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24/12/2014

Canteiros

CANTEIROS






CANTEIROS




"Quando penso em você fecho os olhos de saudade
Tenho tido muita coisa, menos a felicidade
Correm os meus dedos longos em versos tristes que invento
Nem aquilo a que me entrego já me traz contentamento
Pode ser até amanhã, cedo claro feito dia
mas nada do que me dizem me faz sentir alegria
Eu só queria ter no mato um gosto de framboesa
Para correr entre os canteiros e esconder minha tristeza
Que eu ainda sou bem moço para tanta tristeza
E deixemos de coisa, cuidemos da vida,
Pois se não chega a morte ou coisa parecida
E nos arrasta moço, sem ter visto a vida."

Cecília Meireles


Música: Fagner sobre os versos de Cecília Meireles 

https://www.youtube.com/watch?v=yxWbSk7yGO0

19/07/2014

Improviso do Amor-Perfeito

Naquela nuvem, naquela,
mando-te meu pensamento:
que Deus se ocupe do vento.

Os sonhos foram sonhados,
e o padecimento aceito,
E onde estás, Amor- Perfeito?

Imensos jardins da insônia,
de um olhar de despedida
deram flor por toda  a vida.

Ai de mim que sobrevivo
sem o coração no peito
E onde estás, Amor- Perfeito?

Longe, longe, atrás do oceano
que nos meus olhos se aleita,
entre pálpebras de areia.

Longe, longe...Deus te guarde
sobre o seu lado direito,
como eu te guardava do outro,
noite e dia, Amor- Perfeito.

Cecília Meireles

05/09/2013

Primavera (Cecília Meireles)


A primavera chegará, mesmo que ninguém mais saiba seu nome, nem acredite no calendário, nem possua jardim para recebê-la. A inclinação do sol vai marcando outras sombras; e os habitantes da mata, essas criaturas naturais que ainda circulam pelo ar e pelo chão, começam a preparar sua vida para a primavera que chega.

Finos clarins que não ouvimos devem soar por dentro da terra, nesse mundo confidencial das raízes, — e arautos sutis acordarão as cores e os perfumes e a alegria de nascer, no espírito das flores.

Há bosques de rododendros que eram verdes e já estão todos cor-de-rosa, como os palácios de Jeipur. Vozes novas de passarinhos começam a ensaiar as árias tradicionais de sua nação. Pequenas borboletas brancas e amarelas apressam-se pelos ares, — e certamente conversam: mas tão baixinho que não se entende.

Oh! Primaveras distantes, depois do branco e deserto inverno, quando as amendoeiras inauguram suas flores, alegremente, e todos os olhos procuram pelo céu o primeiro raio de sol.

Esta é uma primavera diferente, com as matas intactas, as árvores cobertas de folhas, — e só os poetas, entre os humanos, sabem que uma Deusa chega, coroada de flores, com vestidos bordados de flores, com os braços carregados de flores, e vem dançar neste mundo cálido, de incessante luz.

Mas é certo que a primavera chega. É certo que a vida não se esquece, e a terra maternalmente se enfeita para as festas da sua perpetuação.

Algum dia, talvez, nada mais vai ser assim. Algum dia, talvez, os homens terão a primavera que desejarem, no momento que quiserem, independentes deste ritmo, desta ordem, deste movimento do céu. E os pássaros serão outros, com outros cantos e outros hábitos, — e os ouvidos que por acaso os ouvirem não terão nada mais com tudo aquilo que, outrora se entendeu e amou.

Enquanto há primavera, esta primavera natural, prestemos atenção ao sussurro dos passarinhos novos, que dão beijinhos para o ar azul. Escutemos estas vozes que andam nas árvores, caminhemos por estas estradas que ainda conservam seus sentimentos antigos: lentamente estão sendo tecidos os manacás roxos e brancos; e a eufórbia se vai tornando pulquérrima, em cada coroa vermelha que desdobra. Os casulos brancos das gardênias ainda estão sendo enrolados em redor do perfume. E flores agrestes acordam com suas roupas de chita multicor.

Tudo isto para brilhar um instante, apenas, para ser lançado ao vento, — por fidelidade à obscura semente, ao que vem, na rotação da eternidade. Saudemos a primavera, dona da vida — e efêmera.

Texto extraído do livro "Cecília Meireles - Obra em Prosa - Volume 1", Editora Nova Fronteira - Rio de Janeiro, 1998, pág. 366.


25/11/2010

MORRO DO QUE HÁ NO MUNDO





Morro do que há no mundo:
do que vi, do que ouvi.
Morro do que vivi.
Morro comigo, apenas:
com lembranças amadas,
porém desesperadas.
Morro cheia de assombro
por não sentir em mim
nem princípio nem fim.
Morro: e a circunferência
fica, em redor, fechada.
Dentro sou tudo e nada.

(Poesias completas de Cecília Meireles)




16/11/2010

Mar em redor

Meus ouvidos estão como as conchas sonoras:

música perdida no meu pensamento,

na espuma da vida, na areia das horas...

Esqueceste a sombra no vento.

Por isso, ficaste e partiste,

e há finos deltas de felicidade

abrindo os braços num oceano triste.

Soltei meus anéis nos aléns da saudade.

Entre algas e peixes vou flutuando a noite inteira.

Almas de todos os afogados

chamam para diversos lados

esta singular companheira.



Cecília Meireles

10/11/2010

Destino

Destino

Pastora de nuvens, fui posta a serviço
por uma campina desamparada
que não principia nem também termina,
e onde nunca é noite e nunca madrugada.
(Pastores da terra, vós tendes sossego,
que olhais para o sol e encontrais direção.
Sabeis quando é tarde, sabeis quando é cedo.
Eu, não.)
Pastora de nuvens, por muito que espere,
não há quem me explique meu vário rebanho.
Perdida atrás dele na planície aérea,
não sei se o conduzo, não sei se o acompanho.
(Pastores da terra, que saltais abismos,
nunca entendereis a minha condição.
Pensais que há firmezas, pensais que há limites.
Eu, não.)
Pastora de nuvens, cada luz colore
meu canto e meu gado de tintas diversas.
Por todos os lados o vento revolve
os velos instáveis das reses dispersas.
(Pastores da terra, de certeiros olhos,
como é tão serena a vossa ocupação!
Tendes sempre o início da sombra que foge...
Eu, não.)
Pastora de nuvens, não paro nem durmo
neste móvel prado, sem noite e sem dia.
Estrelas e luas que jorram, deslumbram
o gado inconstante que se me extravia.
(Pastores da terra, debaixo de folhas
que entornam frescura num plácido chão,
Sabeis onde pousam ternuras e sonos.
Eu, não.)
Pastora de nuvens, esqueceu-me o rosto
do dono das reses, do dono do prado.
E às vezes parece que dizem meu nome,
que me andam seguindo, não sei por que lado.
(Pastores da terra, que vedes pessoas
sem serem apenas de imaginação,
podeis encontrar-vos, falar tanta coisa!
Eu, não.)
Pastora de nuvens, com a face deserta,
sigo atrás de formas com feitios falsos,
queimando vigílias na planície eterna
que gira debaixo dos meus pés descalços.
(Pastores da terra, tereis um salário,
e andará por bailes vosso coração.
Dormireis um dia como pedras suaves.
Eu, não.)
 
Cecília Meireles

06/11/2010

Canção I




Nunca eu tivera querido
dizer palavra tão louca:
bateu-me o vento na boca,
e depois no teu ouvido.
Levou somente a palavra
deixou ficar o sentido.
O sentido está guardado
no rosto com que te miro,
neste perdido suspiro
que te segue alucinado,
no meu sorriso suspenso
como um beijo malogrado.
Nunca ninguém viu ninguém
que o amor pusesse tão triste.
Essa tristeza não viste,
e eu sei que ela se vê bem...
Só que aquele mesmo vento
fechou teus olhos, também...

Cecília Meireles

14/10/2010

Acontecimento


"Acontecimento"


Aqui estou, junto à tempestade,

chorando como uma criança

que viu que não eram verdade

o seu sonho e a sua esperança.


A chuva bate-me no rosto

e em meus cabelos sopra o vento.

Vão-se desfazendo em desgosto

as formas do meu pensamento.


Chorarei toda a noite, enquanto

perpassa o tumulto nos ares,

para não me veres em pranto,

nem saberes, nem perguntares:


"Que foi feito do teu sorriso,

que era tão claro e tão perfeito?"

E o meu pobre olhar indeciso

não se repetir: "Que foi feito...?"




Cecília Meireles

(1901-1964)

17/09/2010

Fio

NO FIO da respiração,
rola a minha vida monótona,

rola o peso do meu coração.

Tu não vês o jogo perdendo-se

como as palavras de uma canção.

Passas longe, entre nuvens rápidas,

com tantas estrelas na mão...

-- para que serve o fio trêmulo

em que rola o meu coração?

Cecília Meireles

08/09/2010

Motivo

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.
Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.
Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.
Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.
Cecília Meireles

http://www.youtube.com/watch?v=yJqrQk9Ol48&feature=related

07/09/2010

Canteiros

CANTEIROS



"Quando penso em você fecho os olhos de saudade
Tenho tido muita coisa, menos a felicidade
Correm os meus dedos longos em versos tristes que invento
Nem aquilo a que me entrego já me traz contentamento
Pode ser até amanhã, cedo claro feito dia
mas nada do que me dizem me faz sentir alegria
Eu só queria ter no mato um gosto de framboesa
Para correr entre os canteiros e esconder minha tristeza
Que eu ainda sou bem moço para tanta tristeza
E deixemos de coisa, cuidemos da vida,
Pois se não chega a morte ou coisa parecida
E nos arrasta moço, sem ter visto a vida."

Cecília Meireles


Música: Fagner sobre os versos de Cecília Meireles
http://www.youtube.com/watch?v=yxWbSk7yGO0&feature=related

12/07/2010

Poema da grande alegria



"Poema da grande alegria"


Olhavas-me tanto

E estavas tão perto de mim

Que, no meu êxtase,

Nem sabia qual fosse

Cada um de nós...

Era num lugar tão longe

Que nem parecia neste mundo...

Num lugar sem horizontes,

Onde, sobre águas imóveis,

Havia lótus encantados...

Vinham de mais longe...

De ainda mais longe,

Músicas sereníssimas,

Imateriais como silêncios...

Músicas para se ouvirem com a alma, apenas...

E tudo, em torno,

Eram purificações...

Não sei para onde me levavas:

Mas aqueles caminhos pareciam

Os caminhos eternos

Que vão até o último sol...

E eu me sentia tão leve

Como o pensamento de quem dorme...

Eu me sentia com aquela outra Vida

Que vem depois da vida...

Eleito, ó Eleito,

Eu queria ficar sonhando

Para sempre,

Tão perto de Ti

Que, no meu êxtase,

Nem se pudesse saber

Qual fosse cada um de nós...


Cecília Meireles

03/07/2010

Fio


No fio da respiração,

rola a minha vida monótona,

rola o peso do meu coração. 
Tu não vês o jogo perdendo-se

como as palavras de uma canção. 
Passas longe, entre nuvens rápidas,

com tantas estrelas na mão...

— Para que serve o fio trêmulo

em que rola o meu coração?
*
Cecília Meireles

13/06/2010

Improviso do Amor-Perfeito

Improviso do Amor-Perfeito



Naquela nuvem, naquela,

mando-te o meu pensamento:

que Deus se ocupe do vento.



Os sonhos foram sonhados,

e o padecimento aceito.

E onde estás, Amor-Perfeito?



Imensos jardins da insônia,

de um olhar de despedida,

deram flor por toda a vida.



Ai de mim, que sobrevivo

sem o coração no peito.

E onde estás, Amor-Perfeito?
*

Cecília Meireles

(1901-1964)

12/06/2010

Houve um poema


 

Houve um poema,

entre a alma e o universo.

Não há mais.

Bebeu-o a noite, com seus lábios silenciosos.

Com seus olhos estrelados de muitos sonhos.


Houve um poema:

Parecia perfeito.

Cada palavra em seu lugar,

como as pétalas nas flores

e as tintas no arco-íris.

No centro, mensagem doce

E intransmitida jamais.


Houve um poema:

e era em mim que surgia, vagaroso.

Já não me lembro, e ainda me lembro.

As névoas da madrugada envolvem sua memória.

É uma tênue cinza.

O coral do horizonte é um rastro de sua cor.

Derradeiro passo.


Houve um poema.

Há esta saudade.

Esta lágrima e este orvalho - simultâneos -

que caem dos olhos e do céu.


Cecília Meireles

11/06/2010

Viagem

Viagem


No perfume dos meus dedos,

há um gosto de sofrimento,

como o sangue dos segredos

no gume do pensamento.

Por onde é que vou?
 


Fechei as portas sozinha.

Custaram tanto a rodar!

Se chamasse, ninguém vinha.

Para que se há de chamar?

Que caminho estranho!
Eras coisa tão sem forma,




tão sem tempo, tão sem nada...

- arco-íris do meu dilúvio! -

que nem podias ser vista

nem quase mesmo pensada.

Ninguém mais caminha?

A noite bebeu-te as cores

para pintar as estrelas.

Desde então, que é dos meus olhos?

Voaram de mim para as nuvens,
com redes para prendê-las.

Quem te alcançará?

Dentro da noite mais densa,

navegarei sem rumores,

seguindo por onde fores

como um sonho que se pensa.

Para onde é que vou?

Cecília Meireles(1901-1964)

30/05/2010

Para pensar em ti


Para pensar em ti todas as horas fogem:
o tempo humano expira em lágrima e cegueira.
Tudo são praias onde o mar afoga o amor.
Quero a insônia, a vigília, uma clarividência
desse instante que habito - ai, meu domínio triste!,
ilha onde eu mesma nada sei fazer por mim.

Vejo a flor, vejo no ar a mensagem das nuvens
- e na minha memória és imortalidade -
vejo as datas, escuto o próprio coração.
E depois o silêncio. E teus olhos abertos
nos meus fechados. E esta ausência em minha boca:
pois bem sei que falar é o mesmo que morrer.

Da vida à Vida, suspensas fugas.

Cecília Meireles
(1901-1964)
 

06/04/2010

Reinvenção

Reinvenção







A vida só é possível



reinventada.







Anda o sol pelas campinas



e passeia a mão dourada



pelas águas, pelas folhas...



Ah! tudo bolhas



que vem de fundas piscinas



de ilusionismo... — mais nada.







Mas a vida, a vida, a vida,



a vida só é possível



reinventada.







Vem a lua, vem, retira



as algemas dos meus braços.



Projeto-me por espaços



cheios da tua Figura.



Tudo mentira! Mentira



da lua, na noite escura.







Não te encontro, não te alcanço...



Só — no tempo equilibrada,



desprendo-me do balanço



que além do tempo me leva.



Só — na treva,



fico: recebida e dada.







Porque a vida, a vida, a vida,



a vida só é possível



reinventada.







Cecília Meireles

11/02/2010

A Inominável

A Inominável
***
Leve... - Pluma... Surdina... Aroma... Graça...
Qualquer coisa infinita... Amor... Pureza...
Cabelo em sombra, olhar ausente, passa
como a bruma que vai na aragem presa...
.
Silenciosa, imprecisa, etérea taça
em que adormece o luar... Delicadeza...
Não se diz... Não se exprime... Não se traça...
Fuído... Poesia... Névoa... Flor... Beleza...
.
Passa... - É um morrer de lírios... Olhos quase
fechados... Noite... Sono... O gesto é gaze
a estender-se, a alegrar-se... E enquanto vão
.
fugindo os passos teus, visão perdida,
chovem rosas e estrelas pela vida...
Silêncio! Divindade! Iniciação!
***
Cecília Meireles

26/01/2010

É preciso


É preciso não esquecer nada:

nem a torneira aberta nem o fogo aceso,

nem o sorriso para os infelizes

nem a oração de cada instante.

É preciso não esquecer de ver a nova borboleta

nem o céu de sempre.

O que é preciso é esquecer o nosso rosto,

o nosso nome, o som da nossa voz, o ritmo do nosso pulso.

O que é preciso esquecer é o dia carregado de atos,

a ideia de recompensa e de glória.

O que é preciso é ser como se já não fôssemos,

vigiados pelos próprios olhos

severos conosco, pois o resto não nos pertence.


Cecília Meireles