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12/07/2025

Ainda que mal... (Carlos Drummond de Andrade)

 



Ainda que mal pergunte,

ainda que mal respondas;
ainda que mal te entenda,
ainda que mal repitas;
ainda que mal insista,
ainda que mal desculpes;
ainda que mal me exprima,
ainda que mal me julgues;
ainda que mal me mostre,
ainda que mal me vejas;
ainda que mal te encare,
ainda que mal te furtes;
ainda que mal te siga,
ainda que mal te voltes;
ainda que mal te ame,
ainda que mal o saibas;
ainda que mal te agarre,
ainda que mal te mates;
ainda assim te pergunto
e me queimando em teu seio,
me salvo e me dano: amor.

(Carlos Drummond de Andrade)

11/07/2025

Congresso internacional do medo



Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
não cantaremos o ódio, porque este não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte.
Depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas.

Carlos Drummond de Andrade

Foto: google.

26/05/2014

A um ausente






Tenho razão de sentir saudade,
tenho razão de te acusar.
Houve um pacto implícito que rompeste
e sem te despedires foste embora.
Detonaste o pacto.
Detonaste a vida geral, a comum aquiescência
de viver e explorar os rumos de obscuridade
sem prazo sem consulta sem provocação
até o limite das folhas caídas na hora de cair.

Antecipaste a hora.
Teu ponteiro enlouqueceu,
enlouquecendo nossas horas.
Que poderias ter feito de mais grave 
do que o ato sem continuação, o ato em si,
o ato que não ousamos nem sabemos ousar
porque depois dele não há nada?

Tenho razão para sentir saudade de ti,
de nossa convivência em falas camaradas,
simples apertar de mãos, nem isso, voz
modulando sílabas conhecidas e banais
que eram sempre certeza e segurança.

Sim, tenho saudades.
Sim, acuso-te porque fizeste
o não previsto nas leis da amizade e da natureza
nem nos deixaste sequer o direito de indagar
porque o fizeste, porque te foste.

Carlos Drummond de Andrade.



Para o Gui (eternamente)

31/12/2013

Amor e Seu Tempo

Amor e Seu Tempo

Amor é privilégio de maduros
Estendidos na mais estreita cama,
Que se torna a mais larga e mais relvosa,
Roçando, em cada poro, o céu do corpo.
É isto, amor: o ganho não previsto,
O prêmio subterrâneo e coruscante,
Leitura de relâmpago cifrado,
Que, decifrado, nada mais existe
Valendo a pena e o preço do terrestre,
Salvo o minuto de ouro no relógio
Minúsculo, vibrando no crepúsculo.
Amor é o que se aprende no limite,
Depois de se arquivar toda a ciência
Herdada, ouvida. amor começa tarde.

Carlos Drummond de Andrade

23/12/2011

O Rei-Menino


O estandarte do Rei não é de púrpura e brocado,
é um lírio flutuante sobre o caos,
onde ambições se digladiam
e ódios se estraçalham.
O Rei vem cumprir o anúncio de Isaías:
vem para evangelizar os brutos,
consolar os que choram,
exaltar os cobertos de cinza,
desentranhar o sentido exato da paz,
magnificar a justiça.
Entre Belém e Judá e Wall Street,
no torvelinho de negações e equívocos,
a vergasta de luz deixa atônitos os fariseus.
Cegos distinguem o sinal,
surdos captam a melodia de anjos-cantadores,
mudos descobrem o movimento da palavra.
O Rei sem manto e sem jóias,
nu como folha de erva,
distribui riquezas não tituladas.
Oferece a transparência
da alma liberta de cuidados vis.
As coisas já não são as antigas coisas
de perecível beleza
e o homem não é mais cativo de sua sombra.
A limitação dos seres foi vencida
Por uma alegria não censurada,
graça de reinventar a Terra,
antes castigo e exílio,
hoje flecha em direção infinita.
O Rei, criança,
permanecerá criança mesmo sob vestes trágicas
porque assim o vimos e queremos,
assim nos curvamos diante do seu berço
tecido de palha, vento e ar.
Seu sangrento destino prefixado não dilui
a luminosidade desta cena.
O menino, apenas um menino,
acima das filosofias, da cibernética e dos dólares,
sustenta o peso do mundo
na palma ingênua das mãos.
.
Carlos Drummond de Andrade.

06/04/2011

Mãos Dadas



Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considere a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.

Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi suspiros ao anoitecer, a paisagem vista na janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.

Carlos Drummond de Andrade

12/12/2010

Disquisição na insônia



Que é loucura: ser cavaleiro andante

Ou segui-lo como escudeiro?

De nós dois, quem o louco verdadeiro?

O que, acordado, sonha doidamente?

O que, mesmo vendado,

Vê o real e segue o sonho

De um doido pelas bruxas embruxado?

Eis-me, talvez, o único maluco,

E me sabendo tal, sem grão de siso,

Sou - que doideira - um louco de juízo.

Carlos Drummond de Andrade

27/11/2010

Amor


O ser busca o outro ser, e ao conhecê-lo

acha a razão de ser, já dividido.

São dois em um: amor, sublime selo

que à vida imprime cor, graça e sentido.



"Amor" - eu disse - e floriu uma rosa

embalsamando a tarde melodiosa

no canto mais oculto do jardim,

mas seu perfume não chegou a mim.

Carlos Drummond de Andrade
1985 - AMAR SE APRENDE AMANDO

12/11/2010

A hora do cansaço

A hora do cansaço


As coisas que amamos,

as pessoas que amamos

são eternas até certo ponto.

Duram o infinito variável

no limite de nosso poder

de respirar a eternidade.


Pensá-las é pensar que não acabam nunca,

dar-lhes moldura de granito.

De outra matéria se tornam, absoluta,

numa outra (maior) realidade.


Começam a esmaecer quando nos cansamos,

e todos nós cansamos, por um outro itinerário,

de aspirar a resina do eterno.

Já não pretendemos que sejam imperecíveis.

Restituímos cada ser e coisa à condição precária,

rebaixamos o amor ao estado de utilidade.



Do sonho de eterno fica esse gosto ocre

na boca ou na mente, sei lá, talvez no ar.

Carlo Drummond de Andrade
(1984 - CORPO)

13/10/2010

Sentimento do Mundo


Tenho apenas duas mãos


e o sentimento do mundo,


mas estou cheio de escravos,


minhas lembranças escorrem


e o corpo transige


na confluência do amor.



Quando me levantar, o céu


estará morto e saqueado,


eu mesmo estarei morto,


morto meu desejo, morto


o pântano sem acordes.



Os camaradas não disseram


que havia uma guerra


e era necessário


trazer fogo e alimento.


Sinto-me disperso,


anterior a fronteiras,


humildemente vos peço


que me perdoeis.



Quando os corpos passarem,


eu ficarei sozinho


desfiando a recordação


do sineiro, da viúva e do microscopista


que habitavam a barraca


e não foram encontrados


ao amanhecer



esse amanhecer


mais noite que a noite.

Carlos Drummond de Andrade

27/09/2010

APARIÇÃO AMOROSA



Doce fantasma, por que me visitas

como em outros tempos nossos corpos se visitavam?

Tua transparência roça-me a pele, convida

a refazermos carícias impraticáveis: ninguém nunca

um beijo recebeu de rosto consumido.


Mas insistes, doçura. Ouço-te a voz,

mesma voz, mesmo timbre,

mesmas leves sílabas,

e aquele mesmo longo arquejo

em que te esvaías de prazer,

e nosso final descanso de camurça.

Então, convicto,

ouço teu nome, única parte de ti que não se dissolve

e continua existindo, puro som.

Aperto... o quê? a massa de ar em que te converteste

e beijo, beijo intensamente o nada.

Amado ser destruído, por que voltas
e és tão real assim tão ilusório?

Já nem distingo mais se és sombra

ou sombra sempre foste, e nossa história

invenção de livro soletrado

sob pestanas sonolentas.

Terei um dia conhecido

teu vero corpo como hoje o sei

de enlaçar o vapor como se enlaça

uma idéia platônica no espaço?



O desejo perdura em ti que já não és,
querida ausente, a perseguir-me, suave?

Nunca pensei que os mortos

o mesmo ardor tivessem de outros dias

e no-lo transmitissem com chupadas

de fogo aceso e gelo matizados.


Tua visita ardente me consola.

Tua visita ardente me desola.

Tua visita, apenas uma esmola.

Carlos Drummond de Andrade

24/08/2010

A Casa do Tempo Perdido


A CASA DO TEMPO PERDIDO

Bati no portão do tempo perdido, ninguém atendeu.
Bati segunda vez e mais outra e mais outra.
Resposta nenhuma.
A casa do tempo perdido está coberta de hera
pela metade; a outra metade são cinzas.


Casa onde não mora ninguém, e eu batendo e chamando
pela dor de chamar e não ser escutado.
Simplesmente bater. O eco devolve
minha ânsia de entreabrir esses paços gelados.
A noite e o dia se confundem no esperar,
no bater e bater.

O tempo perdido certamente não existe.
É o casarão vazio e condenado.

Carlos Drummond de Andrade

22/08/2010

Aspiração


Aspiração




Tão imperfeitas, nossas maneiras
de amar.

Quando alcançaremos

o limite, o ápice

de perfeição

que é nunca mais morrer,

nunca mais viver

duas vidas em uma,

e só o amor governe

todo além, todo fora de nós mesmos?

O absoluto amor,

revel à condição de carne e alma.


Carlos Drummond de Andrade
(1902-1987)

03/08/2010

A verdade dividida


A PORTA da verdade estava aberta

mas só deixava passar

meia pessoa de cada vez.



Assim não era possível atingir toda a verdade

porque a meia pessoa que entrava

só conseguia o perfil de meia verdade.



E sua segunda metade

voltava igualmente com meio perfil.

E os meios perfis não coincidiam.
Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.



Chegaram ao lugar luminoso

onde a verdade esplendia os seus fogos.

Era dividida em duas metades

diferentes uma da outra.


Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.

E era preciso optar. Cada um optou

confere seu capricho, sua ilusão, sua miopia.
 


Carlos Drummond de Andrade

22/07/2010

O MUNDO É GRANDE


O MUNDO É GRANDE



O mundo é grande e cabe
nesta janela sobre o mar.
O mar é grande e cabe
na cama e no colchão de amar.
O amor é grande e cabe
no breve espaço de beijar.

Carlos Drummond de Andrade


02/03/2010

Acordar, viver

Acordar, viver
*************
Como acordar sem sofrimento?
Recomeçar sem horror?
O sono transportou-me àquele reino
onde não existe vida e eu
quedo inerte sem paixão.
Como repetir, dia seguinte após dia seguinte,
a fábula inconclusa, suportar a semelhança
das coisas ásperas de amanhã
com as coisas ásperas de hoje?
Como proteger-me das feridas que
rasga em mim o acontecimento,
qualquer acontecimento que lembra
a Terra e sua púrpura demente?
E mais aquela ferida que me inflijo
a cada hora, algoz do inocente que não sou?
Ninguém responde, a vida é pétrea.
.
Carlos Drummond de Andrade

01/03/2010

Poemas de dezembro

Procuro uma alegria

uma mala vazia

do final de ano

e eis que tenho na mão

- flor do cotidiano -

é vôo de um pássaro

é uma canção.


Carlos Drummond de Andrade

(Dezembro de 1968)

19/02/2010

Amor é...

Amor é privilégio de maduros
estendidos na mais estreita cama,
que se torna a mais larga e mais relvosa,
roçando, em cada poro, o céu do corpo.
.
É isto, amor: o ganho não previsto,
o prêmio subterrâneo e coruscante,
leitura de relâmpago cifrado,
que, decifrado, nada mais existe
.
valendo a pena e o preço do terrestres,
salvo o minuto de ouro no relógio
minúsculo, vibrando no crepúsculo.
.
Amor é o que se aprende no limite,
depois de se arquivar toda a ciência
herdada, ouvida. Amor começa tarde.
.
Carlos Drummond de Andrade


08/02/2010

Amar



Amar

.
Que pode uma criatura senão,

entre criaturas, amar?

amar e esquecer,

amar e malamar, amar,

desamar, amar?

Sempre, e até de olhos vidrados, amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso,

sozinho, em rotação universal, senão

rodar também, e amar?

amar o que o mar traz à praia,

o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,

é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,

o que é entrega ou adoração expectante,

e amar o inóspito, o áspero,

um vaso sem flor, um chão de ferro,

e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave

de rapina. Este o nosso destino: amor sem conta,

distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,

doação ilimitada a uma completa ingratidão,

e na concha vazia do amor a procura medrosa,

paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura

nossa

amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede

infinita.


Carlos Drummond de Andrade

Imagem: Tarde de Chuva - Liz Guides

28/01/2010

Entre o ser e as coisas

Entre o ser e as coisas
Onda e amor, onde amor, ando indagando
ao largo vento e à rocha imperativa,
e a tudo me arremesso, nesse
quando amanhece frescor de coisa viva.
Às almas, não, as almas vão pairando,
e, esquecendo a lição que já se esquiva,
tornam amor humor, e vago e brando
o que é de natureza corrosiva.
N´água e na pedra amor deixa gravados
seus hieróglifos e mensagens, suas
verdades mais secretas e mais nuas.
E nem os elementos encantados
sabem do amor que os punge e que é, pungindo,
uma fogueira a arder no dia findo.
***
Carlos Drummond de Andrade
Entre o ser e as coisas
1951 - CLARO ENIGMA