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20/07/2014

Sobre a Esperança


Os olhos dele
dos olhos dela
um segundo que fosse, não se separavam,
como se quisessem acender as chamas que vacilavam
com a luz da própria Vida...

E a chama dos olhos dela, vacilantes, na noite
de vigília, sem dormida,
eram como as chamas no pavio das velas
quando o vento abre as janelas...

(Poema de JG de Araujo Jorge extraídodo livro " AMO ! " 1a edição 1938 )

08/03/2014

Amor


E nunca chegamos ao fim taça, 
Por mais que a esvaziemos.

Agora,
Sei que isso é amor...

J. G. de Araújo Jorge

13/02/2014

Solilóquio nº 3



Vai alta a noite, como um silencioso veleiro
de negras velas pandas, ao luar.
..............................................
Estou sozinho, num cais inexistente,
na sombra de tudo,
a olhar o mar...

... e a te esperar...

J. G. de Araújo Jorge

Foto: Praia da Ponta Verde/Maceió AL
By: Alairce (Liz) Guides Rodrigues

11/11/2011

Meu céu interior


Se esses teus olhos, no meu livro, imersos,

encontrarem diversas emoções,

- não tentes decifrar... – mil corações

nós os temos num só, todos diversos...



Os meus poemas aqui, vivem dispersos,

como as estrelas... e as constelações...

- no céu das minhas íntimas visões,

no "meu céu interior..." cheio de versos.



Não procures o poeta compreender...

- Os versos que umas cousas nos desnudam,

Outras cousas, ocultam, sem querer...



Uns, são felizes... Outros, ao contrário...

- No rosário da vida, as contas mudam,

e os versos são contas de um rosário!...

 
(Poema de J. G. de Araujo Jorge, extraído do livro

"Meu Céu Interior", 1ª edição, setembro,1934.)



14/04/2011

"Mãos"


"Mãos..."


Como aves desarvoradas

Depois de roteiros vãos

Tuas mãos vieram, cansadas,

Se aninhar em minhas mãos...

Há momentos... Acontece...

Puro, o amor pode ficar,

Como duas mãos em prece,

Esquecidas, a rezar...

Quando maior é o carinho

Às vezes, tenho a impressão

De que conversam baixinho...

Tua mão... em minha mão..."

 


J. G. de Araújo Jorge (1914 / 1987),
do livro "Trevo de Quatro Versos"
1a ed. 1964
 




21/03/2011

" Desabafo..."

" Desabafo..."

Longe de ti, este amor me põe agitado

como um mar de agosto.

Eu precisaria talvez de fazer uma sangria

nesta angustiosa saudade

que carrego opresso, tantas horas

como um sonho desenganado.

Recuo sempre, entretanto. Avaramente recuo.

Não sei partilhar-te com ninguém,

ainda que seja para aliviar
o coração.

J. G. de Araújo Jorge

14/03/2011

A vida

"... A vida é assim, segue e verás, - a vida

é um dia de esperança, um longo poente

de incertezas cruéis, e finalmente

a grande noite estranha e dolorida...



Hoje o sol, hoje a luz, hoje contente

a estrada a percorrer suave e florida...

- amanhã, pela sombra, inutilmente

outra sombra a vagar, triste e perdida...



A vida é assim, é um dia de esperança

uma réstia de luz entre dois ramos

que a noite envolve cedo, sem tardança...



E enquanto as sombras chegam, nós, ao vê-las,

ainda somos felizes e encontramos

a saudade infinita das estrelas!..."


J. G. de Araujo Jorge

20/02/2011

" Solidão "


Solidão

é de repente perceber

que todos viraram multidão

e em meio às lembranças, sem rosto, desfiguradas,

não conhecemos ninguém...



Solidão

é de repente compreender

que já não há mais tempo para nada,

e que temos que terminar, assim

como quem começa... do fim...



Solidão é imprevistamente estar órfão

junto dos pais,

desamparado e triste quando os amigos

riem a cantam,

e o amor, aquele amor de sonho e sol,

pesar nos braços

como um esquife . . .



Solidão

é de repente se olhar no espelho

sem se encontrar,

sem ver mais nada,

como quem se debruça a uma janela

emparedada...




J. G. de Araújo Jorge 

"Os Mais Belos Poemas Que O Amor Inspirou"

Vol. III - 1a edição 1965

12/02/2011

Chuva



Há tanto tempo que não chove assim!

O dia veste um céu triste e cinzento,
e ouço a chuva a cair como um lamento
no seu rumor monótono... sem fim...

Que estranha sensação de isolamento!
-Nem uma voz ouço ao redor de mim,
escuto apenas lá por fora, o vento
a desfolhar as flores no jardim...

Ninguém ao meu redor... ninguém me fala...
-e me deixo a ficar num tédio imenso,
na tóxica penumbra desta sala...

Que inquietude vazia há dentro de mim!
-Não sei se existo... não sei bem se penso...

Há tanto tempo não chove assim!

 J.G.  de Araújo Jorge
"Bazar de Ritmos" 1a edição, 1935.

21/01/2011

" Dualismo "



    

Sou a repetição de um velhíssimo drama,
pantomima banal sem princípio e sem fim...
( há de sempre existir na vida de quem ama
um pouco de Pierrot... e um pouco de Arlequim ! )

Como uma ave escondida a cantar numa rama,
trago um poeta que sonha e faz versos por mim,
- a alma cheia de sol !... sigo no entanto assim
como quem traz nos pés sempre um pouco de lama...

Meus olhos são janelas que escancaro ao sonho !
E as mãos, - mesmo nas horas em que a sós componho
São raízes nervosas de desejos vãos...

Existo, - nesse eterno dualismo esquisito:.
- tendo os olhos abertos cheios de infinito!
- e enraizadas na terra, e sujas, as minhas mãos !


( Poema de J. G. de Araujo Jorge - do livro
Eterno Motivo; -  Prêmio Raul de Leoni,
da Academia Carioca de Letras - 1943 )

03/12/2010

" Distraído ? "



Levo sempre esse ar de quem vai conversando
com alguém...
Entretanto
sigo sozinho
e não vejo ninguém...
...................................................................................

Tão fácil o mistério:
tu me acompanhas por toda parte,
mas eu apenas sei disto...



( Poema de J.G. de Araújo Jorge

do livro "ESPERA..."- 1960 )

30/11/2010

Paraíso Perdido

  Penso isto: penso que devemos fugir para nós mesmos.

Não são apenas os amigos que nos levam sem reação,

são os cinemas, os teatros, as horas que perdemos nas ruas

quando nosso quarto se fecha silencioso, sem tempo

e esperanças.

Não são apenas as horas que o trabalho me rouba

inapelavelmente, e que não me serão devolvidas.

É a nossa vida, feita sem tempo e de desencontros,

sem pausa para a criação, sem paz para o recolhimento,

sem silêncio para o pensamento, sempre ininterrupta,

passando por nós, enquanto nos deixamos ficar sem alcançá-la...

Penso isto: só a fuga para nós mesmos seria a salvação.

Conheço um amigo pintor que se encontrou em Itatiaia

e ouve o canto dos pássaros e das águas junto às Agulhas Negras.

Meu amor: sinto que vamos chegando à hora em que

devemos voltar ao Paraíso,

ou jamais o reconquistaremos.

(Poema de J. G. de Araujo Jorge,

do livro Antologia Poética - 1978 )

28/11/2010

"Lírica Nº 38 "



Que voltes antes de anoitecer...
Antes que as sombras desçam irremediavelmente

sobre o coração.

Que eu ainda te possa ver refletida em meus olhos,

e ainda reconheças as pegadas de antes

indeléveis, no chão.

J. G. de Araújo Jorge


11/11/2010

A vida que eu sonhei...

Eu sonhei para mim, uma vida discreta
num lugar bem distante, a sós, tendo-te ao lado
- num castelo que fiz lá num reino encantado,
nesse reino que eu chamo o coração de um poeta.

..Sonhei... Vi-me feliz na solidão de asceta,
bem longe deste mundo, a rir, despreocupado...
- acordando a escutar no arvoredo o trinado
das aves, e a dormir fitando a lua inquieta...

Vivia na ilusão daquele que ainda crê,
na vida, e o meu amor, eu o tinha idealizado
no romance de um lar coberto de sapê...

Mentiras que eu sonhei!... No entanto hoje me ponho
muita vez a pensar no tal reino encantado
e sinto uma saudade imensa do meu sonho!...
***
J. G. de Araújo Jorge

15/10/2010

De Mãos Dadas


Ando na vida de mãos dadas
com a tua lembrança...
- E para que falar em esperança?
Não sei onde me levará esta ansiedade,
ou esta melancolia
cheia de umidade,
a me envolver como uma cerração...
Para a loucura?
Para a felicidade?
Ou para este morrer de cada dia
de quem vai tateando em noite escura...
cego do coração?
Que fazer? Ando na vida
como quem anda
- perdido, andando em vão...
Ando na vida de mãos dadas
com a tua lembrança,
a fazer roda em silêncio... numa triste ciranda
sem canção...
.

J. G. de Araújo Jorge

08/10/2010

Balada da Chuva

A tarde se embaça: - um pingo, outro pingo

respinga um respingo de encontro à vidraça;

um pingo, outro pingo, e a chuva aumentando

e eu nada distingo, - respinga um respingo

tinindo, cantando de encontro à vidraça.

A noite está baça e a chuva enervante

batendo, batendo, constante, cantante

de encontro à vidraça.

A terra se alaga, o céu se nevoa,

e a chuva é uma vaga fininha, descendo,

parece garoa!

parece fumaça!

- e as águas subindo e as poças subindo

e a chuva descendo e a chuva não passa!

O dia surgindo, manhã turva e baça.

A chuva fininha miudinha, miudinha,

parece farinha lá fora caindo,

através da vidraça.

A tarde está escura, a noite está baça,

e as brumas de um tédio,

de um tédio sem cura,

talvez sem remédio,

minha alma esfumaça:

- um dia, outro dia e os dias passando

em lenta agonia segunda a domingo;

um pingo, outro pingo, respinga um respingo,

batendo, cantando, mil dedos tocando

de encontro à vidraça...

- que chuva! que chuva!

e a chuva não passa!

Constante, cantante caindo distante

nas folhas molhadas,

nas poças paradas despidas e nuas,

e murmurejante rolando nas ruas;

- um pingo, outro pingo

na lata cantando goteira se abrindo

pingando, pingando

batendo, batendo

tinindo, tinindo,

 

parece um tinido, de taça com taça,

e a chuva chovendo

e a chuva não passa!

O vento nas folhas de leve perpassa,

e as gotas nos fios rolando, escorrendo

lá fora estou vendo através da vidraça,

- que dias sem alma!

- que noites sem graça!

e a chuva, que calma!

chovendo, chovendo

não passa! não passa!

A terra está envolta nas brumas de um véu,

de um véu de viúva que o dia escurece,

e a noite enfumaça.

- E' a chuva que chove, e do alto se solta

descendo, descendo, rolando, escorrendo

nos olhos do céu...

Nos olhos do céu e no olhar da vidraça!

- que chuva! que chuva! parece um dilúvio,

quem sabe? - parece que a chuva não passa! 

(Poema de J. G. de Araújo Jorge

do livro - Antologia Poética - 1978)





















05/10/2010

Dedicatória N.1



Este meu livro é todo teu, repara
que ele traduz em sua humilde glória
verso por verso, a estranha trajetória
desta nossa afeição ciumenta e rara!
Beijos! Saudades! Sonhos! Nem notara
tanta cousa afinal na nossa história...
E este verso – é a feliz dedicatória...
onde a minha alma inteira se declara...
Abre este livro... E encontrarás então
teu coração, de amor, rindo e cantando,
cantando e rindo com o meu coração...
E se o leres mais alto, quando a sós,
é como se estivesses me escutando
falar de amor com a tua própria voz!

***

J. G. de Araújo Jorge

04/10/2010

Sem ti





Sem ti
em meu enervamento
sou como um artista sem instrumento
- um pianista sem piano -

um marinheiro sem mar

ou sem navio,

um alcoólatra sem bebida...
um corpo a teimar que ainda pode viver
assim vazio,
sem vida...

( Poema de J. G. de Araujo Jorge

do livro" A Sós..." 1a ed. 1958 )