30/07/2011

53. TUA DÁDIVA

Acolhe-me em teu abraço,
com teu olhar me afirma:
aquele espaço a teu lado
é o porto da minha viagem,
meu lado de rio, minha margem.

Abriga-me no teu corpo,
para que o meu se desdobre
em onda de mar ou concha.
Aceita-me e me recria
como nem eu me conheço:
em ti parece que chego
como uma coisa concreta,
algo que avança e se adianta,
e só assim se desdobra,
pois antes era miragem.

Recebe-me em duas partes:
aquela que o mundo avista,
e a outra, verdadeira,
chão da tua sombra que passa,
e da tua luz se planta.

Lya Luft

54. Dramaturgia


Alguém joga xadrez com minha vida,
alguém me borda do avesso,
alguém maneja os cordéis.
Alguém me inventa e desinventa
como quer:
talvez seja esta a minha condição.

Alguém dirige o teatro de sombras
no qual fui ré setenciada.
Finjo entender de tudo:
ando de um lado e outro,
faço gestos com a mãos,
cuspo as sementes do fruto
entalado na garganta
com um grito: Alguém aí pode me ouvir?

Ninguém reage, ninguém tenta aplaudir:
nesse reino todos usam disfarces,
menos a solidão.

Lya Luft

Foto: Liz Guides






29/07/2011

Vitamina de cereais com mel e nozes

Ingredientes:
2 xícaras (chá) de ADES sabor cereais com mel
4 nozes picadas
4 ameixas pretas picadas
1 colher (sopa) de sementes de linhaça
Modo de fazer:

1- Coloque no liquidificador o ADES sabor cereais com mel, as nozes, as ameixas e bata por 3 minutos.
2- Junte as sementes de linhaça e bata por mais 1 minuto. Sirva a seguir.
VARIACÃO
Você pode substituir as sementes de linhaça por 2 colheres (chá) de gérmen de trigo.
DICA
Experimente decorar os copos antes de servir com pedaços de nozes espetados em palitos longos para churrasco.
Rendimento: 2 porções

Preparo: 5 minutos
http://www.ades.com.br/ades/produtos_receitas/ades_receitas/produtos_receitas_integra_4-3-1.asp?id=321

28/07/2011

52. Criança deitada na grama

Dormem os grandes navios
do sonho, como num porto:
boiam, rostos ou espumas
à flor de um espelho morto.

Não tenho certeza de nada
e mesmo assim me disponho:
sou um reflexo no fundo
de um corredor, ou de um sonho?

No azul do céu ou das águas
passam vultos como velas:
são miragens os navios,
ou as nuvens caravelas?

Lya Luft 

27/07/2011

51. Limites



Abro a gaveta, e salta uma palavra:
dança sedutora sobre o meu cansaço,
veste-se de indefinições, vagueira
no labirinto das ambiguidades. 
Acha graça de mim, que espero à frente
encontrar a solução dos meus enigmas.

Tento uma geometria que a contenha
no espaço entre dois silêncios quaisquer,
mas ela decide meus passos: peso de fruta
no sono da semente, assiste à minha luta
quando a desejo aprisionar,  e às vezes até finge
que sou a senhora, a domadora, a fonte.

As palavras riem dos poetas, pois são livres:
nós, mediação incompetente.

Lya Luft

26/07/2011

50. Domação

Cavala de flancos intensos,
patas rebeldes, sem dono nem domação,
rebentando espumas nesse galope, namora
mais do que o amor, a sorte.

Uma cavala dourada e sensual com crinas de leite,
talvez centaura:
carrega um nome então, um pensamento,
uma audácia e uma ausência.
Leva a memória, como cicatriz, de um beijo
no pescoço, a espreita e a espera:
a desabalada cavala na sua danação
e sua glória.

Lya Luft

24/07/2011

49. Escolha

Apesar do medo
escolho a ousadia.
Ao conforto das algemas, prefiro
a dura liberdade.
Voo com meu par de asas tortas,
sem o tédio da comprovação.
Opto pela loucura, com um grão
de realidade:
meu ímpeto explode o ponto, arqueia a linha, traça contornos
para os romper.

Desculpem, mas devo dizer:
eu
quero o delírio.

Lya Luft

20/07/2011

48. Personagens 2

Num fino traço
faço o perfil de ninguém.
Quem quer ser alguém
nesta vida sombria
parida com sangue e papel?
Mas no círculo que traço,
o nariz, os cinco dedos na ponta do braço,
donzela esguia ou boneco de engonço,
limito um novo ser: e me abraço
a mim, no poder de gerar um sinal,
que instaure no nada um todo possível.


Quem faz de nós reis, deuses, réus
da nossa eterna contradição?
No texto que faço
separo o nada do nada,
abrindo o espaço
da minha interrogação.
Lya Luft

18/07/2011

47. Personagens 1

As angústias que descrevo não são minhas:
são desses rostos colados na vidraça
da minha fantasia, ditando-me
os humanos desastres que eu invento.

Fazem-me sinais que nem sempre entendo,
trocam recados que mal adivinho
mas anoto aqui do jeito que posso,
enquanto eles fazem tremer de espanto
as minhas mãos que escrevem.

Eu, de tudo me protejo. Escuto suas vozes
na sombra que habitam: deixo que falem
num tom que não é meu, encenando
no palco da minha escrita o seu drama
de espectros.

Lya Luft 

17/07/2011

46. Ainda infância

Nem sótão nem porão,
 na minha casa real. Nem mar:
porém as águas chegavam,
varando as negativas e os silêncios.
Não havia como não embarcar.

Jardins, morros azuis, fantasmas
nas janelas: para sobreviver podei
a árvore dos ressentimentos,
calei o vento e sua voz
de folhas.
Crescer
foi desistir de a escutar.

Lya Luft

15/07/2011

45. Quarto poema da cega


Dizem que há veleiros no mar, e posso ouvir
o seu rastro de vozes quando o vento é forte.
Abro as mãos em flor, e jogo dentro deles
cada esperança antiga que me oprime,
cada sonho inútil que me embala.
Sigo seu roteiro claro e tranquilo,
deixando um bálsamo de fresca espuma
na chaga destas pálpebras inúteis
que me prendem, sem asas e sem horizonte,
a esta pedra de onde vai me libertar a morte.  

Lya Luft 

14/07/2011

44. Inútil espera


O rumor de uns passos enérgicos,
a voz me chamando no jardim, na sala
rosas com nomes secretos, e um perfume
igual ao dela.
Legou-me a sua alegria inesperada,
o amor à vida,
e algo do perfil. Não sua beleza:
essa ficou nos retratos.
Nada lhe significo mais:
quando me vê enxerga outros rostos,
mais reais do que eu na sua ilha.
É minha mãe e não é,
vive e não vive, na clausura da mente
adormecida.

Mas eu,
a cada visita espero o impossível:
que ainda uma vez o seu olhar me alcance,
e por um momento ame, nesta mulher, a sua filha.

Lya Luft

08/07/2011

43. Convite

Vem me fazer inteira. Vem
mudar a criança que fui em feiticeira
sem medo de morrer por suas crenças.
Vem fazer, da minha fraqueza, força
para enfrentar os meus fantasmas,
e sepultar nessa fogueira os teus.

Vem me transformar em mais
do que sou hoje: mais forte
e mais serena , mais confiante e mais dura
- mas também mais doce quando precisares.

Vem fazer de mim algo maior do que eu.

Lya Luft

07/07/2011

42. Para que fiques


A certeza vela atrás de
um muro
ou dorme num poço
onde nada se escuta ou avista.

Sempre que partes, morro
um pouco
por não saber se retornas.
Minhas mãos doem de
tanto abrir-se
para que vás tranquilo.
Só assim hás de querer
estar comigo:
sem que eu insista.

(Fingir que te deixo
livre é um jeito
egoísta de te amar).

Lya Luft

05/07/2011

41. Circulo

Na vida na morte
esta chama, esta fonte,
esta noite invadida:
seus panos na cama
seus passos na casa
sua voz ao meu lado,
meu bem no seu mundo
varando meu peito:
me povoa, me coroa
de beijos e mágoas
me prende em sua rede,
me define, me redime
me inventa e desinventa
me habita e transfigura,
no ritmo das águas
deste rio sem fundo
que chama na fonte
da morte, na vida.

Lya Luft

04/07/2011

40. Pais e Filhos

(A Madona e o Filho - Giovanni)
*
Aqui não cabe a poesia. Aqui
ficam à mostra as tripas
da nossa dor milenar. Aqui
fala-se de desencontro e impossibilidade,
onipotência e utopia.
Aqui se cantam as verdadeiras feridas
do amor.

Todos os filhos de todos os pais do mundo
estão nas trincheiras cotidianas:
e não podemos apertá-los ao peito
como quando eram pequenos
e tínhamos a ilusão de que eram nossos.
Lya Luft