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29/11/2010

A hora da partida


A hora da partida soa quando

Escurece o jardim e o vento passa,

Estala o chão e as portas batem, quando

A noite cada nó em si deslaça.


A hora da partida soa quando

as árvores parecem inspiradas

Como se tudo nelas germinasse.


Soa quando no fundo dos espelhos

Me é estranha e longínqua a minha face

E de mim se desprende a minha vida.


Sophia de Mello Breyner Andresen
poetisa portuguesa






20/11/2010

Para atravessar contigo o deserto do mundo

Para atravessar contigo o deserto do mundo

Para enfrentarmos juntos o terror da morte.

Para ver a verdade, para perder o medo,

Ao lado dos teus passos caminhei.

Por ti deixei meu reino meu segredo,

Minha rápida noite, meu silêncio,

Minha pérola redonda e seu oriente

Meu espelho, minha vida, minha imagem,

E abandonei os jardins do paraíso

Cá fora à luz sem véu do dia duro.

Sem os espelhos vi que estava nua
E ao descampado se chamava tempo.

Por isso com teus gestos me vestiste

E aprendi a viver em pleno vento.


(Sophia de Mello Breyner Andresen, in Livro Sexto)


23/06/2010

Ausência

Ausência


Num deserto sem água

Numa noite sem lua

Num país sem nome

Ou numa terra nua


Por maior que seja o desespero

Nenhuma ausência é mais funda do que a tua.


*

Sophia de Mello Breyner



(1919-2004)