16/10/2017

Saudação da saudade



Minha saudade
saúda tua ida
mesmo sabendo
que uma vinda
só é possível
noutra vida

Aqui, no reino
do escuro
e do silêncio
minha saudade
absurda e muda
procura às cegas
te trazer à luz

Ali, onde
nem mesmo você
sabe mais
talvez, enfim
nos espere
o esquecimento

Aí, ainda assim
minha saudade
te saúda
e se despede
de mim

Alice Ruiz

18/08/2017

Goethe

"Todos os dias devíamos ouvir um pouco de música, ler uma boa poesia, ver um quadro bonito e, se possível, dizer algumas palavras sensatas." Goethe

11/08/2017




Livro do meu amor, do teu amor,
Livro do nosso amor, do nosso peito...
Abre-lhe as folhas devagar, com jeito,
Como se fossem pétalas de flor.

Olha que eu outro já não sei compor
Mais santamente triste, mais perfeito.
Não esfolhes os lírios com que é feito
Que outros não tenho em meu jardim de dor!

Livro de mais ninguém! Só meu! Só teu!
Num sorriso tu dizes e digo eu:
Versos só nossos mas que lindos sois!

Ah! meu Amor! Mas quanta, quanta gente
Dirá, fechando o livro docemente:
"Versos só nossos, só de nós dois!"

(Florbela Espanca)

08/08/2017

Congresso internacional do medo


Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
não cantaremos o ódio, porque este não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte.
Depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas.

Carlos Drummond de Andrade

Foto: google.

01/08/2017

Que é a vida?


A vida cobra pedágio.
O mal feito tem seu preço
e, nem sempre, o bem feito
é recompensado.

A vida é dura,
e nem sempre são os maus e mentirosos
que pagam a conta.

Injustiça?
Não compreendo.
Mas, afinal... que sei eu
da Vida?


Alairce Rodrigues (2011)

18/03/2017

Trilhando

TRILHANDO


Longo caminho.
Longínquo demais para mim.
Lá do outro lado
a Tua mão
que se estende pra cá
e pede-me para retornar.

Trilhar o caminho de volta,
soltar as amarras que me prendem à dor,
passo a passo;
Doem os pés,
o céu está escuro,
e o que farei?
Olharei para as estrelas?

Lá de cima
ninguém vai descer
- de novo -
para me dizer
o que já disse.

E o que eu farei?
Tão longo é o caminho,
tão duras são as pedras
e eu tão pequena.

Mais um passo,
eu vou a Ti
enquanto soltas mais um nó.
Eu vou para casa.

Só de saber que Tu ages,
que não estou só,
longo pode ser o caminho,
doloroso pode ser trilhá-lo,
mas maior que tudo isso
É o Teu amor.

Eu vou.