08/02/2010

Amar



Amar

.
Que pode uma criatura senão,

entre criaturas, amar?

amar e esquecer,

amar e malamar, amar,

desamar, amar?

Sempre, e até de olhos vidrados, amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso,

sozinho, em rotação universal, senão

rodar também, e amar?

amar o que o mar traz à praia,

o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,

é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,

o que é entrega ou adoração expectante,

e amar o inóspito, o áspero,

um vaso sem flor, um chão de ferro,

e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave

de rapina. Este o nosso destino: amor sem conta,

distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,

doação ilimitada a uma completa ingratidão,

e na concha vazia do amor a procura medrosa,

paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura

nossa

amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede

infinita.


Carlos Drummond de Andrade

Imagem: Tarde de Chuva - Liz Guides

07/02/2010

Como eu te amo

HOW DO I LOVE THEE? LET ME COUNT THE WAYS
Elizabeth Barrett Browning
How do I love thee? Let me count the ways.
I love thee to the depth and breadth and height
My soul can reach, when feeling out of sight
For the ends of Being and ideal Grace.
I love thee to the level of everyday's
Most quiet need, by sun and candle-light.
I love thee freely, as men strive for Right;
I love thee purely, as they turn from Praise.
I love thee with a passion put to use
In my old griefs, and with my childhood's faith.
I love thee with a love I seemed to lose
With my lost saints, --- I love thee with the breath,
Smiles, tears, of all my life! --- and, if God choose,
I shall but love thee better after death.
***
Amo-te quanto em largo, alto e profundo
Minh’alma alcança quando, transportada,
Sente, alongando os olhos deste mundo,
Os fins do Ser, a Graça entressonhada.
.
Amo-te em cada dia, hora e segundo:
À luz do sol, na noite sossegada.
E é tão pura a paixão de que me inundo
Quanto o pudor dos que não pedem nada.
.
Amo-te com o doer da velhas penas;
Com sorrisos, com lágrimas de prece,
E a fé da minha infância, ingênua e forte.
.
Amo-te até nas coisas mais pequenas.
Por toda a vida. E, assim Deus o quisesse,
Ainda mais te amarei depois da morte.
***
Elizabeth Barrett Browning
Tradução de Manuel Bandeira
***

Solilóquio Nº 5

Moras na minha solidão...
Se estão fechadas as janelas:
és a noite onde me recolho
e me deixo ficar...
Se escancaro as janelas:
entras e invades tudo
como o sol... ou o luar...
***
J. G. de Araújo Jorge

06/02/2010

Solilóquio Nº 1

Digo teu nome para mim baixinho,
iludindo a saudade e a solidão...
Repito-o, na aflição do meu carinho,
como quem segue triste em seu caminho...
...e se põe a cantar sem ter razão.
J. G. de Araújo Jorge

05/02/2010

Dia de Chuva


Dia de chuva,

dia cinzento,

dia de névoa,

dia de vento...

.



Vento que venta,

chuva que chove,

névoa cinzenta

que me comove...

.

Cinza tão fria

que cobre tudo:

alma de um dia

tedioso e mudo.

.



O mar de espumas,

- prata brunida -

tal como em brumas

a minha vida.

.



O céu parece

que vem a mim,

e a chuva desce

mansa, sem fim.

.



Faz bem à alma

esta tristeza

e a doce calma

da natureza.

.



Turva aquarela

à nossa vista,

como uma tela

impressionista.

.



No chão das ruas,

pelos dois lados,

há poças nuas

de olhos pisados..

.



Dançam letreiros

bêbados, frios,

qual marinheiros

sem seus navios.

.



Frios letreiros

piscam nervosos,

quais sinaleiros

de inúteis gozos.

.

Noite de chuva,

noite de vento,

noite viúva,

- pranto e lamento.

.



Vento que venta,

chuva que chove,

névoa cinzenta

que me comove.

.



Chuva morfina

que, assim, tão calma,

tão mansa e fina

chove em minha alma.


***

J. G. de Araújo Jorge

Foto: Liz Guides

O Feitiço de Áquila (117 minutos)


Na Europa do século XII, o Bispo de Áquila (John Wood) toma conhecimento de que sua amada, a bela Isabeau Dante (Michelle Pfeiffer), está apaixonada pelo Capitão Etienne Navarre (Rutger Hauer), um cavaleiro. Áquila, possuído de raiva e ciúme, lança uma maldição sobre o casal: de dia ela sempre será um falcão e de noite Navarre tomará a forma de um lobo, ficando o casal impedido de se entregar um ao outro. Eles têm como únicos aliados Phillipe Gaston (Matthew Broderick), mais conhecido como Rato, que é o único prisioneiro que escapou das muralhas de Áquila, e o frei Imperius (Leo McKern). Dirigido por Richard Donner .


Minha nota: ****


[...]Queria e entretanto, como a noite e o dia,
- quando eu chego, tu partes,
quando voltas, não posso mais te ver. . .
E vivemos os dois, eternamente, assim,
ou das horas tristonhas de algum poente,
ou das horas furtivas de um nascer...
Se o destino não quer, - que fazer?
- não nascendo,
para seguir os dois por um mesmo caminho,
- tu deves andar só,
eu devo andar sozinho;
nem podes me culpar,
nem te culpo nada.
E temos que viver avaramente assim
das migalhas de amor de cada encruzilhada...
***
J. G. de Araújo Jorge (excertos)

04/02/2010

Velho Tema I


Só a leve esperança em toda a vida

Disfarça a pena de viver, mais nada:

Nem é mais a existência, resumida,

Que uma grande esperança malograda.

.


O eterno sonho da alma desterrada,

Sonho que a traz ansiosa e embevecida,

É uma hora feliz, sempre adiada

E que não chega nunca em toda a vida.

.


Essa felicidade que supomos

Árvore milagrosa que sonhamos

Toda areada de dourados pomos,

.


Existe, sim: mas nós não a alcançamos

Porque está sempre apenas onde a pomos

E nunca a pomos onde nós estamos.


****

Vicente Augusto de Carvalho
Crédito da imagem: http://www.blogger.com/

03/02/2010

The other side of heaven /Nunca desista de seus sonhos

Um jovem missionário mórmon, nos anos 50, John Groberg (Christopher Gorham) embarca em uma longa viagem juntamente com os nativos da ilha Tongan, deixando para trás a noiva, Jean Sabin (Anne Hathaway) e sua família. Durante sua estada na ilha, escreve cartas para sua noiva, relatando suas aventuras para sobreviver em uma terra desconhecida. Ao mesmo tempo, Groberg conhece a cultura local e faz amigos nos três anos que passa longe de casa. Foram contratados vários atores polinésios com pouca experiência para integrar o elenco de apoio de O Outro Lado do Céu. O roteiro, de Mitch Davis, é baseado em livro de John H. Groberg. Título original: The Other Side of Heaven.




Para Cury, os sonhos são como uma bússola, indicando os caminhos que seguiremos e as metas que queremos alcançar. São eles que nos impulsionam, nos fortalecem e nos permitem crescer. Se os sonhos são pequenos, nossas possibilidades de sucesso também serão limitadas. Desistir dos sonhos é abrir mão da felicidade porque quem não persegue seus objetivos está condenado a fracassar 100 % das vezes.

Nota para o filme: ****
Nota para o livro: ****

Canção das mulheres

Canção das mulheres
......................................
Que o outro saiba quando estou com medo, e me tome nos braços sem fazer perguntas demais.

Que o outro note quando preciso de silêncio e não vá embora batendo a porta, mas entenda que não o amarei menos porque estou quieta.

Que o outro aceite que me preocupo com ele e não se irrite com minha solicitude, e se ela for excessiva saiba me dizer isso com delicadeza ou bom humor.

Que o outro perceba minha fragilidade e não ria de mim, nem se aproveite disso.

Que se eu faço uma bobagem o outro goste um pouco mais de mim, porque também preciso poder fazer tolices tantas vezes.

Que se estou apenas cansada o outro não pense logo que estou nervosa, ou doente, ou agressiva, nem diga que reclamo demais.

Que o outro sinta quanto me dói a idéia da perda, e ouse ficar comigo um pouco - em lugar de voltar logo à sua vida.

Que se estou numa fase ruim o outro seja meu cúmplice, mas sem fazer alarde nem dizendo ''Olha que estou tendo muita paciência com você!''

Que quando sem querer eu digo uma coisa bem inadequada diante de mais pessoas, o outro não me exponha nem me ridicularize.

Que se eventualmente perco a paciência, perco a graça e perco a compostura, o outro ainda assim me ache linda e me admire.

Que o outro não me considere sempre disponível, sempre necessariamente compreensiva, mas me aceite quando não estou podendo ser nada disso.

Que, finalmente, o outro entenda que mesmo se às vezes me esforço, não sou, nem devo ser, a mulher-maravilha, mas apenas uma pessoa: vulnerável e forte, incapaz e gloriosa, assustada e audaciosa - uma mulher.

Lya Luft
Crédito da image: http://www.blogger.com

02/02/2010

Frost/Nixon ((2008,122 min)


Richard Nixon (Frank Langella), depois de permanecer em silêncio por três anos após a sua renuncia à presidência dos Estados Unidos, aceita, em 1977, dar uma entrevista a um jovem apresentador de TV, David Frost (Michael Sheen), para confrontar as perguntas sobre seu conturbado tempo na Casa Branca e sobre o escândalo do Watergate, que o levou à renúncia.

Adaptação da montagem teatral escrita por Peter Morgan, com direção de Ron Howard.

Poema da Amante


Eu te amo

Antes e depois de todos os acontecimentos,

Na profunda imensidade do vazio

E a cada lágrima dos meus pensamentos.


Eu te amo

Em todos os ventos que cantam,

Em todas as sombras que choram,

Na extensão infinita do tempo

Até a região onde os silêncios moram.


Eu te amo

Em todas as transformações da vida,

Em todos os caminhos do medo,

Na angústia da vontade perdida

E na dor que se veste em segredo.


Eu te amo

Em tudo que estás presente,

No olhar dos astros que te alcançam

Em tudo que aindas estás ausente.


Eu te amo

Desde a criação das águas,

Desde a ideia do fogo

E antes do primeiro riso e da primeira mágoa.


Eu te amo perdidamente,

Desde a grande nebulosa

Até depois que o universo cair sobre mim

Suavemente.

***********

Adalgisa Nery (1905/1980)
Crédito da imagem:http://imagensdecoupage.blogspot.com


01/02/2010

Volta

Voltei a todos os lugares em que estivemos juntos,
não os reconheci.
São os mesmos, os lugares,
mas eu já não sou o mesmo
quando os vejo sem ti.
.
J.G.de Araujo Jorge

31/01/2010

Um tema... e duas variações


I

Tu te aninhaste com tua beleza

em meus braços,

como uma criança indefesa,

e te deixaste ficar...

E, eu te recolhi, como um ramo

recolhe o pássaro no ar...

II

Fizeste ninho em meus braços,

chegaste, como alguém

que precisa de outro alguém

para se amparar...

E eu fiquei sem saber, por momentos,

se devia te amar

ou te embalar...

***

J. G. de Araujo Jorge

30/01/2010

Dois

Dois...
Apenas dois.
Dois seres...
Dois objetos patéticos.
Cursos paralelos
Frente a frente...
... Sempre...
... A se olharem... Pensar talvez.
"Paralelos que se encontram no ininito..."
No entanto sós por enquanto.
Eternamente apenas dois.
Pablo Neruda

29/01/2010

Procura


Vou seguindo meu caminho

a procurar-me.

Estarei na estrela? Na vaga do mar?

Atrás da montanha? Na água que corre

estarei?


Na rua, no avião, no pássaro livre

no gesto do galho, na gota de chuva,

na rosa vermelha, no canto da criança

estarei?


Difícil é achar-me

disperso me encontro

na face das coisas

que chegam, que passam.


Um olho no rio, um pé no caminho,

o sangue na aurora, as mãos pelo mar,

quem sabe onde estou?


Talvez passe junto a mim mesmo,

quem sabe?

Me olho nos olhos, me toco nas mãos,

me falo e respondo,

não me reconheço.


Vou seguindo meu caminho

a procurar-me.

...

J. G. de Araújo Jorge

Livro: A Outra Face.

28/01/2010

Entre o ser e as coisas

Entre o ser e as coisas
Onda e amor, onde amor, ando indagando
ao largo vento e à rocha imperativa,
e a tudo me arremesso, nesse
quando amanhece frescor de coisa viva.
Às almas, não, as almas vão pairando,
e, esquecendo a lição que já se esquiva,
tornam amor humor, e vago e brando
o que é de natureza corrosiva.
N´água e na pedra amor deixa gravados
seus hieróglifos e mensagens, suas
verdades mais secretas e mais nuas.
E nem os elementos encantados
sabem do amor que os punge e que é, pungindo,
uma fogueira a arder no dia findo.
***
Carlos Drummond de Andrade
Entre o ser e as coisas
1951 - CLARO ENIGMA

27/01/2010

Soneto XCIV

(Porto Belo SC)
.........................
Se morro sobrevive-me com tanta força pura
que despertes a fúria do pálido e do frio,
de Sul a Sul levanta teus olhos indeléveis,
de sol a sol que soe tua boca de guitarrra.
Não quero que vacilem teu riso nem teus passos,
não quero que pereça minha herança de alegria,
não me chames a meu peito, estou ausente.
Vive em minha ausência como em uma casa.
É casa tão grande a ausência
que passarás nela através dos muros
e pendurarás os quadros no ar.
É uma casa tão transparente a ausência
que eu sem vida te verei viver
e se sofres, meu amor, morrerei outra vez.
Pablo Neruda
 

26/01/2010

É preciso


É preciso não esquecer nada:

nem a torneira aberta nem o fogo aceso,

nem o sorriso para os infelizes

nem a oração de cada instante.

É preciso não esquecer de ver a nova borboleta

nem o céu de sempre.

O que é preciso é esquecer o nosso rosto,

o nosso nome, o som da nossa voz, o ritmo do nosso pulso.

O que é preciso esquecer é o dia carregado de atos,

a ideia de recompensa e de glória.

O que é preciso é ser como se já não fôssemos,

vigiados pelos próprios olhos

severos conosco, pois o resto não nos pertence.


Cecília Meireles

25/01/2010

Janela Aberta

Chegaste em minha vida
como uma janela aberta
numa casa vazia e triste.
Trouxeste um dia de sol,
um aceno de folhagem,
um canto de pássaro.
Que importa se continuo a ser
a mesma casa triste
e vazia?
Debruçado à janela agora
posso te ver passar...
todo dias...
***
J. G. de Araújo Jorge

24/01/2010

À Noite

À Noite
***
É à noite,
quando me sinto mais só,
que meus pensamentos ganham forças ignoradas,
para imprimir-te em meus olhos,
e te imporem aos meus sentidos...
Em vão estendo os braços para buscar-te...
Me debato nesta ânsia crescente e fugaz,
como um nadador exausto, a agarrar-se
às miragens finais...
***
J. G. de Araújo Jorge

18/01/2010

Blade Runner (EUA, 1982, 118 minutos)

Num futuro distante (Século XXI), em que a humanidade inicia a colonização espacial e cria seres geneticamente alterados - replicantes - utilizados em tarefas pesadas, perigosas ou degradantes nas novas colônias, fabricados pela Tyrell Corporation como sendo "mais humanos que os humanos", os modelos Nexus-6 são fisicamente idênticos aos humanos, porém mais fortes e ágeis. Devido a problemas de instabilidade emocional e reduzida empatia, os replicantes são sujeitos a um comportamento agressivo, por isso seu período de vida é limitado a quatro anos.
Após um motim, a presença dos replicantes na
Terra é proibida, sendo criada uma força policial especial - blade runners — para os caçar e "aposentar" (matar). O filme relata como um ex-blade runner - Deckard - é levado a voltar à ativa para caçar um grupo de replicantes que se rebelou e veio para a Terra à procura do seu criador, para tentar aumentar o seu período de vida e escapar da morte que se aproxima.
Harrison Ford.... Deckard / narradorRutger Hauer.... Roy BattySean Young.... RachaelEdward James Olmos.... GaffM. Emmet Walsh.... capitão BryantDaryl Hannah… Pris
William Sanderson.... J.F. Sebastian
Brion James.... Leon
Joe Turkell.... Tyrell
Joanna Cassidy.... Zhora
James Hong.... Hannibal Crew
Morgan Paull.... Holden
Direção: Ridley Scott
Oscar 1983 (EUA)
Indicado nas categorias de
melhor direção de arte e melhores efeitos visuais.BAFTA 1983 (Reino Unido)
Venceu na categoria de melhor figurino, melhor direção de arte e melhor fotografia.
Indicado nas categorias de melhor montagem, melhor maquiagem, melhor trilha sonora, melhor som, melhor e melhores efeitos visuais.
Fantasporto 1983 (Portugal)
Indicado na categoria de melhor filme.
Globo de Ouro 1983 (EUA)
Indicado na categoria de melhor trilha sonora de cinema.
Prêmio Saturno 1983 (EUA)
Indicado nas categorias de melhor diretor, melhor filme de ficção científica, melhor ator coadjuvante (Rutger Hauer) e mehores efeitos visuais
.

10/01/2010

A Veracidade da Fé Cristã


William Lane Craig é doutor em Teologia pelas Universidades de Munique e em Filosofia. Foi professor de Filosofia da Religião na Trinity Evangelical Divinity Scohool (Estados Unidos) e no Institut Supérieur de Philosofie (Bélgica).
É considerado o maior apologista cristão da atualidade, dominando seus objetos de estudo, que variam da teologia e filosofia à cosmologia. Este é um livro que todo cristão deveria ler.
"Antes de fazer a defesa do cristianismo, temos de lidar com algumas questões fundamentais ligadas à natureza e à relação entre fé e razão. Como sabemos com exatidão que o cristianismo é verdadeiro? É simplesmente por um salto de fé ou pela autoridade da Palavra de Deus, duas coisas sem relação com a razão? Será que a experiência religiosa nos garante a veracidade da fé cristã, de modo que nenhuma outra explicação se faz necessária? Ou seria preciso uma base racional para a fé, sem a qual eesta seria injustificada e irracional?" (p.17)

09/01/2010

Fizeste ninho em meus braços,
chegaste, como alguém
que precisa de outro alguém
para se amparar...
E eu fiquei sem saber,
por momentos,
se devia te amar
ou te embalar...
Araújo Jorge (excertos)

06/01/2010

A Rede (The Net, 1995, 112 min)

O filme inicia com o Sr. Bergstrom, Secretário da Defesa, cometendo suicídio porque acaba de ser informado que está infectado pelo vírus da AIDS, indubitavelmente por causa de relações extra-conjugais ilícitas. Descobrimos, mais tarde, que esse exame médico era totalmente falso, tendo sido colocado em seu registro via computador.
Angela Bennett (Sandra Bullock) é uma programadora, especialista em corrigir sistemas de informática, que se vê repentinamente envolvida em uma trama pelo fato de ter recebido um disquete, de um executivo da Cathedral Computer Systems, que revela graves segredos do governo. Para destruí-la, um esquema é criado, com a finalidade de mudar seu nome, seu passado e sua identidade. Seu passaporte é destruído, crimes são atribuídos a ela, seu nome verdadeiro desaparece dos arquivos e ela tem que usar outro nome e viver outra vida. Uma experiência que nos mostra como é fácil apagar e alterar a vida de qualquer cidadão de bem, se assim for conveniente.
Minha nota: ****

04/01/2010

Gattaca (USA, 1997)


Num futuro não muito distante, no qual os seres humanos são criados geneticamente em laboratórios, as pessoas concebidas biologicamente são consideradas "inválidas". A sociedade de Gattaca está dividida em duas “classes sociais”, os Válidos, os “filhos da Ciência”, produtos da engenharia genética e da eugenia social, e os Inválidos, os “filhos de Deus”, submetidos ao acaso da Natureza e às impurezas genéticas.
Neste mundo, a manipulação genética criou novas espécies de castas, preconceitos e divisões sociais, legitimadas pela ciência. Vincent Freeman (Ethan Hawke), é um "inválido", o primogênito concebido por amor, enquan to que seu irmão Anton foi manipulado geneticamente. Vincent consegue um lugar de destaque em corporação, escondendo sua verdadeira origem e tomando o lugar de um "válido,Jerome (Jude Law), tentando cumprir seu sonho de ser astronauta e ir para a lua Titã. Mas um misterioso caso de assassinato pode expôr seu passado, pondo em risco sua paixão por Irene Cassini (Uma Thurmann).
Produção: Danny de Vito, Michael Shamberg e Stacey Sher, direção de Andrew Niccol .
Minha nota: ****

03/01/2010

“Põe-me como selo sobre teu coração, como selo sobre o teu braço, porque o amor é forte como a morte e duro como a sepultura o ciúme; as suas brasas são brasas de fogo, são veementes labaredas. As muitas águas não poderiam apagar o amor, nem os rios afogá-lo”. (Cantares 8: 6 e 7)

31/12/2009

Receita de Ano Novo

Receita de ano novo

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação
com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo,
remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia, se ama,
se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha
ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens? passa telegramas?)
Não precisa fazer lista de boas intenções

para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar que
por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados,
começando pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um Ano Novo

que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo,
eu sei que não é fácil, mas tente,
experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

Carlos Drummond de Andrade

30/12/2009

Dúvida (Doubt, 2008, USA, 16 anos)


O carismático padre Brendan Flynn (Philip Seymour Hoffman) tenta acabar com os rígidos costumes da escola St. Nicholas, localizada no Bronx, em plenos anos 60, mas a diretora do local é a irmã Aloysius Beauvier (Meryl Streep), que acredita no poder do medo e da disciplina, dirigindo com mãos de ferro. A escola aceitou recentemente seu primeiro aluno negro, Donald Miller (Joseph Foster), devido às mudanças políticas da época. A irmã James (Amy Adams) conta à diretora suas suspeitas sobre o padre Flynn, de que esteja dando atenção demais a Donald, o que é o suficiente para que a irmã Aloysius inicie uma cruzada moral contra o padre, tentando a qualquer custo expulsá-lo da escola, apoiada apenas na sua certeza moral.
site oficial:http://www.doubt-themovie.com/
http://movieclock.com/aw/cvpa.aw/e/189145/Doubt.html
Minha nota: ****

25/12/2009

Natal


Jesus nasceu. Na abóbada infinita

Soam cânticos vivos de alegria;

E toda a vida universal palpita

Dentro daquela pobre estrebaria...


Não houve sedas, nem cetins, nem rendas

No berço humilde em que nasceu Jesus...

Mas os pobres trouxeram oferendas

Para quem tinha de morrer na cruz.


Sobre a palha, risonho, e iluminado

Pelo luar dos olhos de Maria,

Vede o Menino-Deus, que está cercado

Dos animais da pobre estrebaria.


Nasceu entre pompas reluzentes;

Na humildade e na paz deste lugar,

Assim que abriu os olhos inocentes

Foi para os pobres seu primeiro olhar.

No entanto, os reis da terra, pecadores,

Seguindo a estrela que ao presepe os guia,

Vem cobrir de perfumes e de flores

O chão daquela pobre estrebaria.

Sobem hinos de amor ao céu profundo;

Homens, Jesus nasceu! Natal! Natal!

Sobre esta palha está quem salva o mundo,

Quem ama os fracos, quem perdoa o mal,

Natal! Natal! Em toda a natureza

Há sorrisos e cantos, neste dia...

Salve Deus da humildade e da pobreza

Nascido numa pobre estrebaria.

>>>

Olavo Bilac

23/12/2009

Natal


Natal...Natal... meus tempos de menino,
Tempos felizes que não voltam mais...
Missa do galo... repicar do sino...
E a casa pobre dos meus velhos pais...
.
Natal... a mocidade... o desatino...
Amores loucos, ternos madrigais...
Mulheres que dobraram meu destino...
Beijos de lacre, quentes e fatais...
.
Papai Noel! Atende ao meu pedido
Nesta noite de paz e de bonança...
Atende... pelo muito que hei sofrido...
.
E em meus sapatos põe a caridade,
De um pedaço bonito de esperança,
De um farrapo esquecido de saudade...
*****
Ciro Vieira da Cunha

22/12/2009


"Este é meu dilema: Sou apenas pó e cinzas; frágil, tendente ao desvio, um conjunto de reações pré-determinadas em minha conduta, acossado por temores, cercado por necessidades, a quintessência da poeira, que ao pó voltará.


Mas há alguma outra coisa em mim. Posso ser pó, mas pó perturbado. Pó que sonha. Pó que passa por estranhas premonições de transfiguração, de glória reservada, de destino adredemente preparado, de uma herança que um dia será minha. Desse modo, minha vida é vivida na dolorosa dialética entre as cinzas e a glória, entre a fraqueza e a transfiguração. Sou um rebelde contra mim mesmo, um enigma exasperado, esse estranho dualismo de poeira e glória." Richard Holloway

21/12/2009

" Desolação "


"Desolação "


Na profunda tristeza deste instante,

em que o irremediável

abalou a minha sorte,

na certeza de que te ausentaste definitivamente,

- eu pensei pela primeira vez na morte ...

Tudo desapareceu aos meus olhos atônitos

e eu me senti sozinho...

- já não há finalidade na minha criação

nem desejo na minha vida...

Só não abro em meu peito o coração, e o ponho na lapela

como rubra papoula em flor,

- porque sei que ainda te encontras dentro dele,

e nem mesmo a tua lembrança eu ousaria ferir

oh! meu amor!


(Poema de J. G. de Araújo Jorge,

do livroEterno Motivo)
Foto: Liz Guides

20/12/2009

Apelos

Os apelos do íntimo e os apelos da rua
como matéria de poesia, nua e crua

Diálogo sem fim
e a esmo
entre mim
e mim mesmo.

Tudo o que vi e que vivi retomo
e ao que o destino me negou
eu somo.

Afonso Félix de Souza

10/12/2009

" A Noite... e Teus Olhos..."

Ah! parece que a noite vem se aleitar
de nebulosas e de astro
sem teus fugidios.
E que teus olhos se abastecem de luz
e mistério,
nas noites profundas e consteladas...
J. G. de Araujo Jorge
(do livro"A Sós..." 1a ed. 1958 )

09/12/2009

A voz pelo telefone

Voz amiga, que me acostumei a ouvir na noite, e que me falava do amor ainda possível na terra, das viagens para o desconhecido, das mãos unidas, dos olhos mergulhados nos olhos, das fugas, das solidões profundas.
Eu ouvia sempre a voz doce, velada, calma(que às vezes se entrecortava de um soluço e rasgava uma pausa dolorosa na conversa) e pensava que a vida não é afinal uma coisa absurda, porque dentro dela cabem palavras brandas, que acalantam as almas. E a voz continuava, murmúrio amigo, na longa noite mineira.
(Longe, homens matavam-se. Perto, outros homens atiravam-se palavras feias. O rádio funcionava. A vida funcionava. A voz perdia-se dentro da confusão, e era consoladora).
Tantas ruas reparando a nossa conversa. Bondes passando no meio, corpos se entrecruzando, homens tirando o chapéu. Os guardas. Funcionários e todas as repartições de todas as cidades. Detetives. Curiosos anônimos. Todos os homens que escutam atrás das portas, que veem através da porta. E a voz constante, alegre e tranquila, zombando de tudo, saltando de uma casa para outra e mantendo comigo o infinito, noturno diálogo.
Depois o silêncio.
Silêncio dentro e fora de nós, dissolvendo o mundo e suas criaturas sem sentido. Eu escutava esse silêncio casto. E dentro dele a voz ainda existia, mais tênue que um sopro, lembrança de voz, desenho, reflexo, sombra de voz, contando segredos. Que importa que os outros não ouçam? A voz é tênue, e os homens são surdos. Eu sozinho escutava, e tinha medo de que ela emigrasse para Passárgada, onde os ouvidos são sutilíssimos e as músicas mais especiosas andam no ar.
Mas nós estávamos em Minas Gerais, Brasil, país de caminhos fechados, país irremediável...
Carlos Drummond de Andrade

Sonetos do amante


Sonetos do amante

III

Tudo que tenho a dar quando te entregas
a mim – é muito pouco. Já não basta
que os gestos guardem tantas ânsias cegas
de amar, de ser. Pois a memória arrasta
o rio do passado, que não regas,
que não regaste, com a água da vasta
fonte com que me embriagas; e se negas
ser a que fica em mim quando se afasta
da carne e da poesia: hora em que tento
outros mundos criar no pensamento,
contigo, além do tempo e da distância.
Não basta dar-te o canto como preço
do corpo junto ao meu, se ainda não desço
ao abismo onde o amor devolve a infância.

VI
Pudesse oferecer-te o que não tenho
numa palavra há muito tempo presa
nas grades do silêncio. E, donde venho
buscar-te com a minha natureza
de deus e de animal, trouxesse o lenho
que avivaria a sede sempre acesa
de aplacar tantas sedes que retenho
de ser mais do que sou, dar-te a beleza
do efêmero perdido, do que tive
de infância e de ternura, do que vive
em mim de quem mais quer e que te quer
- talvez sentisses mais que a carne pobre
que me eleva e revela, mas me cobre,
e sentisse eu em ti mais que a mulher.

VIII
Eternizar o amor que fora eterno
embora só vivesse dois instantes:
um quando ao céu me alçou – a um céu sem antes;
depois, ao acender em mim o inferno.
Banida do presente, em lago terno
voltes a me banhar e desencantes
o mar que clama em vão, de ondas cortantes
partindo do meu ser, banhando o eterno.
Eternizar o amor de um só momento
e quanto mais perdê-lo mais ganhá-lo.
E quanto mais ganhá-lo mais alento
trazer no que recordo e no que falo,
para que possa, em febre e em sentimento,
em mármore e em saudade, eternizá-lo.

Afonso Félix de Souza

08/12/2009

Nossa cama


Nossa cama

************
Olho nossa cama. Palco vazio

sem o drama, sem a comédia,

do nosso amor.

A nossa cama branca,

branca página, em silêncio,

de onde tudo se apagou...


(Meu Deus! quem poderia ler aquelas ânsias, aqueles gemidos,

aqueles carinhos

que a mão do tempo raspou, como nos velhos

pergaminhos?...)


A nossa cama

imensa, como a tua ausência,

tão ampla, tão lisa, tão branca, tão simplesmente cama,

e era, entretanto, um mundo,

de anseios, de viagens, de prazer,

- oceano, que teve ondas e gritos encapelados,

nele nos debatemos tanta vez como náufragos

a nadar... e a morrer...


Olho a nossa cama, palco vazio,

em nosso quarto, - teatro fechado –

que não se reabrirá nunca mais...


Nossa cama, apenas cama, nada mais que cama

alva cama, em sua solidão

em seu alvor...


Nossa cama

- campa (sem inscrição)

do nosso amor.


( Poema de J. G. de Araujo Jorge,

do livro – Quatro Damas – 1965
Image: gettyimages.com)

07/12/2009

NO CORPO


NO CORPO
....................

De que vale tentar reconstruir com palavras
O que o verão levou

Entre nuvens e risos

Junto com o jornal velho pelos ares

O sonho na boca, o incêndio na cama,o apelo da noite

Agora são apenas esta

contração (este clarão)

do maxilar dentro do rosto.

A poesia é o presente.




Ferreira Gullar

06/12/2009

Tarde demais...

Tarde demais...

Quando chegaste enfim, para te ver
Abriu-se a noite em mágico luar;
E para o som dos teus passos conhecer
Pôs-se o silêncio, em volta, a escutar...
.
Chegaste, enfim! Milagre de endoidar!
Viu-se nessa hora o que não pode ser:
Em plena noite, a noite iluminar
E as pedras do caminho florescer!
.
Beijando a areia de oiro dos desertos
Procurara-te em vão! Braços abertos,
Pés nus, olhos a rir, a boca em flor!
.
E há cem anos que eu era nova e linda!...
E a minha boca morta grita ainda:
Porque chegaste tarde, ó meu Amor?!...

Florbela Espanca,
Livro de Soror Saudade (1923)

05/12/2009

Diálogo


Diálogo

............

Debruçados sobre a vida

Indagamos seus mistérios

e raramente dançamos

suas respostas cifradas.

Ao calor do interrogar-se

Nuvens ocultas esgarçam-se

A luz em nós amanhece.

...

Helena Kolody

03/12/2009

A Pior Solidão "


"A Pior Solidão "
Pior do que a solidão pura e simples,
a solidão dos ascetas
ou dos insanos,
( a mansa solidão, torre de êxtase e prece
- ou a áspera solidão que aterra e que apavora,)
é esta povoada pelo fantasma de um amor
que havemos de carregar pelos anos afora...
(Poesia de J. G. de Araujo Jorge ,
- De mãos dadas- 2a edição 1966)

02/12/2009

Hai Kai


Tão longa a jornada!
E a gente cai, de repente
No abismo do nada.
.
Helena Kolody

01/12/2009

Mistério


Mistério

.............



Gosto de ti, ó chuva, nos beirados,

Dizendo coisas que ninguém entende!

Da tua cantilena se desprende

Um sonho de magia e de pecados.


Dos teus pálidos dedos delicados

Uma alada canção palpita e ascende,

Frases que a nossa boca não aprende,

Murmúrios por caminhos desolados.


Pelo meu rosto branco, sempre frio,

Fazes passar o lúgubre arrepio

Das sensações estranhas, dolorosas...


Talvez um dia entenda o teu mistério...

Quando inerte, na paz do cemitério,

O meu corpo matar a fome às rosas!

***

Florbela Espanca