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25/03/2010

Sonetos do Amante II

" Sonetos do Amante II "







Eternizar o amor que fora eterno



embora só vivesse dois instantes:



um quando o céu me alcançou - a um céu sem antes;



depois, ao acender em mim o inferno;



banida do presente, em lago terno



voltes a me banhar e desencantes



o mar que clama em vão, de ondas cortantes



partindo do meu ser, banhado o eterno.



Eternizar o amor de um só momento



e quanto mais perde-lo, mais ganhá-lo.



e quanto mais ganhá-lo, mais alento



trazer no que recordo e no que falo,



para que possa, em febre e sem sentimento



em mármore e sem saudade, eternizá-lo.
***
Afonso Felix de Souza
Jaraguá, Goiás - 1925




"Os Mais Belos Sonetos que o Amor Inspirou"



J.G . de Araujo Jorge - 1a ed. 1963

20/12/2009

Apelos

Os apelos do íntimo e os apelos da rua
como matéria de poesia, nua e crua

Diálogo sem fim
e a esmo
entre mim
e mim mesmo.

Tudo o que vi e que vivi retomo
e ao que o destino me negou
eu somo.

Afonso Félix de Souza

09/12/2009

Sonetos do amante


Sonetos do amante

III

Tudo que tenho a dar quando te entregas
a mim – é muito pouco. Já não basta
que os gestos guardem tantas ânsias cegas
de amar, de ser. Pois a memória arrasta
o rio do passado, que não regas,
que não regaste, com a água da vasta
fonte com que me embriagas; e se negas
ser a que fica em mim quando se afasta
da carne e da poesia: hora em que tento
outros mundos criar no pensamento,
contigo, além do tempo e da distância.
Não basta dar-te o canto como preço
do corpo junto ao meu, se ainda não desço
ao abismo onde o amor devolve a infância.

VI
Pudesse oferecer-te o que não tenho
numa palavra há muito tempo presa
nas grades do silêncio. E, donde venho
buscar-te com a minha natureza
de deus e de animal, trouxesse o lenho
que avivaria a sede sempre acesa
de aplacar tantas sedes que retenho
de ser mais do que sou, dar-te a beleza
do efêmero perdido, do que tive
de infância e de ternura, do que vive
em mim de quem mais quer e que te quer
- talvez sentisses mais que a carne pobre
que me eleva e revela, mas me cobre,
e sentisse eu em ti mais que a mulher.

VIII
Eternizar o amor que fora eterno
embora só vivesse dois instantes:
um quando ao céu me alçou – a um céu sem antes;
depois, ao acender em mim o inferno.
Banida do presente, em lago terno
voltes a me banhar e desencantes
o mar que clama em vão, de ondas cortantes
partindo do meu ser, banhando o eterno.
Eternizar o amor de um só momento
e quanto mais perdê-lo mais ganhá-lo.
E quanto mais ganhá-lo mais alento
trazer no que recordo e no que falo,
para que possa, em febre e em sentimento,
em mármore e em saudade, eternizá-lo.

Afonso Félix de Souza