15/04/2010

" Meu Diário "

" Meu Diário "







Mais que meu companheiro: confidente



dos momentos felizes e infelizes;



meu jardim de palavras, recônditas raízes.







O que penso tu pensas, o que dizes



é o que te diz minha alma, é o que ela sente,



por isso, em ti percebo as cicatrizes



que vão marcando o coração da gente







Em ti me ajoelho: és meu confessionário;



aqui desnudo a minha vida, e sinto



que és o espelho em que posso me rever;







arca de tantos sonhos, meu diário



a ti me entrego sem pudor, não minto,



se és pedaço do meu próprio ser!
***
 J. G. de Araújo Jorge

13/04/2010

Soneto XXVII - “Busco a Noite o Meu Leito ”

Cansado de lutar corro ao meu leito



para o repouso a que meu corpo aspira



mas minha mente, à hora em que me deito



trabalha em mim, quando o trabalho expira.







Pois já meus pensamentos bem despertos



correm, ciumentos para a tua busca,



e conservo os meus olhos bem abertos



olhando a escuridão que o cego ofusca.







Minh'alma em sonho vê tua figura



que, como se essa sombra me cegasse



- joia brilhando sobre a noite escura







faz bela a noite e nova a sua face.



Assim de dia o corpo e à noite a alma



por ti, como por mim, não acha calma.
 
***
William Shakespeare



Tradução de



Anna Amélia de Queiroz Carneiro de Mendonça






12/04/2010

" No Deserto Jardim "


No deserto jardim, que a bruma envolve, pelas
árvores, de onde tomba, em punhado de estrelas
o adeus das flores de ouro e das folhas errantes;
sob um leve dossel de copas verdejantes,


nós iremos, até que a tarde abra no poente,
as asas de cristal e de prata silente.
Caminharemos entre as sebes, nas estradas;
e o perfume sutil que há nas ervas pisadas,


e o silêncio, e esse amargo encanto misterioso
que deixa, no ar, o outono inquieto e doloroso,
e o que sai dos chorões, dos ninhos e das fráguas,


das canangas azuis e das tranqüilas águas,
encherão nosso olhar de sonho e de esplendor,
como um aroma antigo enche a noite de amor...

*********************************
Albert Victor Samain (1859 - 1900)
Tradução de Ronald de Carvalho






11/04/2010

Caminho Monótono


E por que hei de negar?...Ah! o encanto da estrada
abrindo em cada curva um leque de paisagem,
e o mistério da casa escondida e encantada
que mora sob a sombra amiga da folhagem.
.
E por que hei de negar? Se isso é a vida passada;
se o fastio espantou o encanto da miragem.
Hoje - o olhar distraído, e a alma já cansada
repete todo dia e sempre a mesma viagem.
.
E por que hei de negar?Ah! Aquelas ânsias loucas
dos beijos que cantavam sempre em nossas bocas
e das mãos, não sabendo nunca onde pousar...
.
Hoje... por mais que venhas, sempre estou sozinho...
E por que hei de negar? Se teu corpo é um caminho
onde de olhos fechados posso caminhar?... 

***
J. G. de Araújo Jorge

08/04/2010

" Sol... e Chuva... "

" Sol... e Chuva... "





Gosto desses dias molhados, de chuva miúda, de chuva fina

chuva boa,

de névoa, de garoa,

em que a gente não sente a obrigação de ser feliz,

e fica em si mesmo à-toa...



Basta a gente ficar onde esta, nada mais, é tudo que se quer,

vendo a chuva cair, a chuva caindo,

ficar sentado, acomodado, num lugar qualquer

ouvindo o rumor da chuva, ouvindo.

ouvindo.



Dias que não pedem nada, que não exigem nada, que não incomodam,

em que a gente fica em casa, sem necessidade

de companhia, de ter alguém,

basta essa sensação que agora é minha...

Oh, a paz, essa felicidade impessoal, perfeita

que consegue ser feliz sozinha...



( Como doem certos dias de sol, de tanta alegria!)

Dias exigentes que gritam por felicidade, que reclamam vida e emoção

e que encontram às vezes a gente tão só

no meio de tanta gente,

tão só e desprevenido

sem saber que fazer - meu Deus! - do coração!



Dias de sol que derrubam a gente,

que maltratam a gente, passam por cima,

da gente

sem piedade,

tontos, deslumbrados,

e se vão a cantar uma felicidade

por todos os lados,

uma felicidade de bola de cristal, inexistente,

sem ver que ficamos no chão, como indigentes

abandonados...



Ah! gosto desses dias assim, de olhos embaciados, cinzentos,

de chuvinha mansa, de chuvinha boa,

que não perturbam o coração

que descansam a vista;

que, no máximo, esperam que a gente se sinta bem,

e nos deixam em paz, sem nada, nem ninguém,

- só isto!



Nesses dias, humilde e só, um pouco egoísta

talvez,

- existo...





( Poema de JG de Araujo Jorge extraído do livro

"Os Mais Belos Poemas Que O Amor Inspirou"

Vol. IV - 1a edição 1965 )

"Remember"


"Remember"








Recorda-te de mim quando eu embora
for para o chão silente e desolado;
quando não te tiver mais ao meu lado
e sombra vã chorar por quem me chora.

Quando não mais puderes, hora a hora,
falar-me no futuro que hás sonhado,
ah! de mim te recorda e do passado,
delícia do presente por agora.

No entanto, se algum dia me olvidares
e depois te lembrares novamente,
não chores: que se em meio aos meus pesares

um resto houver do afeto que em mim viste,
- melhor é me esqueceres, mas contente,
que me lembrares e ficares triste.







Christina Georgina Rossetti (1830-1891)



Tradução de Manuel Bandeira

07/04/2010

A casa das palavras


A casa das palavras




É de palavras



a casa que teimosamente



construo ao longo destes anos



que se arrastam sob meus pés



cansados







Há nela cômodos de palavras inúteis,



algumas que insisti em dizer tantas vezes



e nunca me levaram a nada;







Há na minha casa cômodos de palavras



que evitei nestes anos todos



porque sequer me consolaram



quando os dias se vestiram de dor.







É de palavras



a casa que construo pacientemente



enquanto os anos se lançam



estrada afora



e se fazem saudade que dói



feito a palavra nunca mais.







Mas há nela um cômodo especial



onde guardo as palavras mais belas:



as primeiras do meu filho,



algumas que ficaram dos amigos



a quem a estrada se fez caminho de ida



por primeiro,



as últimas do meu pai



e algumas juras de amor



que ainda aquecem as minhas noites



de poucas palavras.







© Ademir Antonio Bacca



In: O Relógio de Alice

06/04/2010

Reinvenção

Reinvenção







A vida só é possível



reinventada.







Anda o sol pelas campinas



e passeia a mão dourada



pelas águas, pelas folhas...



Ah! tudo bolhas



que vem de fundas piscinas



de ilusionismo... — mais nada.







Mas a vida, a vida, a vida,



a vida só é possível



reinventada.







Vem a lua, vem, retira



as algemas dos meus braços.



Projeto-me por espaços



cheios da tua Figura.



Tudo mentira! Mentira



da lua, na noite escura.







Não te encontro, não te alcanço...



Só — no tempo equilibrada,



desprendo-me do balanço



que além do tempo me leva.



Só — na treva,



fico: recebida e dada.







Porque a vida, a vida, a vida,



a vida só é possível



reinventada.







Cecília Meireles

05/04/2010

Passando dos Cinqüenta

Passando dos Cinqüenta







Meu pescoço se enruga.



Imagino que seja



de mover a cabeça



para observar a vida.



E se enrugam as mãos



cansadas dos seus gestos.



E as pálpebras



apertadas no sol.



Só da boca não sei



o sentido das rugas



se dos sorrisos tantos



ou de trancar os dentes



sobre caladas coisas.

(Marina Colasanti)

04/04/2010

Lágrimas ocultas


"Se me ponho a cismar em outras eras

Em que ri e cantei, em que era querida,

Parece-me que foi noutras esferas,

Parece-me que foi numa outra vida...



E a minha triste boca dolorida,

que dantes tinha o rir das primaveras,

Esbate as linhas graves e severas

E cai num abandono de esquecida!



E fico, pensativa, olhando o vago...

Toma a brandura plácida dum lago

O meu rosto de monja de marfim...



E as lágrimas que choro, branca e calma,

Ninguém as vê brotar dentro da alma!

Ninguém as vê cair dentro de mim!"



Adélia Prado

As mulheres ocas

As mulheres ocas



Nós somos a inorgânicas

Frias estátuas de talco

Com hálito de champagne

E pernas de salto alto

Nossa pele fluorescente

É doce e refrigerada

E em nossa conversa ausente

Tudo não quer dizer nada.



Nós somos as longilíneas

Lentas madonas de boate

Iluminamos as pistas

Com nossos rostos de opala.

Vamos em câmara lenta

Sem sorrir demasiado

E olhamos como sem ver

Com nossos olhos cromados.



Nós somos as sonolentas

Monjas do tédio inconsútil

Em nosso escuro convento

A ordem manda ser fútil

Fomos alunas bilíngües

de "Sacre-Coeur" e "Sion"

Mas adorar, só adoramos

A imagem do deus Mamon.



Nós somos as grâ-funestas

Filhas do Ouro com a Miséria

O gênio nos enfastia

E a estupidez nos diverte.

Amamos a vida fria

E tudo o que nos espelha

Na asséptica companhia

Dos nossos machos-de-abelha.



Nós somos as bailarinas

Pressagas do cataclismo

Dançando a dança da moda

Na corda bamba do abismo.

Mas nada nos incomoda

De vez que há sempre quem paga

O luxo de entrar na roda

Em Arpels ou Balenciaga.



Nós somos as grâ-funestas

As onézimas letais*

Dormimos a nossa sesta

Em ataúdes de cristal

E só tiramos do rosto

Nossa máscara de cal

Para o drinque do sol posto

Com o cronista social.
*****************

Vinicius de Moraes

Poesia completa e prosa

Organização: Alexei Bueno

Rio de Janeiro, Editora Nova Aguilar S.A
1998

03/04/2010

Preciso, para

Preciso que um barco atravesse o mar

lá longe

para sair dessa cadeira

para esquecer esse computador

e ter olhos de sal

boca de peixe

e o vento frio batendo nas escamas.

Preciso que uma proa atravesse a carne

cá dentro

para andar sobre as águas

deitar nas ilhas e

olhar de longe esse prédio

essa sala

essa mulher sentada diante do computador

que bebe a branca luz eletrônica

e pensa no mar.

***
Marina Colasanti

01/04/2010

A Ausência

"A Ausência "









Ao pé do lampião, no meu quarto deserto,



venho ler (e a esperança o espírito me invade)



onde o silêncio tem o aroma da saudade,



tuas cartas de amor que ao coração aperto.







O selo que as distingue é de um país incerto. . .



Mas que me importa o espaço, o tempo, a soledade?



O papel chora ou ri, mas diz sempre a verdade,



e eu do meu sonho, enfim, romântico, desperto.







Milagre! o fogo aumenta a vibração, e aflita



a chama - sua irmã - indecisa, palpita!



Parece-me que estás de volta da viagem...







E por um esplendor de que eu mesmo me espanto,



tuas cartas me dão, a um tempo, por encanto,



a sombra do teu vulto e o eco da tua imagem.







Henri de Régnier ( 1864-1936 )
Marselha, 1919
Tradução de Osório Duque.



31/03/2010

" Para Sempre"

" Para Sempre"



Murmuras: "Para sempre!" ao meu ombro inclinada.

Nossa separação virá, no entanto. É a sorte.

Um de nós, o primeiro, há de encontrar a morte,

e do chorão dormir sob a triste ramada.



Vinte vezes, do cais, já vira a marujada

ao molhe regressar o brigue de alto porte;

mas um dia se fez de rumo para o Norte,

e o Pólo o sepultou sob o gelo. Mais nada.



Vinte anos ao beiral, com a primavera, o bando

de andorinhas volveu, jubiloso, chilrando;

mas o verão chegou, e eu não as vejo mais.



Juras de eterno amor teus doces lábios soltam...

Mas eu penso no adeus dos que vão e não voltam...

Por que a palavra "sempre" em boca de mortais?
******
François Coppée (1824-1908)
Tradução de Antonio Salles.











30/03/2010

" A Felicidade Deste Mundo "

" A Felicidade Deste Mundo "



Ter uma casa limpa, aconchegante e bela,

um florido jardim com canteiros fragrantes,

frutas frescas, bom vinho, e as crianças distantes,

para gozar em paz a fiel presença dela.



Sem dívidas, questões e sem qualquer querela,

herança a repartir, parentes litigantes,

contentar-se com um pouco, evitar intrigantes

e viver com justiça uma vida singela.



Com franqueza jovial, sonhar, sem ambições,

cultivar com prazer as caras devoções,

dominando o desejo e as tentações da sorte,



a alma livre mantendo, o raciocínio, forte,

e em paz, a conversar com Deus, em orações,

aguardar sem temer a presença da morte.
***
Cristophe Plantin

(Bélgica – 1514 / 1589 )




29/03/2010

" Coração Partido "

" Coração Partido "


Acreditei que o coração já estava

curado para sempre. E já o havia

encantado com a música, a poesia

alta e pura, que à lira dedilhava.



E por onde eu seguia, onde eu passava,

a gentil primavera refloria;

- sonhos de paz e cantos de alegria,

a luz do sol em meu rincão entrava.



Mas, entre as rosas, eis que tu surgiste

como sempre, a sorrir, ó inconstante!

jogando redes, preparando laços...



E o meu altivo olhar tornou-se triste,

e o pobre coração, de novo, amante

outra vez aos teus pés fez-se em pedaços...

***
Juan Ramón Jiménez
(1881-1958)



28/03/2010

" AMOR "

" AMOR "

Baltazar Estazo

(espanhol - século XIX)
 


Com vosso amor é um sábio o ignorante;

sem vosso amor é tolo o mais prudente;

com vosso amor se absolve o delinqüente,

sem vosso amor varia o mais constante;



com vosso amor é ousado o mais galante;

sem vosso amor, culpado o que é inocente;

com vosso amor, festivo o displicente,

sem vosso amor o humilde é um arrogante;



com vosso amor é claro o mais obscuro;

sem vosso amor é nada o que o céu cobre;

com vosso amor é justo o mais iníquo;



sem vosso amor é torpe o que é mais puro,

com vosso amor é rico o que é mais pobre,

sem vosso amor é pobre o que é mais rico!


 
( Tradução de J. G. de Araujo Jorge, do livro

"Os Mais Belos Sonetos Que O Amor Inspirou"

Vol. II - 1a edição 1965 )

27/03/2010

" Tuas Mãos "

" Tuas Mãos "







Mãos frágeis, mãos divinas, mãos pequenas,



leves, espirituais e perfumadas,



cujas unhas são pérolas morenas



nos escrínios dos dedos engastadas.







Mãos que são duas silabas amenas



no poema dos teus braços enfeixadas;



que, estando acima das visões terrenas,



jamais serão por outras igualadas.







Mãos que ostentam, nas formas delicadas



todo o encanto das noites enluaradas



na linda terra que te viu nascer...







E para eu ser feliz basta somente



beijar teus dedos demoradamente



e sob o afago dessas mãos morrer!
***
Abílio de Carvalho
(Vitória, Espirito Santo)