08/07/2010

Triste passeio


Vou pela estrada, sozinha.

Não me acompanha ninguém.

Num atalho, em voz mansinha:

"Como está ele? Está bem?"
 


É a toutinegra curiosa:

Há em mim um doce enleio...

Nisto pergunta uma rosa:

"Então ele? Inda não veio?"


Sinto-me triste, doente...

E nem me deixam esquecê-lo!...

Nisto o sol impertinente:

"Sou um fio do seu cabelo..."


Ainda bem. É noitinha.

Enfim já posso pensar!

Ai, já me deixem sozinha!

De repente, oiço o luar:


"Que imensa mágoa me invade,

Que dor o meu peito sente!

Tenho uma enorme saudade

De ver o teu doce ausente!"


Volto a casa. Que tristeza!

Inda é maior minha dor...

Vem depressa. A natureza

Só fala de ti, amor!
***
Florbela Espanca



(1894-1930)

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