Mostrando postagens com marcador Adélia Prado. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Adélia Prado. Mostrar todas as postagens

30/08/2010

O dia da ira

As coisas tristíssimas,
o rolomag, o teste de Cooper,
a mole carne tremente entre as coxas,
vão desaparecer quando soar a trombeta.

Levantaremos como deuses,

com a beleza das coisas que nunca pecaram,

como árvores, como pedras,
exatos e dignos de amor.
Quando o anjo passar,
o furacão ardente do seu voo
vai secar as feridas,
as secreções desviadas dos seus vasos
e as lágrimas.
As cidades restarão silenciosas, sem um veículo:
apenas os pés de seus habitantes
reunidos na praça, à espera de seus nomes.

Adélia Prado

06/06/2010

A Serenata


A serenata







Uma noite de lua pálida e gerânios

ele viria com boca e mão incríveis

tocar flauta no jardim.

Estou no começo do meu desespero

e só vejo dois caminhos:

ou viro doida ou santa.

Eu que rejeito e exprobo

o que não for natural como sangue e veias

descubro que estou chorando todo dia,

os cabelos entristecidos,

a pele assaltada de indecisão.

Quando ele vier, porque é certo que ele vem,

de que modo vou chegar ao balcão sem juventude?

A lua, os gerânios e ele serão os mesmos

- só a mulher entre as coisas envelhece.

De que modo vou abrir a janela, se não for doida?

Como a fecharei, se não for santa?





Adélia Prado

03/10/2009

Com licença poética


Com licença poética
.
Quando nasci um anjo esbelto,

desses que tocam trombeta, anunciou:

vai carregar bandeira.

Cargo muito pesado pra mulher,

esta espécie ainda envergonhada.

Aceito os subterfúgios que me cabem,

sem precisar mentir.

Não sou feia que não possa casar,

acho o Rio de Janeiro uma beleza e

ora sim, ora não, creio em parto sem dor.

Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.

Inauguro linhagens, fundo reinos

— dor não é amargura.

Minha tristeza não tem pedigree,

já a minha vontade de alegria,

sua raiz vai ao meu mil avô.

Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.

Mulher é desdobrável. Eu sou.

***

Adelia Prado

23/08/2008

O diário de uma babá (The Nanny Diaries 2007) / Medos antigos e novos

Annie Braddock (Scarlett Johansson) é uma jovem recém-saída da faculdade, que vive em um bairro da classe operária de Nova Jersey. Ela sofre uma grande pressão de sua mãe, Judy Braddock (Donna Murphy) para que encontre logo um lugar respeitável no mundo dos negócios. Annie, decidida a fugir do mundo real, aceita o emprego de babá oferecido intempestivamente por uma rica dondoca de Manhattan, a qual chama apenas de "Sra. X". Annie logo descobre que a vida não seria o mar de rosas que imaginava, pois precisa atender aos caprichos da ausente sra. X (Laura Linney) e seu mimado filho Grayer (Nicholas Art), além de evitar as investidas do sr. X (Paul Giamatti). A situação complica-se mesmo quando ela se apaixona pelo "Gatão de Harvard" (Chris Evans), o que a força a reexaminar sua vida e seus valores. Direção de Shari Springer Berman e Robert Pulcini, roteiro de Shari Springer Berman e Robert Pulcini, baseado em livro de duas ex-babás, Nicola Kraus e Emma McLaughlin, e que ficou durante várias semanas na liderança dos livros mais vendidos nos Estados Unidos.
Minha nota: ****
Site Oficial: www.thenannydiariesmovie.com






"Nunca vivi sem medos. À medida que envelheço vejo-os apenas substituídos. Posso fazer assim a crônica dos meus horrores, cobra, eletricidade, viagens, mortes. Agora, o inominável pavor de que meus filhos tenham morte violenta. Por isso, talvez, goste de cemitérios, porque lá já se morreu, não se corre mais riscos. É como se eu não tivesse pele, minhas vísceras palpitam expostas. Odeio telefone, é impudente, toca à meia-noite para maus avisos."

Adélia Prado em "Prosa Reunida" - Editora Siciliano, p. 192
.