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19/08/2010

Procura-se um amigo



Não precisa ser homem, basta ser humano, basta ter sentimentos, basta ter coração. Precisa saber falar e calar, sobretudo saber ouvir. Tem que gostar de poesia, de madrugada, de pássaro, de sol, da lua, do canto, dos ventos e das canções da brisa. Deve ter amor, um grande amor por alguém, ou então sentir falta de não ter esse amor... Deve amar o próximo e respeitar a dor que os passantes levam consigo. Deve guardar segredo sem se sacrificar.



Não é preciso que seja de primeira mão, nem é imprescindível que seja de segunda mão. Pode já ter sido enganado, pois todos os amigos são enganados. Não é preciso que seja puro, nem que seja todo impuro, mas não deve ser vulgar. Deve ter um ideal e medo de perdê-lo e, no caso de assim não ser, deve sentir o grande vácuo que isso deixa. Tem que ter ressonâncias humanas, seu principal objetivo deve ser o de amigo. Deve sentir pena das pessoa tristes e compreender o imenso vazio dos solitários. Deve gostar de crianças e lastimar as que não puderam nascer.

Procura-se um amigo para gostar dos mesmos gostos, que se comova, quando chamado de amigo. Que saiba conversar de coisas simples, de orvalhos, de grandes chuvas e das recordações de infância. Precisa-se de um amigo para não se enlouquecer, para contar o que se viu de belo e triste durante o dia, dos anseios e das realizações, dos sonhos e da realidade. Deve gostar de ruas desertas, de poças de água e de caminhos molhados, de beira de estrada, de mato depois da chuva, de se deitar no capim.




Precisa-se de um amigo que diga que vale a pena viver, não porque a vida é bela, mas porque já se tem um amigo. Precisa-se de um amigo para se parar de chorar. Para não se viver debruçado no passado em busca de memórias perdidas. Que nos bata nos ombros sorrindo ou chorando, mas que nos chame de amigo, para ter-se a consciência de que ainda se vive.

Vinicius de Moraes

05/07/2010

O mais-que-perfeito

Ah quem me dera ir-me

Contigo agora

Para um horizonte firme

(comum,embora...)

Ah,quem me dera ir-me!



Ah,quem me dera amar-te

Sem mais ciúmes

De alguém em algum lugar

Que não presumes...

Ah,quem me dera amar-te!



Ah,quem me dera ver-te

Sempre a meu lado

Sem precisar dizer-te

Jamais: cuidado...

Ah,quem me dera ver-te!


Ah,quem me dera ver-te

Como um lugar

Plantado num chão verde

Para eu morar-te

Morar -te até morrer-te...
***
Vinicius de Moraes

10/06/2010

Soneto de Separação


"Soneto de Separação"



De repente do riso fez-se o pranto

Silencioso e branco como a bruma

E das bocas unidas fez-se a espuma

E das mãos espalmadas fez-se o espanto

De repente da calma fez-se o vento

Que dos olhos desfez a última chama

E da paixão fez-se o pressentimento

E do momento imóvel fez-se o drama

De repente não mais que de repente

Fez-se de triste o que se fez amante

E de sozinho o que se fez contente

Fez-se do amigo próximo, distante

Fez-se da vida uma aventura errante

De repente, não mais que de repente.
*
Vinicius de Moraes

10/05/2010

Feijoada à Minha Moda



Amiga Helena Sangirardi


Conforme um dia prometi

Onde, confesso que esqueci

E embora — perdoe — tão tarde
(Melhor do que nunca!) este poeta

Segundo manda a boa ética

Envia-lhe a receita (poética)

De sua feijoada completa.

Em atenção ao adiantado

Da hora em que abrimos o olho

O feijão deve, já catado

Nos esperar, feliz, de molho

E a cozinheira, por respeito

À nossa mestria na arte

Já deve ter tacado peito

E preparado e posto à parte

Os elementos componentes

De um saboroso refogado

Tais: cebolas, tomates, dentes

De alho — e o que mais for azado
Tudo picado desde cedo

De feição a sempre evitar

Qualquer contato mais... vulgar

Às nossas nobres mãos de aedo.
Enquanto nós, a dar uns toques

No que não nos seja a contento

Vigiaremos o cozimento

Tomando o nosso uísque on the rocks
Uma vez cozido o feijão

(Umas quatro horas, fogo médio)

Nós, bocejando o nosso tédio

Nos chegaremos ao fogão
E em elegante curvatura:

m pé adiante e o braço às costas

Provaremos a rica negrura

Por onde devem boiar postas

De carne-seca suculenta

Gordos paios, nédio toucinho

(Nunca orelhas de bacorinho

Que a tornam em excesso opulenta!)

E — atenção! — segredo modesto

Mas meu, no tocante à feijoada:

Uma língua fresca pelada

Posta a cozer com todo o resto.

Feito o quê, retire-se o caroço

Bastante, que bem amassado

ta-se ao belo refogado

De modo a ter-se um molho grosso

Que vai de volta ao caldeirão

No qual o poeta, em bom agouro

Deve esparzir folhas de louro

Com um gesto clássico e pagão.

Inútil dizer que, entrementes

Em chama à parte desta liça

Devem fritar, todas contentes

Lindas rodelas de lingüiça
Enquanto ao lado, em fogo brando

Dismilingüindo-se de gozo

Deve também se estar fritando

O torresminho delicioso

Em cuja gordura, de resto

(Melhor gordura nunca houve!)

Deve depois frigir a couve

Picada, em fogo alegre e presto.

Uma farofa? — tem seus dias...

Porém que seja na manteiga!

A laranja gelada, em fatias

(Seleta ou da Bahia) — e chega

Só na última cozedura

Para levar à mesa, deixa-se

Cair um pouco da gordura

Da lingüiça na iguaria — e mexa-se.

Que prazer mais um corpo pede

Após comido um tal feijão?

— Evidentemente uma rede

E um gato para passar a mão...

Dever cumprido. Nunca é vã

A palavra de um poeta...— jamais!

Abraça-a, em Brillat-Savarin

 seu Vinicius de Moraes




Do livro "Para viver um grande amor",
Livraria José Olympio Editora -
Rio de Janeiro, 1984, pág. 97.

01/05/2010

A maior solidão


"... a maior solidão é a do ser que não ama. A maior solidão é a do ser que se ausenta, que se defende, que se fecha, que se recusa a participar da vida humana. A maior solidão é a do homem encerrado em si mesmo, no absoluto de si mesmo, e que não dá a quem pede o que ele pode dar de amor, de amizade, de socorro. O mais solitário é o que tem medo de amor, o que tem medo de ferir e de ferir-se..."

Vinicius de Moraes
in: "Para viver um grande amor"  

04/04/2010

As mulheres ocas

As mulheres ocas



Nós somos a inorgânicas

Frias estátuas de talco

Com hálito de champagne

E pernas de salto alto

Nossa pele fluorescente

É doce e refrigerada

E em nossa conversa ausente

Tudo não quer dizer nada.



Nós somos as longilíneas

Lentas madonas de boate

Iluminamos as pistas

Com nossos rostos de opala.

Vamos em câmara lenta

Sem sorrir demasiado

E olhamos como sem ver

Com nossos olhos cromados.



Nós somos as sonolentas

Monjas do tédio inconsútil

Em nosso escuro convento

A ordem manda ser fútil

Fomos alunas bilíngües

de "Sacre-Coeur" e "Sion"

Mas adorar, só adoramos

A imagem do deus Mamon.



Nós somos as grâ-funestas

Filhas do Ouro com a Miséria

O gênio nos enfastia

E a estupidez nos diverte.

Amamos a vida fria

E tudo o que nos espelha

Na asséptica companhia

Dos nossos machos-de-abelha.



Nós somos as bailarinas

Pressagas do cataclismo

Dançando a dança da moda

Na corda bamba do abismo.

Mas nada nos incomoda

De vez que há sempre quem paga

O luxo de entrar na roda

Em Arpels ou Balenciaga.



Nós somos as grâ-funestas

As onézimas letais*

Dormimos a nossa sesta

Em ataúdes de cristal

E só tiramos do rosto

Nossa máscara de cal

Para o drinque do sol posto

Com o cronista social.
*****************

Vinicius de Moraes

Poesia completa e prosa

Organização: Alexei Bueno

Rio de Janeiro, Editora Nova Aguilar S.A
1998

18/02/2010

Soneto do amor total

Amo-te tanto meu amor... não cante
O humano coração com mais verdade...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade.
Amo-te afim, de um calmo amor prestante
E te amo além, presente na saudade.
Amo-te, enfim, com grande liberdade
dentro da eternidade e a cada instante.
Amo-te como um bicho, simplesmente,
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.
E de te amar assim, muito e amiúde
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude.
***
Vinicius de Moraes

24/10/2009

Eu sei que vou te amar

Eu Sei Que Vou te Amar

Composição: Tom Jobim / Vinícius de Moraes

Eu sei que vou te amar
Por toda a minha vida eu vou te amar
Em cada despedida eu vou te amar
Desesperadamente, eu sei que vou te amar
E cada verso meu será
Prá te dizer que eu sei que vou te amar
Por toda minha vida
Eu sei que vou chorar
A cada ausência tua eu vou chorar
Mas cada volta tua há de apagar
O que esta ausência tua me causou
Eu sei que vou sofrer
a eterna desventura de viver
A espera de viver ao lado teu
Por toda a minha vida...

23/10/2009

Eu não existo sem você


Eu não existo sem você

***
Eu sei e você sabe, já que a vida quis assim,

Que nada nesse mundo levará você de mim.

Eu sei e você sabe que a distância não existe

Que todo grande amor

Só é bem grande se for triste.

Por isso, meu amor

Não tenha medo de sofrer

Que todos os caminhos

Me encaminham pra você.

Assim como o oceano

Só é belo com luar

Assim como a canção

Só tem razão se se cantar

Assim como uma nuvem

Só acontece se chover

Assim como o poeta

Só é grande se sofrer

Assim como viver

Sem ter amor não é viver

Não há você sem mim

Eu não existo sem você.


(Tom Jobim e Vinícius de Moraes)

26/09/2009


A morte vem de longe

Do fundo dos céus

Vem para os meus olhos,

Virá para os teus.

Desce das estrelas

Das brancas estrelas

As loucas estrelas

Trânsfugas de Deus

Chega impressentida

Nunca inesperada

Ela que é na vida

A grande esperada!

A desesperada

Do amor fratricida

Dos homens, ai! dos homens

Que matam a morte

Por medo da vida.

****************

Vinicius de Moraes