04/09/2010

Saudades

Saudades! Sim... talvez... e porque não?...
Se o nosso sonho foi tão alto e forte

Que bem pensara vê-lo até à morte

Deslumbrar-me de luz o coração!


Esquecer! Para quê?... Ah! como é vão!

Que tudo isso, Amor, nos não importe.

Se ele deixou beleza que conforte

Deve-nos ser sagrado como pão!


Quantas vezes, Amor, já te esqueci,

Para mais doidamente me lembrar,

Mais doidamente me lembrar de ti!


E quem dera que fosse sempre assim:

Quanto menos quisesse recordar

Mais a saudade andasse presa a mim!

Florbela Espanca

(1894-1930)

03/09/2010

Fanatismo

Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida
Meus olhos andam cegos de te ver!
Não és sequer razão de meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida!
Não vejo nada assim enlouquecida…
Passo no mundo, meu Amor, a ler

No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida!
“Tudo no mundo é frágil, tudo passa…”
Quando me dizem isto, toda a graça

Duma boca divina fala em mim!
E, olhos postos em ti, vivo de rastros:
Ah! Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como deus: princípio e fim!…”

 



Florbela Espanca - Livro de Soror Saudade


02/09/2010

" Alvorada Eterna "

" Alvorada Eterna "
 
Quando formos os dois já bem velhinhos,
já bem cansados, trôpegos, vencidos,
um ao outro apoiados, nos caminhos,
depois de tantos sonhos percorridos...
 
Quando formos os dois já bem velhinhos
a lembrar tempos idos e vividos,
sem mais nada colher, nem mesmo espinhos
nos gestos desfolhados e pendidos...
 
Quando formos só os dois, já bem velhinhos,
lá onde findam todos os caminhos
e onde a saudade, o chão, de folhas junca...
 
Olha amor, os meus olhos, bem no fundo,
e hás de ver que este amor em que me inundo
é uma alvorada que não morre nunca!
 
J. G. de Araújo Jorge - coletânea -

"Meus Sonetos de Amor ", 1a edição -1961

01/09/2010

Mendiga


Na vida nada tenho e nada sou;
Eu ando a mendigar pelas estradas...
No silêncio das noites estreladas
Caminho, sem saber pra onde vou!

Tinha o manto do sol... quem mo roubou?!
Quem pisou minhas rosas desfolhadas?
Quem foi que sobre as ondas revoltadas
A minha taça de ouro espedaçou?

Agora vou andando e mendigando,
Sem que um olhar dos mundos infinitos
Veja passar o verme, rastejando...

Ah, quem me dera ser como os chacais
Uivando os brados, rouquejando os gritos
Na solidão dos ermos matagais!...

Florbela Espanca
in: A mensageira das violetas

31/08/2010

Fim

O que eu perdi não foi um sonho bom,

não foi o fruto a embebedar meus lábios,

não foi uma canção de raro som,

nem a graça de alguns momentos sábios.


O que eu perdi, como quem perde uma outra infância,

foi o sentido do enternecimento,

foi a felicidade da ignorância, foi, em verdade,

na minha carne e no meu pensamento,

a última rubra flor do fim da mocidade.


E dói - não esse gesto ausente, a que se apagam

as flores mais solares, mas uma hora,

- flor de momento numa breve aurora -

hora longínqua, esquiva e para sempre morta,

em cuja escura, inacessível porta

noturnos olhos cegamente vagam.


Abgar Renault
(1901-1995)

30/08/2010

O dia da ira

As coisas tristíssimas,
o rolomag, o teste de Cooper,
a mole carne tremente entre as coxas,
vão desaparecer quando soar a trombeta.

Levantaremos como deuses,

com a beleza das coisas que nunca pecaram,

como árvores, como pedras,
exatos e dignos de amor.
Quando o anjo passar,
o furacão ardente do seu voo
vai secar as feridas,
as secreções desviadas dos seus vasos
e as lágrimas.
As cidades restarão silenciosas, sem um veículo:
apenas os pés de seus habitantes
reunidos na praça, à espera de seus nomes.

Adélia Prado

29/08/2010

Eu


Eu sou a que no mundo anda perdida
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho,e desta sorte
Sou a crucificada ... a dolorida ...
Sombra de névoa tênue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!...
Sou aquela que passa e ninguém vê...
Sou a que chamam triste sem o ser...
Sou a que chora sem saber porquê...
Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver,
E que nunca na vida me encontrou!

Florbela Espanca,
in: A mensageira das violetas

28/08/2010

Como nuvens pelo céu

Como nuvens pelo céu
Passam por mim.
Nenhum dos sonhos é meu
Embora eu os sonhe assim.

São coisas no alto que são
Enquanto a vista as conhece,
Depois são sombras que vão
Pelo caminho que arrefece.

Símbolos? Sonhos? Quem torna
Meu coração ao que foi?
Que coisa inútil me dói?

Fernando Pessoa
in: Poesias Inéditas

27/08/2010

Barco Afundado

" Barco Afundado "

Sou o homem mais triste
do mundo,
depois que tu partiste.

Ninguém sabe, ninguém vê. Sou triste
por dentro, calado
no mais profundo
do ser, onde ninguém pode chegar...

Sou como um barco em festa, que afundou
embandeirado,
a morrer em silêncio, ignorado,
no fundo do mar...


( Poema de J.G. de Araújo Jorge

do livro "ESPERA..."- 1960 )

26/08/2010

O meu coração quebrou-se

O meu coração quebrou-se
Como um bocado de vidro
Quis viver e enganou-se...

Fernando Pessoa
in: Poesias Inéditas

25/08/2010

Amor: Positivo



" Amor: Positivo "


A gente sabe que é amor, quando de repente encontra

razões para perdoar o que nunca se perdoou,

quando os mais duros pensamentos são palavras de ternura

fora da boca

- a gente sente, sente

mas não pensa...

Que o diga o meu coração, que deseja ofender-te

e transforma em poesia a minha mágoa imensa.



( Poema de J.G. de Araújo Jorge



do livro "ESPERA..."- 1960 )

24/08/2010

A Casa do Tempo Perdido


A CASA DO TEMPO PERDIDO

Bati no portão do tempo perdido, ninguém atendeu.
Bati segunda vez e mais outra e mais outra.
Resposta nenhuma.
A casa do tempo perdido está coberta de hera
pela metade; a outra metade são cinzas.


Casa onde não mora ninguém, e eu batendo e chamando
pela dor de chamar e não ser escutado.
Simplesmente bater. O eco devolve
minha ânsia de entreabrir esses paços gelados.
A noite e o dia se confundem no esperar,
no bater e bater.

O tempo perdido certamente não existe.
É o casarão vazio e condenado.

Carlos Drummond de Andrade

23/08/2010

Felicidade

Felicidade


Os olhos do amado
Esqueceram-se nos teus,
Perdidos em sonho.

Helena Kolody

22/08/2010

Aspiração


Aspiração




Tão imperfeitas, nossas maneiras
de amar.

Quando alcançaremos

o limite, o ápice

de perfeição

que é nunca mais morrer,

nunca mais viver

duas vidas em uma,

e só o amor governe

todo além, todo fora de nós mesmos?

O absoluto amor,

revel à condição de carne e alma.


Carlos Drummond de Andrade
(1902-1987)

21/08/2010

Canção desse rumor


Quem - estando ausente - entra no quarto,

Quem deita ao lado meu, quem passa

No meu coração seus lábios quentes, quem

Desperta em mim as feras todas,

Quem me rasga e cura,

Quem me atrai?
Quem murmura na treva e acende estrelas

Quem me leva em marés de sono e riso

Quem invade meu dia após a noite

Quem vem – estando ausente -

E nunca vai?

 

Lya Luft

20/08/2010

Canción Fúnebre.

Canción Fúnebre.




Cuando haya muerto, amado,
Triste canción no cantes,
Ciprés sombrío ni frescas flores
sobre mi tumba derrames.
Cúbreme verde hierba
de lluvia humedecida,
Y si quieres, recuerda,
Y si quieres, olvida.
Ya no he de ver la penumbra,
ni el rocío sentir,
ni el canto -triste como un lamento-
del ruiseñor oír.
Soñando en un crepúsculo,
ni alba ni atardecer,
puede ser que recuerde,
que olvide puede ser.

Christina Georgina Rossetti

19/08/2010

Procura-se um amigo



Não precisa ser homem, basta ser humano, basta ter sentimentos, basta ter coração. Precisa saber falar e calar, sobretudo saber ouvir. Tem que gostar de poesia, de madrugada, de pássaro, de sol, da lua, do canto, dos ventos e das canções da brisa. Deve ter amor, um grande amor por alguém, ou então sentir falta de não ter esse amor... Deve amar o próximo e respeitar a dor que os passantes levam consigo. Deve guardar segredo sem se sacrificar.



Não é preciso que seja de primeira mão, nem é imprescindível que seja de segunda mão. Pode já ter sido enganado, pois todos os amigos são enganados. Não é preciso que seja puro, nem que seja todo impuro, mas não deve ser vulgar. Deve ter um ideal e medo de perdê-lo e, no caso de assim não ser, deve sentir o grande vácuo que isso deixa. Tem que ter ressonâncias humanas, seu principal objetivo deve ser o de amigo. Deve sentir pena das pessoa tristes e compreender o imenso vazio dos solitários. Deve gostar de crianças e lastimar as que não puderam nascer.

Procura-se um amigo para gostar dos mesmos gostos, que se comova, quando chamado de amigo. Que saiba conversar de coisas simples, de orvalhos, de grandes chuvas e das recordações de infância. Precisa-se de um amigo para não se enlouquecer, para contar o que se viu de belo e triste durante o dia, dos anseios e das realizações, dos sonhos e da realidade. Deve gostar de ruas desertas, de poças de água e de caminhos molhados, de beira de estrada, de mato depois da chuva, de se deitar no capim.




Precisa-se de um amigo que diga que vale a pena viver, não porque a vida é bela, mas porque já se tem um amigo. Precisa-se de um amigo para se parar de chorar. Para não se viver debruçado no passado em busca de memórias perdidas. Que nos bata nos ombros sorrindo ou chorando, mas que nos chame de amigo, para ter-se a consciência de que ainda se vive.

Vinicius de Moraes

18/08/2010

"Prelúdio da gota d'água"

"Prelúdio da gota d'água" 

Cheio da tua ausência me angustio

a cada hora que passa... a cada instante...

- pelo meu pensamento, como um fio,

és uma gota d'água, tremulante...


Uma gota suspensa e cintilante,

límpida e imóvel como um desafio...

Tua ausência, - é a presença triunfante

daquela gota que ficou no fio...


As outras todas, céleres, pingaram,

e caíram na terra onde secaram,

só tu ficaste, última gota, assim


como uma estrela sem ter firmamento,

suspensa ao fio do meu pensamento

e a brilhar, sem cair... dentro de mim...

J. G. de Araújo Jorge

17/08/2010

Contemplo o que não vejo


Contemplo o que não vejo
 
Contemplo o que não vejo.
É tarde, é quase escuro.
E quanto em mim desejo
Está parado ante o muro.
 
Por cima o céu é grande;
Sinto árvores além;
Embora o vento abrande,
Há folhas em vaivém.

 
Tudo é do outro lado,
No que há e no que penso.
Nem há ramo agitado
Que o céu não seja imenso.
 
Confunde-se o que existe
Com o que durmo e sou.
Não sinto, não sou triste.
Mas triste é o que estou.

Fernando Pessoa,
in: Cancioneiro 

16/08/2010

Momentos

São para esquecer ou lembrar
sorrir ou chorar ...
Momentos
são feitos de olhos, bocas, mãos,
são feitos de pernas e coração,
de emoção e sentimentos...
Momentos

são partidas e chegadas,

lua, sol e entardecer,

silêncio, cama fria, música,
poesia, boemia, madrugada...
Momentos

são feitos de olhares que cruzam

luzes que apagam

corpos que se fundem

palavras que confundem

sensações inexplicáveis...
Momentos

São partículas de tempo

lembranças por vezes queridas

por vezes doídas

pequenas feridas que

paralisam breves pensamentos.

Margareth Cedron
in

15/08/2010

Eu não Sinto a Solidão

Eu não Sinto a Solidão


É a noite desamparo

das montanhas ao oceano.

Porém eu, a que te ama,

eu não sinto a solidão.

É todo o céu desamparo,

mergulha a lua nas ondas.

Porém eu, a que te embala,

eu não sinto a solidão.

É o mundo desamparo,

triste a carne em abandono.

Porém eu, a que te embala,

eu não sinto a solidão.

Gabriela Mistral
Lucila de María del Perpetuo Socorro Godoy Alcayaga
 (Vicuña, 7 de abril de 1889 — Nova Iorque, 10 de janeiro de 1957,
 poetisa e diplomata chilena)

14/08/2010

Lírica Nº 38

Lírica Nº 38


Que voltes antes de anoitecer...

Antes que as sombras desçam irremediavelmente
sobre o coração.


Que eu ainda te possa ver refletida em meus olhos,

e ainda reconheças as pegadas de antes

indeléveis, no chão.

J. G. de Araujo Jorge

12/08/2010

Suprema solidão


Quem desvendou o sigilo

do momento que precede

o primeiro alento?

Cessado o pulsar do tempo,

quem partilhou a vertigem

do mergulho na Verdade?


No mais sagrados instantes

estamos nus e sozinhos

diante de Deus.
***
Helena Kolody

11/08/2010

Vem dançar

http://www.youtube.com/watch?v=n6nYG0Ua7EM&feature=related

Soneto XCV

Os que amaram como nós? Busquemos
as antigas cinzas do coração queimado
e ali que tombem um por um nossos beijos
até que ressuscite a flor desabitada.

Amemos o amor que consumiu seu fruto
e desceu à terra com rosto e poderio:
tu e eu somos a luz que continua,
sua inquebrantável espiga delicada.

Ao amor sepultado por tanto tempo frio,
por neve e primavera, por esquecimento e outono,
acerquemos a luz de uma nova maçã,

do frescor aberto por uma nova ferida,
como o amor antigo que caminha em silêncio
por uma eternidade de bocas enterradas.

Pablo Neruda



10/08/2010

Canção na plenitude

Canção na plenitude


Não tenho mais os olhos de menina

nem corpo adolescente, e a pele

translúcida há muito se manchou.

Há rugas onde havia sedas, sou uma estrutura

agrandada pelos anos e o peso dos fardos

bons ou ruins.

(Carreguei muitos com gosto e alguns com rebeldia.)

O que te posso dar é mais que tudo

o que perdi: dou-te os meus ganhos.

A maturidade que consegue rir

quando em outros tempos choraria,

busca te agradar

quando antigamente quereria

apenas ser amada.

Posso dar-te muito mais do que beleza
e juventude agora: esses dourados anos
me ensinaram a amar melhor, com mais paciência

e não menos ardor, a entender-te
se precisas, a aguardar-te quando vais,

a dar-te regaço de amante e colo de amiga,

e sobretudo força — que vem do aprendizado.

Isso posso te dar: um mar antigo e confiável

cujas marés — mesmo se fogem — retornam,

cujas correntes ocultas não levam destroços

mas o sonho interminável das sereias.




O texto acima foi extraído do livro "Secreta Mirada",
Editora Mandarim - São Paulo, 1997, pág. 151.

Lya Luft

09/08/2010

Noivado

Noivado


Vês, querida, o horizonte ardendo em chamas?

Além desses outeiros

Vai descambando o sol, e à terra envia

Os raios derradeiros;

A tarde, como noiva que enrubesce,

Traz no rosto um véu mole e transparente;

No fundo azul a estrela do poente

Já tímida aparece.



Como um bafo suavíssimo da noite,

Vem sussurrando o vento

As árvores agita e imprime às folhas

O beijo sonolento.
A flor ajeita o cálix: cedo espera

O orvalho, e entanto exala o doce aroma;

Do leito do oriente a noite assoma

Como uma sombra austera.



Vem tu, agora, ó filha de meus sonhos,

Vem, minha flor querida;
Vem contemplar o céu, página santa
Que amor a ler convida;

Da tua solidão rompe as cadeias;

Desce do teu sombrio e mudo asilo;

Encontrarás aqui o amor tranqüilo...

Que esperas? que receias?


Olha o templo de Deus, pomposo e grande;
Lá do horizonte oposto

A lua, como lâmpada, já surge

A alumiar teu rosto;

Os círios vão arder no altar sagrado,

Estrelinhas do céu que um anjo acende;

Olha como de bálsamos rescende

A c’roa do noivado.


Irão buscar-te em meio do caminho

As minhas esperanças;

E voltarão contigo, entrelaçadas

Nas tuas longas tranças;

No entanto eu preparei teu leito à sombra

Do limoeiro em flor; colhi contente
Folhas com que alastrei o solo ardente

De verde e mole alfombra.


Pelas ondas do tempo arrebatados,

Até à morte iremos,

Soltos ao longo do baixel da vida

Os esquecidos remos.
Calmos, entre o fragor da tempestade,
Gozaremos o bem que amor encerra;
Passaremos assim do sol da terra

Ao sol da eternidade.



Machado de Assis,
in 'Falenas'

08/08/2010

" E o Resto é Silêncio..."

" E o Resto é Silêncio..."


E então ficamos os dois em silêncio, tão quietos

como dois pássaros na sombra, recolhidos

ao mesmo ninho,

como dois caminhos na noite, dois caminhos

que se juntam

num mesmo caminho...

Já não ouso... já não coras...

que qualquer palavra bateria estranha

como um viajante, altas horas...


Nada há mais a dizer, depois que as próprias mãos

silenciaram seus carinhos...


Estamos um no outro
como se estivéssemos sozinhos...

J. G. de Araújo Jorge