Mostrando postagens com marcador Elizabeth Barret Browning. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Elizabeth Barret Browning. Mostrar todas as postagens

21/03/2010

Catarina a Camões (cont.)

IV


Sim. Creio que se a vê-los te encontrasses

Agora, ao pé do leito em que me fino,

Ainda que a beleza lhes negasses,

Só pelo amor que neles eu defino

Com verdade

E ansiedade

Repetirias, meu amor, ao vê-los:

O lindo ser dos vossos olhos belos.

V

E se neles pusesse teu olhar

E eles pusessem seu olhar no teu,

Toda a luz que começa a lhes faltar

Voltaria de pronto ao lugar seu.

Com verdade

E ansiedade

Dir-se-ia como tu disseste ao vê-los:

O lindo ser dos vossos olhos belos.
VI

Mas – ai de mim! – tu não me vês senão

Nos pensamentos teus de amante ausente,

E sorrindo talvez, sonhando em vão,

Trás o abanar do leque levemente;

E, sem pensar,

Em teu sonhar

Iras talvez dizendo sempre ao vê-los:

O lindo ser dos vossos olhos belos,

VII

Enquanto o meu espírito se debruça

Do meu pálido corpo sucumbido,

Ansioso de saber que falas usa

Teu amor p'ra meu espírito ferido,

Poeta, vem

Mostrar bem

Que amor trazem aos olhos teus desvelos

– O lindo ser dos vossos olhos belos.

VIII

Ó meu poeta, ó meu profeta, quando

Destes olhos louvaste o lindo ser,

Pensaste acaso, enquanto ias cantando,

Que isso já estava prestes de morrer?

Seus olhares

Deram-te ares

De que breve podias não mais vê-los,

O lindo ser dos vossos olhos belos.

IX

Ninguém responde. Só suave, defronte,

No pátio a fonte canta em solidão,

E como água no mármore da fonte,

Do amor p'ra a morte cai meu coração.

E é da sorte

Que seja a morte

E não o amor, que ganhe os teus desvelos

– O lindo ser dos vossos olhos belos!

X

E tu nunca virás? Quando eu me for

Onde as doçuras estão escondidas,

E onde a tua voz, ó meu amor,

Não me abrirá as pálpebras descidas,

Dize, amo meu,

"O amor, morreu!"

Sob o cipreste chora os teus desvelos

– O lindo ser dos vossos olhos belos.

XI

Quando o angelus toca à oração,

Não passarás ao pé deste convento,

Lembrando-te, a chorar, do cantochão

Que anjos nos traziam do firmamento?

No ardor meu

Eu via o céu

E tu: "O mundo é vil, ó meus desvelos,


Ao lindo ser dos vossos olhos belos?"

XII

Devagar quando, do palácio ao pé,

Cavalgares, como antes, suave e rente,

E ali vires um rosto que não é

O que vias ali antigamente,

Dirás talvez

"Tanta vez

Me esperaste aqui, ó meus desvelos

Ó lindo ser dos vossos olhos belos!"

XIII

Quando as damas da corte, arfando os peitos,

Te disserem, olhando o gesto teu,

"Canta-nos, poeta, aqueles versos feitos

Àquela linda dama que morreu",

Tremerás?

Calar-te-ás?

Ou cantarás, chorando, os teus desvelos

– O lindo ser dos vossos olhos belos?

XIV

"Lindo ser de olhos belos!" Suaves frases

E deliciosas quando eu as repito!

Cem poesias outras que cantasses,

Sempre nesta a melhor terias dito.

Sinto-a calma

Entre a minha alma

E os rumores da terra ? pesadelos:

– O lindo ser dos vossos olhos belos.

XV

Mas reza o padre junto à minha face,

E o coro está de joelhos todo em prece,

E é forçoso que a alma minha passe

Entre cantos de dor, e não como esse.

Miserere

P'los que fere

O mundo, e p'ra Natércia, os teus desvelos

– O lindo ser dos vossos olhos belos.

XVI

Guarda esta fita que te mando

(Tirei-a dos cabelos para ti).

Sentir-te-ás, quando o teu choro arda,

Acompanhado na tua dor por mi;

Pois com pura

Alma imperjura

Sempre do céu te olharão teus desvelos

– O lindo ser dos vossos olhos belos.

XVII

Mas agora, esta terra inda os prendendo,

Desses olhos o brilho é inda alado...

Amor, tu poderás encher, querendo,

Teu futuro de todo o meu passado,

E tornar

A cantar

A outra dama ideal dos teus desvelos:

O lindo ser dos vossos olhos belos.

XVIII

Mas que fazeis, meus olhos, ó perjuros!

Perjuros ao louvor que ele vos deu,

Se esta hora mesmo vos não mostrais puros

De lágrima que acaso vos encheu?

Será forte

Choro ou morte

Se indignos os tornar de teus desvelos

– O lindo ser dos vossos olhos belos.

XIX

Seu futuro encherá meu 'spírito alado

No céu, e abençoá-lo-ei dos céus.

Se ele vier a ser enamorado

De olhos mais belos do que os olhos meus,

O céu os proteja,

Suave lhes seja

E possa ele dizer, sincero, ao vê-los:

– O lindo ser dos vossos olhos belos.

Elizabeth Barret Browning

20/03/2010

Catarina a Camões

I


P'ra a porta onde não surges nem me vês


Há muito tempo que olho já em vão.


A esperança retira o seu talvez;


Aproxima-se a morte, mas tu não.


Amor, vem


Fechar bem


Estes olhos de que dissestes ao vê-los:


O lindo ser dos vossos olhos belos.



II


Quando te ouvi cantar esse bordão


Nos meus de primavera alegres dias;


Todo alheio louvar tendo por vão


Só dava ouvidos ao que tu dizias


– Dentro em mim


Dizendo assim:


"Ditosos olhos de que disse ao vê-los:


O lindo ser dos vossos olhos belos."










III


Mas tudo muda. Nesta tarde fria


O sol bate na porta sem calor.


Se estivesse aí murmuraria


Como dantes tua voz – "amo-te, amor";


A morte chega


E já cega


Os olhos que ontem eram teus desvelo


O lindo ser dos vossos olhos belos.








Catarina a Camões



Elizabeth Barret Browning


Tradução de Fernando Pessoa













12/02/2010

AMA-ME POR AMOR DO AMOR

AMA-ME POR AMOR DO AMOR
***
Ama-me, por amor do amor somente,
Não digas: Amo-a pelo seu olhar,
O seu sorriso, o modo de falar
Honesto e brando. Amo-a porque se sente
*
Minh'alma em comunhão constantemente
Com a sua". Por que pode mudar
Isso tudo, em si mesmo, ao perpassar
Do tempo, ou para ti unicamente.
*
Nem me ames pelo pranto que a bondade
De tuas mãos enxuga, pois se em mim
Secar, por teu conforto, esta vontade
*
De chorar, teu amor pode ter fim!
Ama-me por amor do amor, e assim
Me hás de querer por toda a eternidade.
***
Elizabeth Barrett Browning
Tradução: Manuel Bandeira
Quadro de Claude Monet

07/02/2010

Como eu te amo

HOW DO I LOVE THEE? LET ME COUNT THE WAYS
Elizabeth Barrett Browning
How do I love thee? Let me count the ways.
I love thee to the depth and breadth and height
My soul can reach, when feeling out of sight
For the ends of Being and ideal Grace.
I love thee to the level of everyday's
Most quiet need, by sun and candle-light.
I love thee freely, as men strive for Right;
I love thee purely, as they turn from Praise.
I love thee with a passion put to use
In my old griefs, and with my childhood's faith.
I love thee with a love I seemed to lose
With my lost saints, --- I love thee with the breath,
Smiles, tears, of all my life! --- and, if God choose,
I shall but love thee better after death.
***
Amo-te quanto em largo, alto e profundo
Minh’alma alcança quando, transportada,
Sente, alongando os olhos deste mundo,
Os fins do Ser, a Graça entressonhada.
.
Amo-te em cada dia, hora e segundo:
À luz do sol, na noite sossegada.
E é tão pura a paixão de que me inundo
Quanto o pudor dos que não pedem nada.
.
Amo-te com o doer da velhas penas;
Com sorrisos, com lágrimas de prece,
E a fé da minha infância, ingênua e forte.
.
Amo-te até nas coisas mais pequenas.
Por toda a vida. E, assim Deus o quisesse,
Ainda mais te amarei depois da morte.
***
Elizabeth Barrett Browning
Tradução de Manuel Bandeira
***

13/10/2009

Substituição



Se uma adorada voz, que fora em vossa vida,

suavidade e som, de repente se esvai,

e se logo um silêncio impenetrável cai,

qual súbito mal-estar ou dor desconhecida,


- que esperança há? Que auxílio? E que música ouvida,

o silêncio destrói? Nem da amizade o ai

– nem da razão sutil a conta; não se vai

ao som de violino ou de flauta gemida;



nem canções de poeta e nem de rouxinóis,

a voz que vai subindo através dos ciprestes

até à clara lua; e medo lhe não causa




das esferas, o canto – ou dos anjos, nos sóis,

a voz que sobe a Deus; ó não, nenhuma destas!

Fala só Tu, ó Cristo, e preenche esta pausa.

.
Elizabeth Barrett Browning

(Tradução de Alexandre Herculano de Carvalho)

21/09/2009

Sonetos Portugueses III


"Parte: não te separas? Que jamais

Sairei de tua sombra. Por distante

Que te vás, em meu peito, a cada instante,

Juntos dois corações batem iguais.

.
Não ficarei mais só. Nem nunca mais

Dona de mim, a mão, quando a levante,

Deixará de sentir o toque amante

Da tua, - ao que fugi. Parte: Não sais!

.
Como o vinho, que às uvas donde flui

Deve saber, é quanto faço e quanto

Sonho, que assim também todo te inclui.
.

A ti, amor! minha outra vida, pois

Quando oro a Deus, teu nome Ele ouve e o pranto

Em meus olhos são lágrimas de dois."
***

Elizabeth Browning Barret

Tradução de Manuel Bandeira
* gettyimages.com

14/08/2009

SONETO XXVIII


SONETO XXVIII

As minhas cartas! Todas elas frio,

mudo e morto papel! No entanto agora

Lendo-as, entre as mãos trêmulas o fio

da vida eis que retomo hora por hora.


Nesta queria ver-me — era no estio

—Como amiga a seu lado... Nesta implora

Vir e as mãos me tomar... Tão simples! Li-o

E chorei. Nesta diz quanto me adora.


Nesta confiou: sou teu, e empalidece

A tinta no papel, tanto o apertara

Ao meu peito que todo inda estremece!


Mas uma... Ó meu amor, o que me disse

Não digo. Que bem mal me aproveitara,

Se o o que então me disseste eu repetisse...
.
Elizabeth Barret Browning

Tradução: Manuel Bandeira

13/08/2009

Sonetos Portugueses XIV (Elizabeth B . Browning)


Ama-me por amor do amor somente.

Não digas: “Amo-a pelo seu olhar,

o seu sorriso, o modo de falar

honesto e brando. Amo-a porque se sente
.

minh’alma em comunhão constantemente

com a sua”. Por que pode mudar

isso tudo, em si mesmo, ao perpassar

do tempo, ou para ti unicamente.
.

Nem me ames pelo pranto que a bondade

de tuas mãos enxuga, pois se em mim

secar, por teu conforto, esta vontade
.
de chorar, teu amor pode ter fim!

Ama-me por amor do amor, e assim

me hás de querer por toda a eternidade.

.

Elizabeth Barrett Browning

Tradução: Manuel Bandeira

17/04/2009

Amo-te

“Amo-te não só pelo que és,
Mas pelo que sou quando estou ao teu lado...
Amo-te, não só pelo que tens feito de ti,
Mas pelo que tens feito e estás fazendo de mim...
Amo-te, porque não vês em mim, as loucas,
Fracas coisinhas que não podes deixar de observar
E porque trazes à luz do dia tantas belezas
Que ninguém procurara ainda descobrir.
Amo-te porque ajudas-me a construir
Do madeiro de minha vida,
Não uma taberna, mas um templo."
*
Elizabeth Barret Browning