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27/06/2010

O voo


Goza a euforia do voo do anjo perdido em ti.

Não indagues se nossas estradas, tempo e vento, desabam no abismo.

Que sabes tu do fim?

Se temes que teu mistério seja uma noite, enche-o de estrelas.

Conserva a ilusão de que teu voo te leva sempre para o mais alto.
No deslumbramento da ascensão,
se pressentires que amanhã estarás mudo,
esgota, como um pássaro, as canções que tens na garganta.
Canta!
Canta para conservar uma ilusão de festa e de vitória.
Talvez as canções adormeçam as feras que esperam devorar o pássaro.
Desde que nasceste não és mais que um voo tempo.
Rumo do céu?
Que importa a rota.

Voa e canta, enquanto resistirem as asas.

Menotti Del Picchia
(1892-1988)

25/06/2010

Desilusão



E que é amar? A estranha dor
de estilhaçar a alma em carinho...
É colher ao acaso alguma flor
para despetalá-la no caminho.
 
E que resta depois de tantos ais?

 
A saudade? Talvez...Ó alma enganada,
de ti e da flor não resta quase nada:
um punhado de pétalas na estrada,
um perfume nos dedos... - Nada mais.

 
Menotti del Picchia
(1892-1988)

06/09/2009

Noite


As casas fecham as pálpebras das janelas e dormem.
Todos os rumores são postos em surdina,
todas as luzes se apagam.
Há um grande aparato de câmara funerária
na paisagem do mundo.
Os homens ficam rígidos,
tomam a posição horizontal
e ensaiam o próprio cadáver.
Cada leito é a maquete de um túmulo.
Cada sono em ensaio de morte.
No cemitério da treva
tudo morre provisoriamente.
.........
Menotti del Picchia
São Paulo, SP, Brasil 1892 (*) - 1961 (+)