,
aguarda com paciência
a hora de nos botar no colo:
tudo estará consumado
nesse dia.
(Mesmo o não compreendido.)

Velhas palavras nos lábios,
nos olhos novas paisagens,
seremos poupados,
seremos absolvidos,
seremos isentados.

Mas nós nos daremos
anistia?

Lya Luft
(Quadro: Claude Monet)

31/05/2011

25. Conflito

Tenho medo das águas do destino
a invadirem o que penso e faço,
numa linha de infinda
contradição.
Eu sou assim:
quero fugir mas chamo,
quero ficar mas me assusta
não ter em mim nada seguro
e certo.

Nunca receio a alegria,
para a qual todos os milagres
são normais.
Mas quando tarda quem amo,
meu coração fica exposto
e aberto.

E mesmo assim eu persisto,
e ainda assim espero
ainda, como criança sozinha
atrás do muro.

Lya Luft

30/05/2011

24. Receita de Casa

Uma casa deve ter varandas
para sonhar, cantos para chorar,
quartos para os segredos
e a ambivalência.

Um amor precisa espaço de voar,
liberdade para querer ficar,
alegria, e algum desassossego
contra o tédio.

Não se esqueçam os danos a cobrir,
o medo de partir, e o dom de surpreender
- que é a sua essência.

Lya Luft


29/05/2011

23. Miragem



Eu no espelho: atentas, nós duas
nos observamos para além da imagem.
Estendemos a mão, tocamos esse pó de gelo,
sabendo:
se eu mergulhar daqui, e do seu lado, ela,
vão se fundir num sopro nossos rostos,
todos os meus sonhos e os anseios dela.

Mas nenhuma se atreve. Continuamos
sozinhas nesse mundo de reflexos,
eu e ela incompletas, nuas
e sós.

Lya Luft

28/05/2011

22. Óculos

As lentes que me deram ao nescer
são lúcidas como chuva
que tornasse tudo áspero
- não doce.
Engano pensar que a arte afaga:
ela me puxa pelos cabelos,
me lança no olho
da ventania.

Não durmo, não divago, não
tenho complacência:
cada palavra pesada,
cada entrelinha apurada
para que não escape
nada do que vejo
e sonho. Tudo muito grave,
tudo urgente.

(Mas sempre espero aquele beijo,
sempre espero aquele beijo.)

Lya Luft

27/05/2011

21. Reverberação


O destino trama os dias
e desfaz o sonho: demarca
meus contornos, partes
disso que sou e serei.

Quem sabe desejei demais:
milagres não me bastaram,
mas quando eu quis ser rainha
fui simplesmente humana.

A voz da vida insiste,
chama para o que salva
ou desatina:
nem sempre a entendi.

Palavras buscam sentido
para o que fiz, falhei,
conquistei e perdi
- ou que me abandonou
nalguma esquina.

(Talvez eu precisasse é dos silêncios.)
 
Lya Luft

26/05/2011

20, Auto-retrato

Alguém diz que sou bondosa:
está tão enganado que dá pena.
Alguém diz que sou severa,
e acho graça.
Não sou áspera nem amena:
estou na vida como o jardineiro
se entrega em cada rosa:
corte, sangue, dor e aroma
para que a beleza fique na memória
quando a flor passa.
 
(Amar é lidar com os espinhos
de quem ama por inteiro:
com força, não com fraqueza.)
 
Lya Luft



25/05/2011

19. Legado


Foi meu pai quem plantou esse álamo
no meu jardim. Podou seus ramos,
e desde então seus dedos se multiplicaram,
sua voz se perpetuou em folhas
depois de cada inverno.

E quando o vento perpassa
os altos ramos do álamo generoso,
o tempo se dá por vencido,
a dor recolhe suas asas:
meu pai conversa comigo,
andando pela calçada
entre o meu coração e a sua morte.

Lya Luft

24/05/2011

18. Primeiro poema da cega

Sentaram-me sobre o mar neste rochedo inerte,
e ficarei aqui até que alguém me leve
(sempre para uma outra escuridão).
Respiro, escuto, sinto o mar, mas nunca
verei o embalo dessas ondas
nem a dança dos peixes e afogados.

Se não me buscam, certo que aqui durmo
respngada de espumas, golpeada de vento,
presa a este lugar impreciso e sem rosto,
sem nada perceber mais que o grito do mar
e meu próprio lamento.

Lya Luft

23/05/2011

17. Revelação

Quando chegaste,
redescobri em mim inocência e alegria.
Removi a máscara que sobrava:
nada havia a esconder de ti,
nem medo - a não ser partires.

Supérfluas as palavras,
dispensada a aparência, fiquei eu,
sem prumo,
como antes da primeira dúvida
e do último desencanto.

Quando chegaste,
escutei meu nome como num outro tempo.
O meu lado da sombra entregou
o que ninguém via:
as feridas sem cura e a esperança sem rumo.

Começa a crer, por mim, que o amor é possível,
e que a vida vale a pena e o pranto
de cada dia.

Lya Luft

22/05/2011

16. Viagem

Não é preciso morar na esquina
nem ser jovem ou belo:
o amor melhor é sempre dentro
e perto.
Chega inesperado,
vem forte vem doce, acalma
e desatina.

Se está na minha rua ou vem de fora,
ele ignora o tempo e a idade:
o amor é sempre
agora.

É vento sutil e mar sem beira:
o amor é destino de quem está aberto,
e dói sem remissão quando negado.
O melhor amor sacia a fome inteira:
mas tem que ser aceito,
tem de ser ousado, tem de ser
navegado.

Lya Luft

21/05/2011

15. Trapezista

A vida chega em silêncio:
desenovela reflexos,
interroga a esfinge
que responde ou nega
num espelho baço.
(A resposta nunca é clara
nem é pequena.)

Não é a mim que vejo:
é ao outro, num misto de incerteza
e esperança de que não seja
mais um rosto virado,
uma boca cerrada
- mais um desgosto
a cada passo.

Desejo, sonho e medo,
o amor é salto sem rede
entre a razão e a magia.
(E só assim vale a pena.)

Lya Luft

20/05/2011

14. Quem sou

Do pai, a retidão e certa melancolia:
o olhar sobre o que vem atrás
do espelho. Da mãe,
a alegria. Da remota linhagem,
o novelo de fios que tramam
alma e imagem,
ninguém sabe quando e onde.

Mais os trabalhos e a dor, a fantasia,
a obstinada procura, alguma sorte,
muita esperança na bagagem.

(Dissabores fazem parte: maior
foi a celebração da vida.)

Entre o começo e a morte,
mar e miragem:
não há muito de mim
na personagem que contemplas.

(Há que buscar o que ela esconde.)

Lya Luft

19/05/2011

13. Aviso

Se quiseres me amar,
terá que ser agora: depois
estarei cansada.
Minha vida foi feita de parceria com a morte:
pertenço um pouco a cada uma,
pra mim sobrou quase nada.

Ponho a máscara do dia, um rosto cômodo e simples,
e assim garanto a minha sobrevida.

Se me quiseres amar,
terá que ser hoje:
amanhã estarei mudada.

Lya Luft

18/05/2011

12. Rosto com dois perfis

Renuncio às palavras
e às explicações.
Ando pelos contornos,
onde todos os significados
são sutis, são mortais.

Não quero perder o momento
belo. Quero vivê-lo mais,
com a intensidade que exige a vida:
desgarramento e fulguração.

Então me corto ao meio e me solto
de mim:
a que se prende e a que voa,
a que vive e a que se inventa.
Duplo coração:
a que se contempla e a que nunca
se entende,
a que viaja sem saber se chega
- mas não desiste jamais.

Lya Luft