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22/10/2010

Mistério




Há vozes dentro da noite que clamam por mim,

Há vozes nas fontes que gritam meu nome.

Minha alma distende seus ouvidos

E minha memória desce aos abismos escuros

Procurando quem chama.

Há vozes que correm nos ventos clamando por mim.

Há vozes debaixo das pedras que gemem meu nome

E eu olho para as árvores tranquilas

E para as montanhas impassíveis

Procurando quem chama.

Há vozes na boca das rosas cantando meu nome

E as ondas batem nas praias

Deixando exaustas um grito por mim

E meus olhos caem na lembrança do paraíso

Para saber quem chama.

Há vozes nos corpos sem vida,

Há vozes no meu caminhar,

Há vozes no sono de meus filhos

E meu pensamento como um relâmpago risca

O limite da minha existência

Na ânsia de saber quem grita.
***
Adalgisa Nery



11/09/2010

Repouso

Repouso

Dá-me tua mão

E eu te levarei aos campos musicados pela

canção das colheitas.

Cheguemos antes que os pássaros nos disputem

os frutos,

Antes que os insetos se alimentem das folhas

entreabertas.

Dá-me tua mão

E eu te levarei a gozar a alegria do solo

agradecido,

Te darei por leito a terra amiga

E repousarei tua cabeça envelhecida

Na relva silenciosa dos campos.

Nada te perguntarei,

Apenas ouvirás o cantar das águas adolescentes

E as palavras do meu olhar sobre tua face muito

amada.



Adalgiza Nery
in

 As Fronteiras da Quarta Dimensão (1951)

(ao mui e eterno amado)

30/04/2010

RAZÕES CONJUGADAS


Da tristeza, tempo nascido do sonho,



Formaram-se o vento, as águas mansas,



A escuridão úmida sob o sol,



A neve amortalhando as distâncias,



O pranto confuso,



O silêncio compacto, tão pesado.







No caminho já pisado por mil pés



Há relva à procura da luz imaculada.







Tão relva quanto tão estrela



Ambas em tristeza confirmadas



Como o pranto tão confuso, tão chorado,



O silêncio tão compacto, tão pesado.



Ações do corpo conjugadas



Às canções que permanecem ocultas



À voz alegre dos rios,



Ao vôo das asas alumbradas.



Cárceres de sonhos e temores,



Desejos de morte sobre mortes,



No pranto tão confuso, tão chorado,



No silêncio tão compacto, tão pesado.




***

Adalgisa Nery



In Erosão, 1974






02/02/2010

Poema da Amante


Eu te amo

Antes e depois de todos os acontecimentos,

Na profunda imensidade do vazio

E a cada lágrima dos meus pensamentos.


Eu te amo

Em todos os ventos que cantam,

Em todas as sombras que choram,

Na extensão infinita do tempo

Até a região onde os silêncios moram.


Eu te amo

Em todas as transformações da vida,

Em todos os caminhos do medo,

Na angústia da vontade perdida

E na dor que se veste em segredo.


Eu te amo

Em tudo que estás presente,

No olhar dos astros que te alcançam

Em tudo que aindas estás ausente.


Eu te amo

Desde a criação das águas,

Desde a ideia do fogo

E antes do primeiro riso e da primeira mágoa.


Eu te amo perdidamente,

Desde a grande nebulosa

Até depois que o universo cair sobre mim

Suavemente.

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Adalgisa Nery (1905/1980)
Crédito da imagem:http://imagensdecoupage.blogspot.com