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02/02/2012

Caminhos



Caminhando e pisando o chão
à procura de folhas secas
e dos sons de seus passos.

Caminhando e olhando o céu
à procura de estrelas
e do brilho do seu olhar.

Caminhando e olhando em meu coração
à procura de uma verdade
que nem a morte pode apagar:

O amor jamais acaba.

Liz Guides - 1982


24/12/2011

Doce Natal...


Com olhos curiosos, eu acompanhava os movimentos rápidos e precisos da minha mãe, primeiro encaixando um enorme pinheiro que ela mesma tinha buscado numa chácara, numa lata forrada de papel colorido e brilhante; depois, colocando, um a um, os frágeis enfeites que eram tirados, empoeirados, de caixas de papelão: papais noéis, bolinhas coloridas, festões verdinhos, velas que seriam acesas na noite de Natal, pagodes chineses (sim, pagodes chineses, aquelas casinhas de telhados curvos, nem sei porque estavam lá). Por último, encarapitada lá no alto, uma estrela de purpurina com uma grande cauda: a Estrela de Belém. Minha mãe deixava, para mim e ao meu irmão, o prazer de ajudar a enfeitar nosso pinheiro, pedindo para termos cuidado.

Se tenho tantas lembranças dos natais, devo à minha mãe, porque era dela a iniciativa de providenciar tudo: a árvore, os enfeites, a limpeza mais minuciosa da casa, a lavagem de todas as louças mais bonitas, usadas só uma vez ao ano, os doces em compota que ficariam sobre a linda cristaleira de madeira escura e vidros bisotados (para desgosto do meu pai, louco por doces, querendo comer logo), as roupas novas,  os nossos presentes, as saídas noturnas para ver os enfeites da cidade e ouvir a banda, a "Furiosa". Aliás, quase tudo de diferente, de melhor, que acontecia casa, eram iniciativas da minha mãe, já que meu pai, casmurro, fechado, não dava importância para "essas bobagens", participava meio a contragosto... mas no final, acabava gostando, mesmo não "dando o braço a torcer". Sua contribuição era pintar a casa para o evento. Em nossa simplicidade, éramos felizes...

E, então, à noite,antes de dormir, depois de ter escovado os dentinhos e colocado o pijama, eu me ajoalhava diante de um quadro onde um anjo-da-guarda, de grandes asas e roupa esvoaçante, velava uma menininha pelos caminhos, eu rezava ao Papai do Céu pedindo que me abençoasse e à minha família, antes de dormir com uma pergunta martelando a cabeça da criança de cinco anos que eu era: será que Ele, também, tinha o trabalho de, todas as noites, pendurar estrelinhas de purpurina no céu?


Alairce (Liz Guides)

01/01/2011

Promessas para o ano novo

Nunca fiz lista de promessas para o ano novo, para mim sempre foi mais importante o natal, ano novo era só mudança de calendário e erros na hora de preencher cheques (por isso adoro cartão).  Mas, esta semana, comecei a pensar que talvez fosse a hora de mudar, de uma experiência nova, de parar e pensar no que realmente quero que mude em minha vida. Descobri que tem muitas, muitas coisas para mudar, até mais que eu imaginava. Coisas que me aborrecem, incomodam, atormentam a anos (talvez não só a mim, mas aos outros), e que continuam sempre do mesmo jeito, mudando ou não o calendário.
Então, fiz o inusitado: a minha primeira lista de promessas, mais que promessas, desejos de mudança. Estou com medo, ali tem coisas muito fáceis, como a mudança da cor do cabelo (enjoei da minha cara sempre igual), outras mais complicadas (perder peso, com essa gula toda), parar de deixar que minha autoestima seja influenciada pelo humor e amor dos outros, mas tem coisas muito, muito mais difíceis... porém necessárias, que não podem mais ser adiadas, sob o risco de a morte me pegar na esquina e tudo estar igual.
Vai doer? com certeza, e não só em mim. Mas chegou a hora de não adiar mais.

11/12/2010


A janela de meu mundo

ampliada,

paisagens que se sucediam,

profusão de cores e alegria.

Hoje, janela estreitada,

meu mundo reduzido a quase nada,

mal vejo a vida passar.
 
Liz Guides
1989
Foto: São Paulo
(Liz Guides)

18/10/2010

A falta que você me faz

"A falta que você me faz
é coisa que só eu sei,
só eu sinto,

ninguém mais pode compreender.

A falta que você me faz

é dor em minh'alma,

é sede não saciada,

é alegria perdida,

é morte não digerida,

é lágrima quente no rosto,

é frio no coração,

é noite escura e sombria,

é fumo desvanecido,

é final do caminho

e do futuro que desejei...

o avesso dos meus sonhos.

Para ninguém mais você

é o único amor,

é o abraço especial,

é o beijo sem igual

ou as carícias insubstituíveis.
A falta que você me faz
é coisa só minha, de ninguém mais!


Liz Guides - Março/1977

20/02/2010

Poema Cinzento


Eu hoje estou cinzento...


Este dia de chuva está da cor

do meu pens amento,

solidário com essa tristeza,

no coração

como profunda raiz...


Me sinto como este dia de chuva

que com s eus olhos molhados

vem me olhar...

Este dia de chuva está chorando,

no céu,

nas coisas,

no ar...


E porque choram árvores, vidraças, fio,

tudo...


Já não preciso chorar...

.

J. G. de Araújo Jorge

Fotos: Liz Guides

08/02/2010

Amar



Amar

.
Que pode uma criatura senão,

entre criaturas, amar?

amar e esquecer,

amar e malamar, amar,

desamar, amar?

Sempre, e até de olhos vidrados, amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso,

sozinho, em rotação universal, senão

rodar também, e amar?

amar o que o mar traz à praia,

o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,

é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,

o que é entrega ou adoração expectante,

e amar o inóspito, o áspero,

um vaso sem flor, um chão de ferro,

e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave

de rapina. Este o nosso destino: amor sem conta,

distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,

doação ilimitada a uma completa ingratidão,

e na concha vazia do amor a procura medrosa,

paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura

nossa

amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede

infinita.


Carlos Drummond de Andrade

Imagem: Tarde de Chuva - Liz Guides

05/02/2010

Dia de Chuva


Dia de chuva,

dia cinzento,

dia de névoa,

dia de vento...

.



Vento que venta,

chuva que chove,

névoa cinzenta

que me comove...

.

Cinza tão fria

que cobre tudo:

alma de um dia

tedioso e mudo.

.



O mar de espumas,

- prata brunida -

tal como em brumas

a minha vida.

.



O céu parece

que vem a mim,

e a chuva desce

mansa, sem fim.

.



Faz bem à alma

esta tristeza

e a doce calma

da natureza.

.



Turva aquarela

à nossa vista,

como uma tela

impressionista.

.



No chão das ruas,

pelos dois lados,

há poças nuas

de olhos pisados..

.



Dançam letreiros

bêbados, frios,

qual marinheiros

sem seus navios.

.



Frios letreiros

piscam nervosos,

quais sinaleiros

de inúteis gozos.

.

Noite de chuva,

noite de vento,

noite viúva,

- pranto e lamento.

.



Vento que venta,

chuva que chove,

névoa cinzenta

que me comove.

.



Chuva morfina

que, assim, tão calma,

tão mansa e fina

chove em minha alma.


***

J. G. de Araújo Jorge

Foto: Liz Guides

02/11/2009

Folha


[...] Tu eras também uma pequena folha

que tremia no meu peito.

O vento da vida pôs-te ali.

A princípio não te vi:

não soube que ias comigo,

até que as tuas raízes

atravessaram o meu peito,

se uniram aos fios do meu sangue,

falaram pela minha boca,

floresceram comigo.



(Pablo Neruda)
Foto: Por-do-SOl na Vista Alegre
(Liz Guides - Nov/2009)

01/11/2009

O Outro


Como decifrar pictogramas de há dez mil anos

se nem sei decifrar

minha escrita interior?


Interrogo signos dúbios

e suas variações calidoscópicas

a cada segundo de observação.


A verdade essencial

é o desconhecido que me habita

e a cada amanhecer me dá um soco.


Por ele eu também sou observado

com ironia, desprezo, incompreensão.

E assim vivemos, se ao confronto se chama viver,

unidos, impossibilitados de desligamento,

acomodados, adversos,

roídos de infernal curiosidade.

:::


Carlos Drummond de Andrade

(Corpo - Novos Poemas , 4ª edição).
Foto: Por-do-sol em Curitiba, Novembro/2009
(Liz Guides)

18/10/2009

" LÍRICA Nº 2" ( Afinal tu vieste )





"Afinal


tu vieste justificar minha presença


na vida.


E agora que te foste,


deixas, inexplicável,


minha vida, sem morte."


.
J. G. de Araújo Jorge ("ESPERA..."- 1960 )

Foto: Liz Guides

16/09/2009

Soneto 116


De almas sinceras a união sincera

Nada há que impeça: amor não é amor

Se quando encontra obstáculos se altera

Ou se vacila ao mínimo temor.

.


Amor é um marco eterno, dominante,

Que encara a tempestade com bravura;

É astro que norteia a vela errante

Cujo valor se ignora, lá na altura.

.


Amor não teme o tempo, muito embora

Seu alfanje não poupe a mocidade;

Amor não se transforma de hora em hora,

.


Antes se afirma, para a eternidade.

Se isto é falso, e que é falso alguém provou,

Eu não sou poeta, e ninguém nunca amou.

***


Shakespeare (Tradução de Bárbara Heliodora)
Foto: Foz do Iguaçu - Jan/2009 /Liz Guides)