18/08/2015

Colhe o Dia, porque És Ele


 

Uns, com os olhos postos no passado, 

Vêem o que não vêem: outros, fitos 


Os mesmos olhos no futuro, vêem 

O que não pode ver-se. 


Por que tão longe ir pôr o que está perto — 
A segurança nossa? Este é o dia, 
Esta é a hora, este o momento, isto 
É quem somos, e é tudo. 

Perene flui a interminável hora 
Que nos confessa nulos. No mesmo hausto 
Em que vivemos, morreremos. Colhe 
O dia, porque és ele. 

Ricardo Reis, in "Odes" 
(Heterônimo de Fernando Pessoa)

Foto: Liz Guides

15/08/2015

Atenção ao Sábado

"Acho que sábado é a rosa da semana; sábado de tarde a casa é feita de cortinas ao vento, e alguém despeja um balde de água no terraço; sábado ao vento é a rosa da semana; sábado de manhã, a abelha no quintal, e o vento: uma picada, o rosto inchado, sangue e mel, aguilhão em mim perdido: outras abelhas farejarão e no outro sábado de manhã vou ver se o quintal vai estar cheio de abelhas.
No sábado é que as formigas subiam pela pedra.
Foi num sábado que vi um homem sentado na sombra da calçada comendo de uma cuia de carne-seca e pirão; nós já tínhamos tomado banho.
De tarde a campainha inaugurava ao vento a matinê de cinema: ao vento sábado era a rosa de nossa semana.
Se chovia só eu sabia que era sábado; uma rosa molhada, não é?
No Rio de Janeiro, quando se pensa que a semana vai morrer, com grande esforço metálico a semana se abre em rosa: o carro freia de súbito e, antes do vento espantado poder recomeçar, vejo que é sábado de tarde.
Tem sido sábado, mas já não me perguntam mais.
Mas já peguei as minhas coisas e fui para domingo de manhã. 
Domingo de manhã também é a rosa da semana. 
Não é propriamente rosa que eu quero dizer.
"

Clarice Lispector - Excerto de " Atenção ao sábado"

11/08/2015

People are often unreasonable...


“People are often unreasonable, illogical, and self-centered;
Forgive them anyway.
If you are kind, people may accuse you of selfish, ulterior motives;
Be kind anyway.
If you are successful, you will win some false friends and some true enemies;
Succeed anyway.
If you are honest and frank, people may cheat you;
Be honest and frank anyway.
What you spend years building, someone could destroy overnight;
Build anyway.If you find serenity and happiness, they may be jealous;
Be happy anyway.
The good you do today, people will often forget tomorrow;
Do good anyway.
Give the world the best you have and it may just never be enough;
Give the world the best you have anyway.
You see, in the final analysis, it's all between you and God;
It was never between you and them anyway”.

“Muitas vezes as pessoas são egocêntricas, ilógicas e insensatas.
Perdoe-as assim mesmo.
Se você é gentil, as pessoas podem acusá-lo de egoísta, interesseiro.
Seja gentil assim mesmo.
Se você é um vencedor, terá alguns falsos amigos e alguns inimigos verdadeiros.
Vença assim mesmo.
Se você é honesto e franco, as pessoas podem enganá-lo.
Seja honesto e franco assim mesmo.
Se você tem paz e é feliz, as pessoas podem sentir inveja.
Seja feliz assim mesmo.
O bem que você faz hoje pode ser esquecido amanhã.
Faça o bem assim mesmo.
Dê ao mundo o melhor de você, mas isso pode nunca ser o bastante.
Dê o melhor de você assim mesmo.
Perceba que, no final das contas, é entre você e Deus.
Nunca foi entre você e as outras pessoas!”
Madre Tereza de Calcutá



Crédito da foto: Google.

10/08/2015

Suave caminho...


Assim . . . Ambos assim, no mesmo passo,
iremos percorrendo a mesma estrada;
tu - no meu braço trêmulo amparada,
eu - amparado no teu lindo braço.

Ligados neste arrimo, embora escasso,
venceremos as urzes da jornada . . .
E tu - te sentirás menos cansada,
e eu - menos sentirei o meu cansaço.

E assim, ligados pelos bens supremos,
que para mim o teu carinho trouxe,
placidamente pela Vida iremos

calcando mágoas, afastando espinhos,
como se a escarpa desta Vida fosse
o mais suave de todos os caminhos.


Mário Paranhos Pederneiras (1867/1915 )
Rio de janeiro, Estado da Guanabara. 
in: 
"Os Mais Belos Sonetos que o Amor Inspirou"
  J.G . de  Araujo Jorge - 1a ed.   1963

08/08/2015

O Milagre (The Miracle, 1959, 121 min)







Na Espanha no início do séc. 19, Teresa (Carroll Baker) é uma noviça que desiste de se ordenar, para procurar por um oficial inglês, o capitão Michael Stuart (Roger Moore) a quem ela ama, e se torna uma cigana conhecida, cantora e cortesã, envolvendo-se também com o cigano Guiod (Vittorio Gasmann). Uma santa toma o seu lugar no convento. Dirigido por Irving Rapper.


Minha nota: ****


*Assisti em excelente companhia, há algumas décadas.

06/08/2015

“Olhai os lírios do campo”


Andei lendo, há algum tempo ***, um livro do Érico Veríssimo, um dos meus autores preferidos. O nome é “Olhai os lírios do campo”, uma história de amor entre dois médicos, mas a ambição de Eugênio (um menino pobre e humilhado) não deixa que este amor se concretize. Quando a amada dele, Olívia, está próxima da morte, escreve uma carta – uma linda e comovente carta, e acho que dá para tirarmos muitos ensinamentos.

“Estive pensando muito na fúria cega com que os homens se atiram à caça do dinheiro. É essa a causa principal dos dramas, das injustiças, da incompreensão da nossa época. Eles esquecem o que têm de mais humano e sacrificam o que a vida lhes oferece de melhor: as relações de criatura para criatura.

De que serve construir arranha-céus se não há mais almas humanas para morar neles?Quero que abra os olhos, Eugênio, que acorde enquanto é tempo. Peço-te que pegues a minha Bíblia que está na estante de livros, perto do rádio, leias apenas o Sermão da Montanha. Não te será difícil achar, pois a página está marcada com uma tira de papel. Os homens deviam ler e meditar esse trecho, principalmente no ponto em que Jesus nos fala dos lírios do campo que não trabalham nem fiam, e no entanto, nem Salomão em toda sua glória jamais se vestiu como um deles. Está claro que não devemos tomar as parábolas de Cristo ao pé da letra e ficar deitados à espera de que tudo nos caia do céu. É indispensável trabalhar, pois um mundo de criaturas passivas seria também triste e sem beleza. Precisamos, entretanto, dar um sentido humano às nossas construções. E, quando o amor ao dinheiro, ao sucesso nos estiver deixando cegos, saibamos fazer pausas para olhar os lírios do campo e as aves do céu.

Não penses que estou fazendo o elogio do puro espírito contemplativo e da renúncia, ou que ache que o povo devia viver narcotizado pela esperança da felicidade na “outra vida”. Há na terra um grande trabalho a realizar. É tarefa para seres fortes, para corações corajosos. Não podemos cruzar os braços enquanto os aproveitadores sem escrúpulos engendram os monopólios ambiciosos, as guerras e as intrigas cruéis. Temos de fazer-lhes frente. É indispensável que conquistemos este mundo, não com as armas do ódio e da violência e sim com as do amor e da persuasão. Considera a vida de Jesus. Ele foi antes de tudo um homem de ação e não um puro contemplativo.

Quando falo em conquista, quero dizer a conquista duma situação decente para todas as criaturas humanas, a conquista da paz digna, através do espírito de cooperação.
E quando falo em aceitar a vida não me refiro à aceitação resignada e passiva de todas as desigualdades, malvadezas, absurdos e misérias do mundo. Refiro-me, sim, à aceitação da luta necessária, do sofrimento que essa luta nos trará, das horas amargas a que ela forçosamente nos há de levar. Precisamos, portanto, de criaturas de boa vontade.”
 
 
***29/01/1975 - Anotações no meu diário.

26/05/2015

Saudades


Saudades! Sim.. talvez.. e por que não?... 
Se o sonho foi tão alto e forte 
Que pensara vê-lo até à morte 
Deslumbrar-me de luz o coração! 

Esquecer! Para quê?... Ah, como é vão! 
Que tudo isso, Amor, nos não importe. 
Se ele deixou beleza que conforte 
Deve-nos ser sagrado como o pão. 

Quantas vezes, Amor, já te esqueci, 
Para mais doidamente me lembrar 
Mais decididamente me lembrar de ti! 

E quem dera que fosse sempre assim: 
Quanto menos quisesse recordar 
Mais saudade andasse presa a mim! 

Florbela Espanca, in "Livro de Sóror Saudade" 

24/12/2014

Canteiros

CANTEIROS






CANTEIROS




"Quando penso em você fecho os olhos de saudade
Tenho tido muita coisa, menos a felicidade
Correm os meus dedos longos em versos tristes que invento
Nem aquilo a que me entrego já me traz contentamento
Pode ser até amanhã, cedo claro feito dia
mas nada do que me dizem me faz sentir alegria
Eu só queria ter no mato um gosto de framboesa
Para correr entre os canteiros e esconder minha tristeza
Que eu ainda sou bem moço para tanta tristeza
E deixemos de coisa, cuidemos da vida,
Pois se não chega a morte ou coisa parecida
E nos arrasta moço, sem ter visto a vida."

Cecília Meireles


Música: Fagner sobre os versos de Cecília Meireles 

https://www.youtube.com/watch?v=yxWbSk7yGO0

16/10/2014

Um anjo

Um anjo vem todas as noites:
senta-se ao pé de mim, e passa
sobre meu coração a asa mansa,
como se fosse meu melhor amigo.
Esse fantasma que chega e me abraça
(asas cobrindo a ferida do flanco)
é todo o amor que resta
entre ti e mim, e está comigo.

Lya Luft

27/07/2014

Deixei os erros do que fui


Deixei atrás os erros do que fui,
Deixei atrás os erros do que quis
E que não pude haver porque a hora flui
E ninguém é exacto nem feliz.



Tudo isso como o lixo da viagem
Deixei nas circunstâncias do caminho,
No episódio que fui e na paragem,
No desvio que foi cada vizinho.

Deixei tudo isso, como quem se tapa
Por viajar com uma capa sua,
E a certa altura se desfaz da capa
E atira com a capa para a rua.

Fernando Pessoa
in: Poesias Inéditas. 

20/07/2014

Sobre a Esperança


Os olhos dele
dos olhos dela
um segundo que fosse, não se separavam,
como se quisessem acender as chamas que vacilavam
com a luz da própria Vida...

E a chama dos olhos dela, vacilantes, na noite
de vigília, sem dormida,
eram como as chamas no pavio das velas
quando o vento abre as janelas...

(Poema de JG de Araujo Jorge extraídodo livro " AMO ! " 1a edição 1938 )

19/07/2014

Improviso do Amor-Perfeito

Naquela nuvem, naquela,
mando-te meu pensamento:
que Deus se ocupe do vento.

Os sonhos foram sonhados,
e o padecimento aceito,
E onde estás, Amor- Perfeito?

Imensos jardins da insônia,
de um olhar de despedida
deram flor por toda  a vida.

Ai de mim que sobrevivo
sem o coração no peito
E onde estás, Amor- Perfeito?

Longe, longe, atrás do oceano
que nos meus olhos se aleita,
entre pálpebras de areia.

Longe, longe...Deus te guarde
sobre o seu lado direito,
como eu te guardava do outro,
noite e dia, Amor- Perfeito.

Cecília Meireles

01/06/2014

A pálida luz da manhã de inverno


 
A pálida luz da manhã de inverno, 
O cais e a razão  
Não dão mais 'sperança, nem menos 'sperança sequer,  
Ao meu coração. 
O que tem que ser  
Será, quer eu queira que seja ou que não.  No rumor do cais, no bulício do rio  
Na rua a acordar  
Não há mais sossego, nem menos sossego sequer,  
Para o meu 'sperar.  
O que tem que não ser  
Algures será, se o pensei; tudo mais é sonhar.  

Fernando Pessoa
in: Poesias Inéditas.

26/05/2014

A um ausente






Tenho razão de sentir saudade,
tenho razão de te acusar.
Houve um pacto implícito que rompeste
e sem te despedires foste embora.
Detonaste o pacto.
Detonaste a vida geral, a comum aquiescência
de viver e explorar os rumos de obscuridade
sem prazo sem consulta sem provocação
até o limite das folhas caídas na hora de cair.

Antecipaste a hora.
Teu ponteiro enlouqueceu,
enlouquecendo nossas horas.
Que poderias ter feito de mais grave 
do que o ato sem continuação, o ato em si,
o ato que não ousamos nem sabemos ousar
porque depois dele não há nada?

Tenho razão para sentir saudade de ti,
de nossa convivência em falas camaradas,
simples apertar de mãos, nem isso, voz
modulando sílabas conhecidas e banais
que eram sempre certeza e segurança.

Sim, tenho saudades.
Sim, acuso-te porque fizeste
o não previsto nas leis da amizade e da natureza
nem nos deixaste sequer o direito de indagar
porque o fizeste, porque te foste.

Carlos Drummond de Andrade.



Para o Gui (eternamente)

19/05/2014

O tempo não traz consolo (Edna Saint-Vicent Milloy/Tradução: Ana C. Mendonça)

O tempo não traz alívio; mentiram-me todos
os que disseram que o tempo amenizaria a minha dor!
Sinto sua falta no choro da chuva;
Quero sua presença no recuar da maré.
A velha neve escorre pela encosta de cada montanha,
E as folhas de outono viram fumaça em cada caminho
Mas o triste amor do passado deve permanecer
no meu coração, e meus velhos pensamentos perduram.
Há centenas de lugares aos quais receio ir
- por estarem repletos de lembrança dele.
E ao entrar com alívio em algum lugar tranquilo
Onde seu pé nunca pisou, nem seu rosto brilhou.
Eu digo: "Aqui não há nenhuma recordação dele!"
E com isso paro, arrasada, e me lembro tanto dele.

17/05/2014

Um pouco de silêncio



Nesta trepidante cultura nossa, da agitação e do barulho, gostar de sossego é uma excentricidade.

Sob a pressão do ter de parecer, ter de participar, ter de adquirir, ter de qualquer coisa, assumimos uma infinidade de obrigações. Muitas desnecessárias, outras impossíveis, algumas que não combinam conosco nem nos interessam.

Não há perdão nem anistia para os que ficam de fora da ciranda: os que não se submetem mas questionam, os que pagam o preço da sua relativa autonomia, os que não se deixam escravizar, pelo menos sem alguma resistência.

O normal é ser atualizado, produtivo e bem informado. É indispensável circular, ser bem-relacionado. Quem não corre com a manada, praticamente nem existe. Se não tomar cuidado, põem-no numa jaula: um animal estranho.

Pressionados pelo relógio, pelos compromissos, pela opinião alheia, disparamos sem rumo – ou por trilhos determinados – como hamsters que se alimentam da sua própria agitação.

Ficar sossegado é perigoso: pode parecer doença. Recolher-se em casa ou dentro de si mesmo ameaça quem apanha um susto de cada vez que examina a sua alma.

Estar sozinho é considerado humilhante, sinal de que não «se arranjou» ninguém – como se a amizade ou o amor se «arranjasse» numa loja.

Além do desgosto pela solidão, temos horror à quietude. Pensamos logo em depressão: quem sabe terapia e antidepressivos? Uma criança que não brinca ou salta ou participa de atividades frenéticas está com algum problema.

O silêncio assusta-nos por retumbar no vazio dentro de nós. Quando nada se move nem faz barulho, notamos as frestas pelas quais nos espiam coisas incômodas e mal resolvidas, ou se observa outro ângulo de nós mesmos. Damo-nos conta de que não somos apenas figurinhas atarantadas correndo entre a casa, o trabalho e o bar, a praia ou o campo.

Existe em nós, geralmente nem percebido e nada valorizado, algo para além desse que paga contas, faz amor, ganha dinheiro, e come, envelhece, e um dia (mas isso é só para os outros!) vai morrer. Quem é esse que afinal sou eu? Quais os seus desejos e medos, os seus projetos e sonhos?

No susto que essa ideia provoca, queremos ruído, ruídos. Chegamos a casa e ligamos a televisão antes de largarmos a carteira ou a pasta. Não é para assistirmos a um programa: é pela distração.

O silêncio faz pensar, remexe águas paradas, trazendo à tona sabe Deus que desconcerto nosso. Com medo de vermos quem – ou o que – somos, adiamos o confronto com a nossa alma sem máscaras.

Mas, se aprendermos a gostar um pouco de sossego, descobrimos – em nós e no outro – regiões nem imaginadas, questões fascinantes e não necessariamente negativas.

Nunca esqueci a experiência de quando alguém me pôs a mão no meu ombro de criança e disse:
— Fica quietinha um momento só, escuta a chuva a chegar.

E ela chegou: intensa e lenta, tornando tudo singularmente novo. A quietude pode ser como essa chuva: nela nos refazemos para voltarmos mais inteiros ao convívio, às tantas frases, às tarefas, aos amores.

Então, por favor, deem-me isso: um pouco de silêncio bom, para que eu escute o vento nas folhas, a chuva nas lajes, e tudo o que fala muito para além das palavras de todos os textos e da música de todos os sentimentos.

LUFT, Lya. Pensar é transgredir, 2011, p. 41-43. Editora Record.

Foto: Angra dos reis RJ. Alairce Rodrigues. 2012.

10/03/2014

Um sonho possível


O filme, com direção  e roteiro de John Lee Hancock, conquistou, aos poucos, números de público inesperados e algumas indicações ao Oscar, com a história do adolescente Michael Oher (Quinton Aaron), o Big Mike, assim conhecido pela sua altura e peso: Mike é negro, obeso, filho de uma mãe viviada e rejeitado pelo pai, com muitos traumas de infância e aparente deficiência mental. Mike encontra em Leigh Anne Tuohy (Sandra Bullock), uma "perua" rica mas de valores cristãos, a força para mudar de vida. Adotado pela família Tuohy, composta pelo pai, Sean (Tim McGraw),  um ex-jogador de basquete que abandonou a carreira por causa de uma lesão, e seus dois: a adolescente Collins (Lily Collins) e o espevitado S.J. (Jae Head).
O filme é baseado na história real do atual atacante dos Baltimore Ravens, contada no livro The Blind Side: Evolution of a Game.

Vale a pena ver: está sempre passando em algum canal da TV paga.
Minha nota: *****

09/03/2014

Liberdade


Seu amor me deu asas.

Derrubei paredes que me cercavam,

Afoguei meus medos em nossos sonhos,

Alcancei o céu e as estrelas.

 Alairce Rodrigues
(31/10/1975)

08/03/2014

Amor


E nunca chegamos ao fim taça, 
Por mais que a esvaziemos.

Agora,
Sei que isso é amor...

J. G. de Araújo Jorge

05/03/2014

De homens e de deuses (Des hommes et des dieux- França, 2010, 122 minutos, censura 12 anos)



Um grupo de monges franceses convivem em perfeita harmonia com a população muçulmana no vilarejo de Thibhrine, na Argélia, ex-colônia francesa, até esta relação ser quebrada por um grupo de fundamentalistas, que massacram trabalhadores e espalham o medo, no ano de 1996. Do diretor Xavier Beauvois e roteiro de Etienne Comar, concorreu ao Oscar de 2011. Vencedor do Grande Prêmio do Júri no Festival de Cannes em 2010.
Elenco: Lambert Wilson (Christian de Chergé), Michael Lonsdale (Luc), Olivier Rabourdin (Christophe), Philippe Laudenbach (Cèlestin), Jacques Herlin (Amédée), Loïc Pichon (Jean-Pierre), Xavier Maly (Michel), Jean-Marie Frin (Paul), Abdelhafid Metalsi (Nouredine).

Minha nota: *****

Música Submersa


Não quero ser o grande rio caudaloso
Que figura nos mapas.
Quero ser o cristalino fio d’água
Que canta e murmura
Na mata silenciosa.

Helena Kolody

15/02/2014

Possibilidades




Amor,
alegria...
morte,

dores,

solidão.

Reconstruir sobre ruínas,

fechar os olhos,

não sentir mais...



Alairce Rodrigues (Liz  Guides)
Julho/1978

14/02/2014

Quero apenas cinco coisas

Quero apenas cinco coisas..
Primeiro é o amor sem fim
A segunda é ver o outono
A terceira é o grave inverno
Em quarto lugar o verão
A quinta coisa são teus olhos
Não quero dormir sem teus olhos.
Não quero ser... sem que me olhes.
Abro mão da primavera para que continues me olhando.

Pablo Neruda

13/02/2014

Solilóquio nº 3



Vai alta a noite, como um silencioso veleiro
de negras velas pandas, ao luar.
..............................................
Estou sozinho, num cais inexistente,
na sombra de tudo,
a olhar o mar...

... e a te esperar...

J. G. de Araújo Jorge

Foto: Praia da Ponta Verde/Maceió AL
By: Alairce (Liz) Guides Rodrigues

01/02/2014

"Amar você? Eu sou você!"
Charles Willians

31/12/2013

Amor e Seu Tempo

Amor e Seu Tempo

Amor é privilégio de maduros
Estendidos na mais estreita cama,
Que se torna a mais larga e mais relvosa,
Roçando, em cada poro, o céu do corpo.
É isto, amor: o ganho não previsto,
O prêmio subterrâneo e coruscante,
Leitura de relâmpago cifrado,
Que, decifrado, nada mais existe
Valendo a pena e o preço do terrestre,
Salvo o minuto de ouro no relógio
Minúsculo, vibrando no crepúsculo.
Amor é o que se aprende no limite,
Depois de se arquivar toda a ciência
Herdada, ouvida. amor começa tarde.

Carlos Drummond de Andrade

17/10/2013

Como nuvens

Como nuvens pelo céu
passam os sonhos por mim.
Nenhum  dos sonhos é meu
embora os sonhe assim.
São coisas no alto que são
enquanto a vista as conhece,
depois são sombras que vão
pelo campo que arrefece.

Símbolos? Sonhos? Quem torna
meu coração ao que foi?
Que dor de mim me transforma?
Que coisa inútil me dói?

Fernando Pessoa

Foto: Liz Guides

16/10/2013

Alma minha

 

Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida descontente,
Repousa lá no céu eternamente
E viva eu cá na terra sempre triste. 

Se lá no assento etéreo, onde subiste
Memória desta vida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente
Que já nos olhos meus tão puro viste.
 

E se vires que pode merecer-te
Alguma coisa a dor que me ficou
Da mágoa sem remédio de perder-te.

Rogo a Deus, que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me a ver-te,
Quão cedo de meus olhos te levou.


Luís Vaz de Camões 
(c. 1524 – 10.06.1580)


Gui (1957-1976) 

05/09/2013

Primavera (Cecília Meireles)


A primavera chegará, mesmo que ninguém mais saiba seu nome, nem acredite no calendário, nem possua jardim para recebê-la. A inclinação do sol vai marcando outras sombras; e os habitantes da mata, essas criaturas naturais que ainda circulam pelo ar e pelo chão, começam a preparar sua vida para a primavera que chega.

Finos clarins que não ouvimos devem soar por dentro da terra, nesse mundo confidencial das raízes, — e arautos sutis acordarão as cores e os perfumes e a alegria de nascer, no espírito das flores.

Há bosques de rododendros que eram verdes e já estão todos cor-de-rosa, como os palácios de Jeipur. Vozes novas de passarinhos começam a ensaiar as árias tradicionais de sua nação. Pequenas borboletas brancas e amarelas apressam-se pelos ares, — e certamente conversam: mas tão baixinho que não se entende.

Oh! Primaveras distantes, depois do branco e deserto inverno, quando as amendoeiras inauguram suas flores, alegremente, e todos os olhos procuram pelo céu o primeiro raio de sol.

Esta é uma primavera diferente, com as matas intactas, as árvores cobertas de folhas, — e só os poetas, entre os humanos, sabem que uma Deusa chega, coroada de flores, com vestidos bordados de flores, com os braços carregados de flores, e vem dançar neste mundo cálido, de incessante luz.

Mas é certo que a primavera chega. É certo que a vida não se esquece, e a terra maternalmente se enfeita para as festas da sua perpetuação.

Algum dia, talvez, nada mais vai ser assim. Algum dia, talvez, os homens terão a primavera que desejarem, no momento que quiserem, independentes deste ritmo, desta ordem, deste movimento do céu. E os pássaros serão outros, com outros cantos e outros hábitos, — e os ouvidos que por acaso os ouvirem não terão nada mais com tudo aquilo que, outrora se entendeu e amou.

Enquanto há primavera, esta primavera natural, prestemos atenção ao sussurro dos passarinhos novos, que dão beijinhos para o ar azul. Escutemos estas vozes que andam nas árvores, caminhemos por estas estradas que ainda conservam seus sentimentos antigos: lentamente estão sendo tecidos os manacás roxos e brancos; e a eufórbia se vai tornando pulquérrima, em cada coroa vermelha que desdobra. Os casulos brancos das gardênias ainda estão sendo enrolados em redor do perfume. E flores agrestes acordam com suas roupas de chita multicor.

Tudo isto para brilhar um instante, apenas, para ser lançado ao vento, — por fidelidade à obscura semente, ao que vem, na rotação da eternidade. Saudemos a primavera, dona da vida — e efêmera.

Texto extraído do livro "Cecília Meireles - Obra em Prosa - Volume 1", Editora Nova Fronteira - Rio de Janeiro, 1998, pág. 366.


21/06/2013

Devolve

Devolve toda a tranqüilidade
Toda a felicidade
Que eu te dei e que perdi.

Devolve todos os sonhos loucos
Que eu construí aos poucos
E te ofereci.

Devolve, eu peço, por favor
Aquele imenso amor
Que nos teus braços esqueci.

Devolve, que eu te devolvo ainda
Esta saudade infinda
Que eu tenho de ti.

Mário Lago

20/06/2013

Sonhos

"Há quem diga que todas as noites são de sonhos.
Mas há também quem garanta que nem todas,
   só as de verão.
No fundo isso não tem importância.
O que interessa mesmo não são as noites em si,
são os sonhos.
Sonhos que o homem sonha sempre.
Em todos os lugares, em todas as épocas do ano,
   dormindo ou acordado."

William Shakespeare

19/06/2013

Concerto para corpo e alma

Compreendi, então, que a vida não é uma sonata que, para realizar a sua beleza, tem de ser tocada até o fim.
Dei-me conta, ao contrário, de que a vida é um álbum de mini sonatas.
Cada momento de beleza vivido e amado, por efêmero que seja, é uma experiência completa que está destinada à eternidade.
Um único momento de beleza e amor justifica a vida inteira.

Rubem Alves