11/06/2010

Viagem

Viagem


No perfume dos meus dedos,

há um gosto de sofrimento,

como o sangue dos segredos

no gume do pensamento.

Por onde é que vou?
 


Fechei as portas sozinha.

Custaram tanto a rodar!

Se chamasse, ninguém vinha.

Para que se há de chamar?

Que caminho estranho!
Eras coisa tão sem forma,




tão sem tempo, tão sem nada...

- arco-íris do meu dilúvio! -

que nem podias ser vista

nem quase mesmo pensada.

Ninguém mais caminha?

A noite bebeu-te as cores

para pintar as estrelas.

Desde então, que é dos meus olhos?

Voaram de mim para as nuvens,
com redes para prendê-las.

Quem te alcançará?

Dentro da noite mais densa,

navegarei sem rumores,

seguindo por onde fores

como um sonho que se pensa.

Para onde é que vou?

Cecília Meireles(1901-1964)

10/06/2010

Soneto de Separação


"Soneto de Separação"



De repente do riso fez-se o pranto

Silencioso e branco como a bruma

E das bocas unidas fez-se a espuma

E das mãos espalmadas fez-se o espanto

De repente da calma fez-se o vento

Que dos olhos desfez a última chama

E da paixão fez-se o pressentimento

E do momento imóvel fez-se o drama

De repente não mais que de repente

Fez-se de triste o que se fez amante

E de sozinho o que se fez contente

Fez-se do amigo próximo, distante

Fez-se da vida uma aventura errante

De repente, não mais que de repente.
*
Vinicius de Moraes

08/06/2010

Não digam que isso passa





Não digam que isso passa,

não digam que a vida continua,

e que o tempo ajuda,

que afinal tenho filhos e amigos

e um trabalho a fazer.

Não me consolem dizendo que ele morreu cedo

Mas morreu bem ( que não quereria uma morte como essa?)

Não me digam que tenho livros a escrever

e viagens a realizar.

Não digam nada.

Vejo bem que o sol continua nascendo

nesta cidade de Porto Alegre

onde vim lamber minha ferida escancarada.

Mas não me consolem:

da minha dor, sei eu.





Lya Luft

07/06/2010

Se recordo

Se recordo


 
Se recordo quem fui, outrem me vejo,
E o passado é o presente na lembrança.
Quem fui é alguém que amo
Porém somente em sonho.
E a saudade que me aflige a mente
Não é de mim nem do passado visto,
Senão de quem habito
Por trás dos olhos cegos.
Nada, senão o instante, me conhece,
Minha mesma lembrança é nada, e sinto
Que quem sou e quem fui
São sonhos diferentes.


Ricardo Reis
(heterônimo de Fernando Pessoa)

06/06/2010

A Serenata


A serenata







Uma noite de lua pálida e gerânios

ele viria com boca e mão incríveis

tocar flauta no jardim.

Estou no começo do meu desespero

e só vejo dois caminhos:

ou viro doida ou santa.

Eu que rejeito e exprobo

o que não for natural como sangue e veias

descubro que estou chorando todo dia,

os cabelos entristecidos,

a pele assaltada de indecisão.

Quando ele vier, porque é certo que ele vem,

de que modo vou chegar ao balcão sem juventude?

A lua, os gerânios e ele serão os mesmos

- só a mulher entre as coisas envelhece.

De que modo vou abrir a janela, se não for doida?

Como a fecharei, se não for santa?





Adélia Prado

05/06/2010

Versos

Versos! Versos! Sei lá o que são versos...

Pedaços de sorriso, branca espuma,

Gargalhadas de luz, cantos dispersos,

Ou pétalas que caem uma a uma...



Versos...Sei lá! Um verso é teu olhar,

Um verso é teu sorriso e os de Dante

Eram o seu amor a soluçar

Aos pés da sua estremecida amante!

Meus versos!... Sei eu lá também que são...

Sei lá! Sei lá!... Meu pobre coração

Partido em mil pedaços são talvez...



Versos! Versos! Sei lá o que são versos...

Meus soluços de dor que andam dispersos

Por este grande amor em que não crês!...



Florbela Espanca

(1894-1930)

04/06/2010

Depois de tudo

Depois de tudo



Mas tudo passou tão depressa

Não consigo dormir agora.

Nunca o silêncio gritou tanto

Nas ruas da minha memória.

Como agarrar líquido o tempo

Que pelos vãos dos dedos flui?

Meu coração é hoje um pássaro

Pousado na árvore que eu fui.



Cassiano Ricardo

(1895-1974)

02/06/2010

Solitário


" Solitário "


Longe de ti, do mundo - solitário,
sem o riso das falsas alegrias
vou desfiando, um a um, todos os dias,
como contas de dor, no meu rosário...

E assim - sem ter ninguém - oh, quantas vezes!
- no amor que já deixei fico a pensar...
E as semanas se escoam sem parar:
a primeira... outra mais... mais outra... e os meses...


O outono já chegou, e as folhas solta...
E eu, sem querer, nostálgico, me ponho
a pensar que esse amor aos poucos volta...


Mentira!... Vã mentira que me ilude!...
Como é triste a ilusão mesmo num sonho,
Eu que na vida me iludir não pude!...
***
J. G. de Araújo Jorge

01/06/2010

Bolo de cenoura

Cadeira de Rodas



Tenho enganado o destino
e traído minha vida
deixando-me ficar – como estou –
nesta cadeira de rodas do meu tédio...

Quanta aventura, quanto sonho
frutificando em vão,
quanto amor à espera,
para ser colhido
e eu a morrer aos poucos
enraizado e esquecido. . .
Tantos que se vão, sem adeuses
sem nada,
apenas com o seu coração,
com a coragem de romper cabos
e amarras
pela simples alegria de partir. . .

Tantos que um dia se libertam afinal
sem olhar para trás
sem pensar em voltar,
e se perdem, e se encontram,
e renascem das cinzas do que foram
com as mãos cheias de frutos.
Oh! a coragem de partir para não morrer
emparedado!
- atirar-se ao mar, como aqueles velhos navegadores
que adivinhavam terras que ninguém sabia
e enfrentavam o mar - o monstro misterioso –
como loucos pigmeus . . .
Oh! a coragem de largar o velho porto onde o casco
se enche de algas e ferrugem,
nem que seja apenas
pelo prazer dos ventos livres
o balanço das vagas encapeladas
a expectativa de paisagens irreveladas.

A coragem de conquistar a vida que se esconde
atrás dos horizontes
que palpita e atrai como uma estrela fugidia,
e que chega, quente e viva, quando a colhemos
sazonada pela emoção da morte que amadureceu
em suas imprevisíveis searas.
Tenho enganado meu destino
deixando-me ficar
paralítico, sem remédio,
nesta cadeira de rodas do meu tédio . . .

(J. G. de Araujo Jorge -

" Harpa Submersa ", 1a ed. 1952 )

31/05/2010

Lágrima



Orvalho do sofrer - dentro do peito nasce
e nos olhos em pranto sem querer floresce;
aumenta a pouco e pouco, e cada vez mais cresce...
- e rola finalmente em gotas pela face...

sublime florescer da dor... se ela falasse
diria para o mundo a mais sentida prece,
no entanto, em seu silêncio humilde é que enternece
pois guarda na mudez um triste desenlace...

Repentina, ela brota, assim como se fosse
( de um mar que em nosso peito as ondas estugisse)
uma gota que o vento, aos nossos olhos, trouxe...

Nuns olhos de mulher, porém, ainda não disse:
- é a pérola de um mar completamente doce,
de um mar feito de amor... de sonho e de meiguice!
***
(Soneto de J. G. de Araújo Jorge - coletânea -
"Meus Sonetos de Amor " 1a edição1961 )

 

30/05/2010

Para pensar em ti


Para pensar em ti todas as horas fogem:
o tempo humano expira em lágrima e cegueira.
Tudo são praias onde o mar afoga o amor.
Quero a insônia, a vigília, uma clarividência
desse instante que habito - ai, meu domínio triste!,
ilha onde eu mesma nada sei fazer por mim.

Vejo a flor, vejo no ar a mensagem das nuvens
- e na minha memória és imortalidade -
vejo as datas, escuto o próprio coração.
E depois o silêncio. E teus olhos abertos
nos meus fechados. E esta ausência em minha boca:
pois bem sei que falar é o mesmo que morrer.

Da vida à Vida, suspensas fugas.

Cecília Meireles
(1901-1964)
 

29/05/2010

Insônia

" Insônia "


À noite, quando a sós, em meu quarto, me ponho

a pensar no destino que nos quis unir,

não sei se acreditar se isso é verdade ou sonho...

- e fico horas a fio, em luta, sem dormir...

Não devia jamais na vida ter cruzado

meu caminho com o teu, e na alma, alguém me diz:

não terás o teu sonho um dia realizado

porque não poderás com ela ser feliz...


Cruel pressentimento... à noite, quando a sós

estou, na insônia inquieta que me aquece o leito,

é que julgo escutar o poder dessa voz

que vive no meu ser, no âmago do peito...



Tic-tac...Tic-tac...Tic-tac...

É o relógio a pulsar, é a minha solidão

não posso te esquecer, e dentro em mim, bem vejo

há um mundo material nessa paixão

e um pouco de pureza dentro do desejo...





Tic-tac...Tic-tac...Tic-tac...

É o tormenta das noites sem fim

quando ouço passar, segundo por segundo...
Há um relógio também a bater dentro de mim
imitando em meu peito os relógios do mundo...


Tic-tac...Tic-tac...Tic-tac...

Através a vidraça a manhã vem surgindo,

e a luz vencendo a treva enche o quadro de calma...

Após a noite escura há sempre um dia lindo,

e nunca vi surgir a aurora na minha alma...




( Poema de J. G . de Araujo Jorge

do livro "Meu Céu Interior" - 1934)

28/05/2010

Minha Saudade

Minha saudade as cousas transfigura
num estranho delírio semelhante
ao desse eterno cavaleiro-andante
paladino do sonho e da loucura:


minha saudade é fonte que murmura
e em seu cantar humilde e marulhante
mata a sede que abrasa o caminhante
só de o embalar na líquida ternura...


Minha saudade os mundos alumia
os mortos ressuscita e é um sol-nascente
dourando ainda as trevas da agonia;

minha saudade é a força misteriosa
que torna cada cousa em mim presente
e a minha dor presente em cada cousa.
Anrique Paço D’Arcos
***

(Henrique Belford Correia da Silva,

Conde de Paço D’Arcos)

27/05/2010

" Encanto "


A razão por que te amo ? Ignoro; sei somente

que o som da tua voz, o alvor do teu sorriso,

tem o dom de entreabrir, apenas o diviso,

o Éden que estremeço idolatradamente!


Amo-te muito, muito! O teu olhar ardente

é o brilhante fanal que há muito idealizo

e quando estás aqui, o próprio chão que eu piso

com flores se alcatifa imediatamente.


Não podem existir nas noites de Veneza

em que mil galas traja a bela natureza,

(para agradar talvez ao seu amante - o luar...


a irradiação, o aroma, as luzes, a ambrosia,

que o teu olhar esparge em mundos de poesia!

Não há spleen que resista à luz do teu olhar!


Alice Moderno (Paris)
1867-1946

26/05/2010

Eu te amo


"Eu te amo"




Este é um poema de amor

tão meigo, tão terno, tão teu...

É uma oferenda aos teus momentos

de luta e de brisa e de céu...

E eu,

quero te servir a poesia

numa concha azul do mar

ou numa cesta de flores do campo.

Talvez tu possas entender o meu amor.

Mas se isso não acontecer,

não importa.

Já está declarado e estampado

nas linhas e entrelinhas

deste pequeno poema,

o verso;

te deixará pasmo, surpreso, perplexo...

eu te amo, perdoa-me, eu te amo!!!



Cora Coralina


(SBG - 26/05/1957)

25/05/2010

Folhas de rosa







Todas as prendas que me deste, um dia,

Guardei-as, meu encanto, quase a medo,

E quando a noite espreita o pôr-do-sol,

Eu vou falar com elas em segredo ...





E falo-lhes d'amores e de ilusões,

Choro e rio com elas, mansamente...

Pouco a pouco o perfume do outrora

Flutua em volta delas, docemente ...


 

Pelo copinho de cristal e prata

Bebo uma saudade estranha e vaga,

Uma saudade imensa e infinita

Que, triste, me deslumbra e m'embriaga



O espelho de prata cinzelada,

A doce oferta que eu amava tanto,

Que reflectia outrora tantos risos,

E agora reflecte apenas pranto,





E o colar de pedras preciosas,

De lágrimas e estrelas constelado,

Resumem em seus brilhos o que tenho

De vago e de feliz no meu passado...





Mas de todas as prendas, a mais rara,

Aquela que mal fala à fantasia,

São as folhas daquela rosa branca

Que a meus pés desfolhaste, aquele dia...

Florbela Espanca

24/05/2010

Carta a um amor impossível (II)


"Minha vontade é a tua! E meu destino enredo

no teu!... És o meu deus! Teu desejo é o meu credo!

Creio na tua força e no teu pensamento,

e nem um só segundo e nem um só momento

deixarei de seguir-te aonde quer que tu fores,

seja a estrada coberta de espinhos ou flores,

te aureole a fronte a glória e te sirva a riqueza

ou vivas no abandono e sofras na pobreza!

Serei outra Eleonora Duse, e te amarei

com um amor infinito, sem razão nem lei.

Tu serás o meu Poeta imortal, - meu Senhor,

a quem entregarei minha alma e o meu amor!




Creio na tua força e no teu pensamento!

- faço dela um arrimo, e tenho nele o alento

da única razão que dirige meus atos;

- é a lógica fatal das cousas e dos fatos!

Orgulho-me de ser a matéria plasmável

onde o teu gênio inquieto, e nervoso, e insaciável,

há de esculpir uma obra à tua semelhança!

Junto a ti sou feliz e me sinto criança

curiosa de te ouvir, fascinada e atraída

pela tua palavra alegre e colorida!

E se falas da vida ou se o mundo desvendas

os assuntos ressoam na alma como lendas

e tudo é novo e é belo, e tudo prende e atrai,
de um simples botão que se abre a um pingo d'água que cai.

Há em tudo uma alma nova! Há em tudo um novo encanto!

Tantas vezes te ouvi! E sempre o mesmo espanto

quando tu me dizias, que era tarde, era a hora

em que eu ia dormir em que te ias embora...

Muitas vezes, deitada, - eu rezava baixinho

uma prece que fiz só para o meu carinho:

com meus beijos de amor matarei tua sede,

com os meus cabelos tecerei a rede

onde adormecerás feliz, imaginando

que é a noite que te envolve e te embala cantando;
formarei com os meus braços o ninho amoroso

onde terás na volta o almejado repouso;

minhas mãos te darão o mais terno carinho

e julgarás que é o vento a soprar de mansinho

sussurrando canções e desfeito em desvelos

a desmanchar de leve os teus claros cabelos!

No meu seio, - que a uma onda talvez se pareça,

recostarei feliz, enfim, tua cabeça,

e nada, nenhum ruído há de te perturbar!

- meu próprio coração mais baixo há de pulsar...

Quando o sol castigar as frondes e as raízes

com o meu corpo farei a sombra que precises,

e se o inverno chegar, ou se sentires frio,

em mim hás de achar todo o calor do estio!





Não te rias, - bem sei que te digo tolices,

mas ah! se compreendesses tudo, ou se sentisses

a alegria que sinto ao te falar assim,

talvez que não te risses, meu amor, de mim...

Isto tudo, - é obra apenas da fatalidade,

- quando o amor é uma doença e é uma febre a saudade."

.............................................................................................
 Tua carta é uma frase inteira de ternura,

como uma renda fina, cuja tessitura

trai a mão delicada e a alma de quem a fez

Ela é bem a expressão da mulher, que uma vez...

(mas não, não recordemos estas cousas mais,

- para o teu bem, deixemos o passado em paz

se o não posso trazer num augúrio feliz

para a prolongação de um sonho que eu desfiz...)





Tua carta é o reflexo da tua beleza,

e há no seu ofertório a singela pureza

desse amor que te empolga e te invade e domina!

(Uma alma de mulher num corpo de menina!)

Reli-a muito, a sós... - Mais adiante tu dizes,

com esse místico dom das criaturas felizes:

.................................................................................

"Amo, para a alegria suprema e indizível

de humilhar-me aos teus pés tanto quanto possível,

e viverei feliz, como a poeira da estrada

se erguer-me ao teu passar, numa nuvem dourada

cheia de sol e luz, - nessa glória fugaz

de acompanhar-te os passos aonde quer que vás!

Não importa que eu role depois no caminho,

não importa que eu fique abandonada e só,

- quem nasceu para espinho há de ser sempre espinho!...

- quem nasceu para pó, há de sempre ser pó!"
..............................................................................



 Faz-me mal tua carta, muito mal... Receio


pelo amor infeliz que abrigaste em teu seio,

e uma angústia mortal me oprime e me castiga,

deixa que te confesse, oh! minha pobre amiga!



Não pensei... Não pensei que te afeiçoasses tanto,

nem desejava ver a tristeza do pranto

ensombrecer teus olhos... Quando tu partiste,

não compreendia bem por que ficaste triste

nem quis acreditar no que estavas sentindo...

Hoje, - hoje eu descubro que o teu sonho lindo

era mais do que um sonho, - era mesmo, em verdade

uma grande esperança de felicidade!





Me perdoarás no entanto... ah! não fosses tão boa!

E eu insisto de joelhos a teus pés: - perdoa!

Se eu soubesse, ou se ao menos eu adivinhasse

o que não pude ver além de tua face

e o que não soube ler velado em teu olhar,

não teria deixado esse amor te empolgar...

Perdoa o involuntário mal que te causei!

A carta que escreveste, e há bem pouco guardei,

um grande mal também causou-me sem querer:

- é bem rude e bem triste a gente perceber

que encontrou seu ideal, - o seu ideal mais belo,

- e o destruir, tal como eu, que agora o desmantelo!

É doloroso a gente em mil anos sonhá-lo

e inesperadamente ter que abandoná-lo!





Se algum amor eu quis, esse era igual ao teu

que tudo me ofertou e nada recebeu;

ingênuo e puro amor, simples, sem artifícios,

capaz como bem dizes "de mil sacrifícios,

e de mil concessões, chorando muito embora,

só para ver feliz o ente que quer e adora!"





E pensar que isso tudo que tu me ofereces:

-teu raro e imenso amor, teus beijos, tuas preces,

a tua alma de criança ainda em primeiro anseio;

e o teu corpo, onde a forma ondulante do seio

não atingiu sequer seu máximo esplendor;

tua boca, ainda pura aos contatos do amor;

- e dizer que isso tudo, isso tudo afinal

que era o meu velho sonho e o meu maior ideal,

abandono, desprezo, renuncio e largo

com um gesto vil como este, indiferente e amargo!





Enfim, já estás vingada... E porque ainda és criança

há de este falso amor te ficar na lembrança

como uma experiência... (a primeira vencida

das muitas que talvez ainda encontres na vida...)

E um dia então... - quem sabe se não será breve?

- descobrirás na vida aquele amor que deve

transformar teu destino e realizar teu sonho...

Antevendo esse dia de festa, risonho,

comporei, como um véu de noiva, para as bodas,

a mais bela poesia, a mais bela de todas...

(... Recebendo-a, dirás, esquecida e contente:

- "quem teria enviado este estranho presente?")





Sé feliz, minha amiga ... eu me despeço aqui...

Lamento o meu destino, porque te perdi

e maldigo esta carta pelo que ela diz...

Não chores, - porque eu sei que ainda serás feliz...

E que as lágrimas de hoje, - enxuguem-se ao calor

de um verdadeiro, eterno e imorredouro amor!



P. S. - Sê feliz. Amanhã tudo isto será lenda ...
E pede a Deus, por mim, - que eu nunca me arrependa...
****




J. G. de Araújo Jorge - do livro
(Eterno Motivo)