Tenho medo das águas do destino
a invadirem o que penso e faço,
numa linha de infinda
contradição.
Eu sou assim:
quero fugir mas chamo,
quero ficar mas me assusta
não ter em mim nada seguro
e certo.
Nunca receio a alegria,
para a qual todos os milagres
são normais.
Mas quando tarda quem amo,
meu coração fica exposto
e aberto.
E mesmo assim eu persisto,
e ainda assim espero
ainda, como criança sozinha
atrás do muro.
Lya Luft
31/05/2011
30/05/2011
24. Receita de Casa
Uma casa deve ter varandas
para sonhar, cantos para chorar,
quartos para os segredos
e a ambivalência.
Um amor precisa espaço de voar,
liberdade para querer ficar,
alegria, e algum desassossego
contra o tédio.
Não se esqueçam os danos a cobrir,
o medo de partir, e o dom de surpreender
- que é a sua essência.
Lya Luft
29/05/2011
23. Miragem
Eu no espelho: atentas, nós duas
nos observamos para além da imagem.
Estendemos a mão, tocamos esse pó de gelo,
sabendo:
se eu mergulhar daqui, e do seu lado, ela,
vão se fundir num sopro nossos rostos,
todos os meus sonhos e os anseios dela.
Mas nenhuma se atreve. Continuamos
sozinhas nesse mundo de reflexos,
eu e ela incompletas, nuas
e sós.
Lya Luft
28/05/2011
22. Óculos
As lentes que me deram ao nescer
são lúcidas como chuva
que tornasse tudo áspero
- não doce.
Engano pensar que a arte afaga:
ela me puxa pelos cabelos,
me lança no olho
da ventania.
Não durmo, não divago, não
tenho complacência:
cada palavra pesada,
cada entrelinha apurada
para que não escape
nada do que vejo
e sonho. Tudo muito grave,
tudo urgente.
(Mas sempre espero aquele beijo,
sempre espero aquele beijo.)
Lya Luft
são lúcidas como chuva
que tornasse tudo áspero
- não doce.
Engano pensar que a arte afaga:
ela me puxa pelos cabelos,
me lança no olho
da ventania.
Não durmo, não divago, não
tenho complacência:
cada palavra pesada,
cada entrelinha apurada
para que não escape
nada do que vejo
e sonho. Tudo muito grave,
tudo urgente.
(Mas sempre espero aquele beijo,
sempre espero aquele beijo.)
Lya Luft
27/05/2011
21. Reverberação
O destino trama os dias
e desfaz o sonho: demarca
meus contornos, partes
disso que sou e serei.
Quem sabe desejei demais:
milagres não me bastaram,
mas quando eu quis ser rainha
fui simplesmente humana.
A voz da vida insiste,
chama para o que salva
ou desatina:
nem sempre a entendi.
Palavras buscam sentido
para o que fiz, falhei,
conquistei e perdi
- ou que me abandonou
nalguma esquina.
(Talvez eu precisasse é dos silêncios.)
Lya Luft
26/05/2011
20, Auto-retrato
Alguém diz que sou bondosa:
está tão enganado que dá pena.
Alguém diz que sou severa,
Alguém diz que sou severa,
e acho graça.
Não sou áspera nem amena:
estou na vida como o jardineiro
se entrega em cada rosa:
corte, sangue, dor e aroma
para que a beleza fique na memória
quando a flor passa.
(Amar é lidar com os espinhos
de quem ama por inteiro:
com força, não com fraqueza.)
Lya Luft
25/05/2011
19. Legado
Foi meu pai quem plantou esse álamo
no meu jardim. Podou seus ramos,
e desde então seus dedos se multiplicaram,
sua voz se perpetuou em folhas
depois de cada inverno.
E quando o vento perpassa
os altos ramos do álamo generoso,
o tempo se dá por vencido,
a dor recolhe suas asas:
meu pai conversa comigo,
andando pela calçada
entre o meu coração e a sua morte.
Lya Luft
24/05/2011
18. Primeiro poema da cega
Sentaram-me sobre o mar neste rochedo inerte,
e ficarei aqui até que alguém me leve
(sempre para uma outra escuridão).
Respiro, escuto, sinto o mar, mas nunca
verei o embalo dessas ondas
nem a dança dos peixes e afogados.
Se não me buscam, certo que aqui durmo
respngada de espumas, golpeada de vento,
presa a este lugar impreciso e sem rosto,
sem nada perceber mais que o grito do mar
e meu próprio lamento.
Lya Luft
e ficarei aqui até que alguém me leve
(sempre para uma outra escuridão).
Respiro, escuto, sinto o mar, mas nunca
verei o embalo dessas ondas
nem a dança dos peixes e afogados.
Se não me buscam, certo que aqui durmo
respngada de espumas, golpeada de vento,
presa a este lugar impreciso e sem rosto,
sem nada perceber mais que o grito do mar
e meu próprio lamento.
Lya Luft
23/05/2011
17. Revelação
Quando chegaste,
redescobri em mim inocência e alegria.
Removi a máscara que sobrava:
nada havia a esconder de ti,
nem medo - a não ser partires.
Supérfluas as palavras,
dispensada a aparência, fiquei eu,
sem prumo,
como antes da primeira dúvida
e do último desencanto.
Quando chegaste,
escutei meu nome como num outro tempo.
O meu lado da sombra entregou
o que ninguém via:
as feridas sem cura e a esperança sem rumo.
Começa a crer, por mim, que o amor é possível,
e que a vida vale a pena e o pranto
de cada dia.
Lya Luft
redescobri em mim inocência e alegria.
Removi a máscara que sobrava:
nada havia a esconder de ti,
nem medo - a não ser partires.
Supérfluas as palavras,
dispensada a aparência, fiquei eu,
sem prumo,
como antes da primeira dúvida
e do último desencanto.
Quando chegaste,
escutei meu nome como num outro tempo.
O meu lado da sombra entregou
o que ninguém via:
as feridas sem cura e a esperança sem rumo.
Começa a crer, por mim, que o amor é possível,
e que a vida vale a pena e o pranto
de cada dia.
Lya Luft
22/05/2011
16. Viagem
Não é preciso morar na esquina
nem ser jovem ou belo:
o amor melhor é sempre dentro
e perto.
Chega inesperado,
vem forte vem doce, acalma
e desatina.
Se está na minha rua ou vem de fora,
ele ignora o tempo e a idade:
o amor é sempre
agora.
É vento sutil e mar sem beira:
o amor é destino de quem está aberto,
e dói sem remissão quando negado.
O melhor amor sacia a fome inteira:
mas tem que ser aceito,
tem de ser ousado, tem de ser
navegado.
Lya Luft
nem ser jovem ou belo:
o amor melhor é sempre dentro
e perto.
Chega inesperado,
vem forte vem doce, acalma
e desatina.
Se está na minha rua ou vem de fora,
ele ignora o tempo e a idade:
o amor é sempre
agora.
É vento sutil e mar sem beira:
o amor é destino de quem está aberto,
e dói sem remissão quando negado.
O melhor amor sacia a fome inteira:
mas tem que ser aceito,
tem de ser ousado, tem de ser
navegado.
Lya Luft
21/05/2011
15. Trapezista
A vida chega em silêncio:
desenovela reflexos,
interroga a esfinge
que responde ou nega
num espelho baço.
(A resposta nunca é clara
nem é pequena.)
Não é a mim que vejo:
é ao outro, num misto de incerteza
e esperança de que não seja
mais um rosto virado,
uma boca cerrada
- mais um desgosto
a cada passo.
Desejo, sonho e medo,
o amor é salto sem rede
entre a razão e a magia.
(E só assim vale a pena.)
Lya Luft
desenovela reflexos,
interroga a esfinge
que responde ou nega
num espelho baço.
(A resposta nunca é clara
nem é pequena.)
Não é a mim que vejo:
é ao outro, num misto de incerteza
e esperança de que não seja
mais um rosto virado,
uma boca cerrada
- mais um desgosto
a cada passo.
Desejo, sonho e medo,
o amor é salto sem rede
entre a razão e a magia.
(E só assim vale a pena.)
Lya Luft
20/05/2011
14. Quem sou
Do pai, a retidão e certa melancolia:
o olhar sobre o que vem atrás
do espelho. Da mãe,
a alegria. Da remota linhagem,
o novelo de fios que tramam
alma e imagem,
ninguém sabe quando e onde.
Mais os trabalhos e a dor, a fantasia,
a obstinada procura, alguma sorte,
muita esperança na bagagem.
(Dissabores fazem parte: maior
foi a celebração da vida.)
Entre o começo e a morte,
mar e miragem:
não há muito de mim
na personagem que contemplas.
(Há que buscar o que ela esconde.)
Lya Luft
o olhar sobre o que vem atrás
do espelho. Da mãe,
a alegria. Da remota linhagem,
o novelo de fios que tramam
alma e imagem,
ninguém sabe quando e onde.
Mais os trabalhos e a dor, a fantasia,
a obstinada procura, alguma sorte,
muita esperança na bagagem.
(Dissabores fazem parte: maior
foi a celebração da vida.)
Entre o começo e a morte,
mar e miragem:
não há muito de mim
na personagem que contemplas.
(Há que buscar o que ela esconde.)
Lya Luft
19/05/2011
13. Aviso
Se quiseres me amar,
terá que ser agora: depois
estarei cansada.
Minha vida foi feita de parceria com a morte:
pertenço um pouco a cada uma,
pra mim sobrou quase nada.
Ponho a máscara do dia, um rosto cômodo e simples,
e assim garanto a minha sobrevida.
Se me quiseres amar,
terá que ser hoje:
amanhã estarei mudada.
Lya Luft
terá que ser agora: depois
estarei cansada.
Minha vida foi feita de parceria com a morte:
pertenço um pouco a cada uma,
pra mim sobrou quase nada.
Ponho a máscara do dia, um rosto cômodo e simples,
e assim garanto a minha sobrevida.
Se me quiseres amar,
terá que ser hoje:
amanhã estarei mudada.
Lya Luft
18/05/2011
12. Rosto com dois perfis
Renuncio às palavras
e às explicações.
Ando pelos contornos,
onde todos os significados
são sutis, são mortais.
Não quero perder o momento
belo. Quero vivê-lo mais,
com a intensidade que exige a vida:
desgarramento e fulguração.
Então me corto ao meio e me solto
de mim:
a que se prende e a que voa,
a que vive e a que se inventa.
Duplo coração:
a que se contempla e a que nunca
se entende,
a que viaja sem saber se chega
- mas não desiste jamais.
Lya Luft
17/05/2011
11. Sobrevida
Quando foi bom o amor,
os mortos pedem
memórias doces
que não os pertubem,
e que a gente viva
sem muito desgosto:
mais nada.
Pedem silêncio
e que os deixemos
em paz.
Os mortos
precisam de mais espaço
do que em vida:
nesse seu novo posto
não devem olhar
para trás.
(Os mortos querem licença
para morrer mais.)
Lya Luft
16/05/2011
10. Ônus
A esperança me chama,
e eu salto a bordo
como se fosse a primeira viagem.
Se não conheço os mapas,
escolho o imprevisto:
qualquer sinal é um bom presságio.
Seja como for, eu vou,
pois quase sempre acredito:
ando de olhos fechados
feito criança brincando de cega.
Mais de uma vez saio ferida
ou quase afogada,
mas não desisto.
A dor eventual é o preço da vida:
passagem, seguro e pedágio.
Lya Luft
15/05/2011
9. Dança Lenta
Não somos nem bons nem maus:
somos tristes. Plantados entre chão
e estrelas, lutamos com sangue,
pedras e paus, sonho
e arte.
Nem vida nem morte:
somos lúcida vertigem,
glória e danação. Somos gente:
dura tarefa.
Com sorte, aqui e ali a ternura
faz parte.
Lya Luft
14/05/2011
8. O rio do tempo
O tempo não existe
nem dentro nem fora..
Esses peixes de opala
são nomes que nadam na memória:
são rostos, são risos, são prantos,
são as horas felizes.
O tempo não existe,
pois tudo continua aqui, e cresce
como se arredonda uma árvore
pesada de frutos que são peixes,
que são nomes de nomes, são rostos
com máscaras.
O tempo não existe. Sou apenas
o aqui e o presente, e o atrás disso,
como um rio que corre mas não passa
- pois ele é sempre, em mim, agora.
Lya Luft
nem dentro nem fora..
Esses peixes de opala
são nomes que nadam na memória:
são rostos, são risos, são prantos,
são as horas felizes.
O tempo não existe,
pois tudo continua aqui, e cresce
como se arredonda uma árvore
pesada de frutos que são peixes,
que são nomes de nomes, são rostos
com máscaras.
O tempo não existe. Sou apenas
o aqui e o presente, e o atrás disso,
como um rio que corre mas não passa
- pois ele é sempre, em mim, agora.
Lya Luft
13/05/2011
7. Infância
Névoa encostada na janela,
qualquer coisa roçando o telhado:
o medo me contornava
- talvez simplesmente o vento.
A escada de sombra, a aventura
dos degruas, na curva de madeira
os passo de quem não vinha
- ou de um coração atento.
Longas rosas de longa paciência,
os silêncios e os prantos:
alguém arranhando a parede
- ou eram apenas lembranças?
Algo sempre em moveimento:
a vida arrastando as pantufas
nos corredores do tempo
- fiquei esquecida num canto?
Lya Luft
qualquer coisa roçando o telhado:
o medo me contornava
- talvez simplesmente o vento.
A escada de sombra, a aventura
dos degruas, na curva de madeira
os passo de quem não vinha
- ou de um coração atento.
Longas rosas de longa paciência,
os silêncios e os prantos:
alguém arranhando a parede
- ou eram apenas lembranças?
Algo sempre em moveimento:
a vida arrastando as pantufas
nos corredores do tempo
- fiquei esquecida num canto?
Lya Luft
12/05/2011
6.Quando fecho a porta
Na parede atrás da minha mesa,
ombro a ombro,
a menina e seu pai, em dois retratos,
conversam sobre o que há no escuro
da noite, como entender o mundo,
e porque as montanhas eram tão azuis.
Quando apago a luz e fecho a porta,
eles riem baixinho desta que hoje sou:
ainda tão distraída e dessassogada,
cheia de encantamento, susto e assombro.
(E devem dizer, meneando as cabeças:
Parece que ela nuinca vai mudar.)
Lya Luft
ombro a ombro,
a menina e seu pai, em dois retratos,
conversam sobre o que há no escuro
da noite, como entender o mundo,
e porque as montanhas eram tão azuis.
Quando apago a luz e fecho a porta,
eles riem baixinho desta que hoje sou:
ainda tão distraída e dessassogada,
cheia de encantamento, susto e assombro.
(E devem dizer, meneando as cabeças:
Parece que ela nuinca vai mudar.)
Lya Luft
11/05/2011
5. Peixe azul
Ronda, peixe azul, no meu aquário:
gruda em minha boca de vidr a tua boca,
que do fio de teus regiros farei asas
ou barbatans que me levem junto.
Peixe azul, dormiremos no limo
que recobre o fundo dessas águas,
onde nos chama uma sereia
com riso de anjo e olhar de louca.
Somos todos escravos, peixe azul:
tu com escamas, eu com meus poemas.
O delíro é fácil e belo o cenário,
mas a ronda, peixe azul, também traz mágoas.
Lya Luft, in: Para não dizer adeus.
gruda em minha boca de vidr a tua boca,
que do fio de teus regiros farei asas
ou barbatans que me levem junto.
Peixe azul, dormiremos no limo
que recobre o fundo dessas águas,
onde nos chama uma sereia
com riso de anjo e olhar de louca.
Somos todos escravos, peixe azul:
tu com escamas, eu com meus poemas.
O delíro é fácil e belo o cenário,
mas a ronda, peixe azul, também traz mágoas.
Lya Luft, in: Para não dizer adeus.
10/05/2011
4. Todas as àguas
Quando pensei que estava tudo cumprido,
havia outra surpresa: mais uma curva
do rio, mais riso e mais pranto.
Quando calculei que tudo estava pago,
anunciaram-se novas dívidas e juros,
o amor e o desafio.
Quando achei que estava serena,
os caminhos se espalmaram
como dedos de espanto
em cortinas aflitas. E eu espio,
ainda que o olhar seja grande
e a fresta pequena.
Lya Luft
havia outra surpresa: mais uma curva
do rio, mais riso e mais pranto.
Quando calculei que tudo estava pago,
anunciaram-se novas dívidas e juros,
o amor e o desafio.
Quando achei que estava serena,
os caminhos se espalmaram
como dedos de espanto
em cortinas aflitas. E eu espio,
ainda que o olhar seja grande
e a fresta pequena.
Lya Luft
09/05/2011
3. Temporal
O tempo rasteja no telhado
depois de se fazerem filhos e dívidas,
e as dúvidas brotarem nas frestas
da porta.
O tempo trança bordados no rosto
e manchas na mão,
mas a gente não muda: ainda chove
no escuro e um pássaro começa a cantar,
um amigo morre antes dos quarenta anos,
e nossa mãe, com quase cem, nem está
nem se ausenta.
Como tudo o mais,
o tempo não tem explicação:
corrói e transfigura, expande
ou empobrece, conforme a escolha
de cada um.
(Eu, com medo e susto,
escolho a multiplicação.)
Lya Luft, in:
Para não dizer adeus.
08/05/2011
2. Perder, ganhar
Com as perdas, só há um jeito:
perdê-las.
Com os ganhos,
o proveito é saborear cada um
como uma fruta boa da estação.
A vida, como um pensamento,
corre à frente dos relógios.
O ritmo das águas indica o roteiro
e me oferece um papel:
abrir o coração como uma vela
ao vento, ou pagar sempre a conta
já vencida.
Lya Luft in: Para não dizer adeus.
perdê-las.
Com os ganhos,
o proveito é saborear cada um
como uma fruta boa da estação.
A vida, como um pensamento,
corre à frente dos relógios.
O ritmo das águas indica o roteiro
e me oferece um papel:
abrir o coração como uma vela
ao vento, ou pagar sempre a conta
já vencida.
Lya Luft in: Para não dizer adeus.
07/05/2011
Para não dizer adeus (1. Dizendo adeus)
Esta semana foi de emoções variadas, alegrias e tristezas, decepções. Mas valeu pelo belo presente que ganhei de uma amiga que é mais que uma irmã: um livro de poesias, e logo da Lya Luft. Deixo aqui uma concepção sobre poesia, e a seguir vou postar as belas poesias dessa sábia, madura e culta mulher, exemplo ímpar para muitas mulheres fúteis que encontramos pelo caminho, sem nada em suas cabecinhas ocas a não o desejo de "ter" e "aparentar ser" o que não são.
"... pois elas [as poesias], como o amor, são o sal da vida". Lya Luft
1. Dizendo Adeus
Estou sempre dando adeus:
também ao desencontro e ao
também ao desencontro e ao
desencanto.
Estou sempre me despedindo
do ponto de partida que me lança de si,
do porto de chegada que nunca é
aqui.
Estou sempre dizendo adeus:
até a Deus,
para o reencontrar em outra esquina
de adeuses.
Estarei sempre de partida,
até o momento de sermos deuses
quando me fizeres dar adeus à solidão
e à sombra.
Lya Luft,
in: Para não dizer adeus,
Rio de Janeiro: Ed. Record, 3.ed., p. 15.
27/04/2011
Amores
"O Céu pode nos dar um conforto celestial - e nenhum outro. E a Terra não pode nos dar conforto terreno algum... Nós fomos feitos para Deus. [...] Quando virmos a face de Deus, nós vamos saber que sempre soubemos. ELE participou de todas as nossas experiências de amor inocente na Terra - ELE as criou, manteve e moveu interiormente cada instante. Tudo que havia de amor verdadeiro nelas sempre foi, mesmo na Terra, bem mais dEle que nosso, e nosso apenas porque dEle. No Céu não haverá dor ou dever de abandonar nossos Amados terrenos. Primeiro, porque já os teremos abandonado, trocado os retratos pelo Original, os riachos pela Fonte, as criaturas que Ele tornou amáveis pelo Amor Absoluto. Segundo, porque encontraremos todos eles Nele. Amando a ELE mais que que a eles (nossos amados), nós os amaremos mais do que amamos hoje. [...] Aqui embaixo tudo é perda e renúncia."
(C. S. Lewis, Os quatro amores, Ed. Martins Fontes)
26/04/2011
Tortura
Tirar dentro do peito a emoção,
A lúcida verdade, o sentimento!
- E ser, depois de vir do coração,
Um punhado de cinza esparso ao vento!...
Sonhar um verso d'alto pensamento,
E puro como um ritmo d'oração!
- E ser, depois de vir do coração,
O pó, o nada, o sonho dum momento!...
São assim ocos, rudes, os meus versos:
Rimas perdidas, vendavais dispersos,
Com que eu iludo os outros, com que minto!
Quem me dera encontrar o verso puro,
O verso altivo e forte, estranho e duro,
Que dissesse, a chorar, isto que sinto!
Florbela Espanca
21/04/2011
Aqui eu te amo.

Aqui eu te amo.
Nos escuros pinheiros se desenlaça o vento.
Fosforece a lua sobre as águas errantes.
Andam dias iguais a perseguir-se.
Descinge-se a névoa em dançantes figuras.
Descinge-se a névoa em dançantes figuras.
Uma gaivota de prata se desprende do ocaso.
Às vezes uma vela. Altas, altas, estrelas.
Ou a cruz negra de um barco.
Ou a cruz negra de um barco.
Só.
Às vezes amanheço, e minha alma está úmida.
Soa, ressoa o mar distante.
Isto é um porto.
Aqui eu te amo.
Aqui eu te amo e em vão te oculta o horizonte.
Aqui eu te amo e em vão te oculta o horizonte.
Estou a amar-te ainda entre estas frias coisas.
Às vezes vão meus beijos nesses barcos solenes,
que correm pelo mar rumo a onde não chegam.
Já me creio esquecido como estas velha âncoras.
Já me creio esquecido como estas velha âncoras.
São mais tristes os portos ao atracar da tarde.
Cansa-se minha vida inutilmente faminta.
Eu amo o que não tenho. E tu estás tão distante.
Meu tédio mede forças com os lentos crepúsculos.
Meu tédio mede forças com os lentos crepúsculos.
Mas a noite enche e começa a cantar-me.
A lua faz girar sua arruela de sonho.
Olham-me com teus olhos as estrelas maiores.
Olham-me com teus olhos as estrelas maiores.
E como eu te amo, os pinheiros no vento,
querem cantar o teu nome, com suas folhas de cobre.
***
Pablo Neruda
Pablo Neruda
18/04/2011
Aninha e suas pedras
Não te deixes destruir...
Ajuntando novas pedras
e construindo novos poemas.
Recria tua vida, sempre, sempre.
Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça.
Faz de tua vida mesquinha
um poema.E viverás no coração dos jovens
e na memória das gerações que hão de vir.
Esta fonte é para uso de todos os sedentos.
Toma a tua parte.Vem a estas páginas
e não entraves seu uso
aos que têm sede.
Cora Coralina (Outubro, 1981)
15/04/2011
Maria das Quimeras
"Maria das Quimeras me chamou alguém...
Pelos castelos que eu ergui
P'las flores d'oiro e azul que a sol teci
Numa tela de sonho que estalou.
.
Maria das Quimeras me ficou;
Com elas na minh'alma adormeci.
Mas, quando despertei, nem uma vi
Que da minh'alma, Alguém, tudo levou!
.
Maria das Quimeras, que fim deste
Às flores d'oiro e azul que a sol bordaste,
Aos sonhos tresloucados que fizeste?
.
Pelo mundo, na vida, o que é que esperas?...
Aonde estão os beijos que sonhaste,
Maria das Quimeras, sem quimeras?..."
.
Florbela Espanca
14/04/2011
"Mãos"
"Mãos..."
Como aves desarvoradas
Depois de roteiros vãos
Tuas mãos vieram, cansadas,
Se aninhar em minhas mãos...
Há momentos... Acontece...
Puro, o amor pode ficar,
Como duas mãos em prece,
Esquecidas, a rezar...
Quando maior é o carinho
Às vezes, tenho a impressão
De que conversam baixinho...
Tua mão... em minha mão..."
J. G. de Araújo Jorge (1914 / 1987),
do livro "Trevo de Quatro Versos"
1a ed. 1964
10/04/2011
É outono.
É outono. E é Verlaine... O Velho Outono
Ou o Velho Poeta atira-me à janela
Uma das muitas folhas amarelas
De que ele é o dispersivo dono...
E há uns salgueiros a pender de sono
Sobre um fundo de pálida aquarela.
Mário Quintana
08/04/2011
Basta pensar
Basta pensar em sentir
Para sentir em pensar.
Meu coração faz sorrir
Meu coração a chorar.
Depois de parar de andar,
Depois de ficar e ir,
Hei de ser quem vai chegar
Para ser quem quer partir.
Viver é não conseguir.
Fernando Pessoa
06/04/2011
Mãos Dadas
Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considere a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.
Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi suspiros ao anoitecer, a paisagem vista na janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.
Carlos Drummond de Andrade
Carlos Drummond de Andrade
29/03/2011
Noites de Tormenta (Nights in Rodanthe, 2008 - EUA/Austrália)
Adrienne Willis (Diane Lane) vive num caos, o que faz a buscar refúgio em Rodanthe, uma pequena cidade litorânea na Carolina do Norte, para onde vai cuidar da pousada da amiga Jean (Viola Davis), esperando poder refletir sobre seus problemas com Amanda (Mae Whitman), a filha adolescente, com o filho de 9 anos, Danny (Charlie Tahan) e com o ex-marido, Jack (Christopher Meloni ), que quer voltar para casa. O único hóspede é dr. Paul Flanner (Richard Gere), que enfrenta uma crise de consciência. Durante mais um furacão, comum na quela região, eles vão se conhecendo, buscando consolo e apoio um no outro, tendo um fim de semana que mudará para sempre as suas vidas.
Minha nota: *****
Site Oficial: www.noitesdetormenta.com.br
"Há um tipo de amor que nos faz pensar que tudo é possível. Você pode ter um amor assim. Não se contente com menos que isso!"
Patê de Tofu
Ingredientes
250 gramas de tofu
3 cenouras cozidas (200 g)
2 alhos crus descascados
1 col. (sopa) de azeite de oliva extra-virgem processado a frio
2 col. (sopa) de salsinha picada
sal à gosto
Modo de Preparo
Bata todos os ingredientes no liqüidificador e sirva com torradas de pão integral (de linhaça, de aveia, centeio).
Rendimento = 18 col. (sopa) de 25 gramas
Calorias por porção = 20
Benefícios do Patê de Tofu
Feito a partir do leite de soja, o tofu é um queijo de sabor levemente adocicado e considerado rica fonte de proteínas de alto valor biológico. Tem baixo valor calórico (100 gramas = 73 calorias), é isento de colesterol e apresenta pouquíssima quantidade de gorduras saturadas. É fonte de cálcio, ferro, fósforo, sódio e vitaminas B e E. Contribui para a prevenção de doenças cardiovasculares e ainda pode auxiliar no emagrecimento, uma vez que a soja tem ação termogênica. O Tofu pode substituir com sucesso o queijo de leite de vaca. Seu uso na culinária é bastante versátil, pode ser usado tanto em pratos doces como salgados.
28/03/2011
O Gladiador (Gladiator, 2000, EUA)
O ano é de 180 d.C. e o general romano Maximus, servindo ao seu imperador Marco Aurélio, prepara seu exército para impedir a invasão dos bárbaros germânicos. Após o combate, Maximus fica sabendo que Marco Aurélio, já velho e ciente de sua morte, quer lhe passar o comando do Império Romano. A trama onde Commodus, filho do imperador, mata o pai, assumindo o comando do Império, não é historicamente verídica. Na verdade, Commodus assumiu quando seu pai morreu afetado por uma peste, adquirida durante uma nova campanha no Danúbio. Enquanto Commodus assume o trono, Maximus que escapa da morte, torna-se escravo e gladiador, travando batalhas sangrentas no Coliseu, a nova forma de divertimento dos romanos. Maximus, disposto a vingar o assassinato de sua mulher e de seu filho, sabe que é preciso triunfar para ganhar a confiança da platéia. Acumulando cadáveres nas arenas o gladiador luta por uma causa pessoal, de forma quase que solitária e leva benefícios ao povo, submetido pela política do "pão e circo". "Nesta vida ou na próxima eu terei minha vingança". Maximus sabe que o controle da multidão será vital para que possa arquitetar sua vingança, que culmina em um combate com o próprio Commodus.
O filme foi indicado a vários prêmios, vencendo cinco Oscars incluindo o de Melhor Filme.
Elenco:
Russell Crow - Máximus Décimus Meridius
Joaquin Phoenix - Cómodo
Connie Nielsen- Lucila
Oliver Reed - Antônio Próximo
Richard Harris - Marco Aurélio
Derek Jacobi - Gracco
Djimon Hounsou - Juba
David Schofield -Falco
John Shrapnel - Gaius
Tomas Arana - Quintus
Tommy Flanagan - Cícero
Minha nota: *****
26/03/2011
Suplício de uma Saudade (A Love Is a Many Splendored Thing, 1955)
Esta é uma das mais lindas e famosas histórias de amor das telas cinematográficas. Ambientado em Hong Kong durante a Guerra da Coréia, o filme narra a história de um correspondente de guerra americano (William Holden) e seu amor por uma linda médica eurasiana (Jennifer Jones). À medida que seu amor cresce, surgem problemas para atrapalhar sua felicidade. Ele deixou uma esposa em casa, e ela enfrenta a desaprovação de sua família e amigos. O destino também não parece querer ajudar. Todo o exótico esplendor de Hong Kong foi brilhantemente capturado pela magnífica fotografia de Leon Shamroy, e a trilha sonora vencedora vencedora do Oscar® (Melhor Trilha Sonora, 1955) e a canção título (Melhor Canção Original, 1955) está entre as melhores já compostas para o cinema. Suplício de uma Saudade é indiscutivelmente um ponto alto da melhor tradição em filmes românticos de Hollywood.
Direção: King Vidor
Elenco:
William Holden...Mark ElliottJennifer Jones...Dr. Han SuyinTorin Thatcher...Mr. Palmer-JonesIsobel Elsom...Adeline P. JonesMurray Matheson...Dr. John Keith
22/03/2011
Se eu te amasse mais...
“Se eu te amasse mais do que te amo agora,
Não teria a certeza que tenho de que vivo.
Eu vou te amar assim por essa vida afora,
Guardando pra nós dois a causa e o motivo.
Se eu te amasse mais do que te amo agora,
Eu sei que meu olhar não te diria tanto,
Não te amei de repente e nem escolhi a hora,
Mas cuide deste amor mesmo que haja pranto.
Às vezes, como hoje, eu só te sorriria.
Mas não importa muito, no amor não há demora.
E se te amasse mais talvez eu erraria.
Te dou o amor que tenho, amor que ri e que chora,
Seria um tempo em vão, eu sei que morreria,
Se eu te amasse mais do que te amo agora”.
Não teria a certeza que tenho de que vivo.
Eu vou te amar assim por essa vida afora,
Guardando pra nós dois a causa e o motivo.
Se eu te amasse mais do que te amo agora,
Eu sei que meu olhar não te diria tanto,
Não te amei de repente e nem escolhi a hora,
Mas cuide deste amor mesmo que haja pranto.
Às vezes, como hoje, eu só te sorriria.
Mas não importa muito, no amor não há demora.
E se te amasse mais talvez eu erraria.
Te dou o amor que tenho, amor que ri e que chora,
Seria um tempo em vão, eu sei que morreria,
Se eu te amasse mais do que te amo agora”.
Letra de Martinha (Martha Vieira Figueiredo Cunha)
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