14/10/2010

Acontecimento


"Acontecimento"


Aqui estou, junto à tempestade,

chorando como uma criança

que viu que não eram verdade

o seu sonho e a sua esperança.


A chuva bate-me no rosto

e em meus cabelos sopra o vento.

Vão-se desfazendo em desgosto

as formas do meu pensamento.


Chorarei toda a noite, enquanto

perpassa o tumulto nos ares,

para não me veres em pranto,

nem saberes, nem perguntares:


"Que foi feito do teu sorriso,

que era tão claro e tão perfeito?"

E o meu pobre olhar indeciso

não se repetir: "Que foi feito...?"




Cecília Meireles

(1901-1964)

13/10/2010

Sentimento do Mundo


Tenho apenas duas mãos


e o sentimento do mundo,


mas estou cheio de escravos,


minhas lembranças escorrem


e o corpo transige


na confluência do amor.



Quando me levantar, o céu


estará morto e saqueado,


eu mesmo estarei morto,


morto meu desejo, morto


o pântano sem acordes.



Os camaradas não disseram


que havia uma guerra


e era necessário


trazer fogo e alimento.


Sinto-me disperso,


anterior a fronteiras,


humildemente vos peço


que me perdoeis.



Quando os corpos passarem,


eu ficarei sozinho


desfiando a recordação


do sineiro, da viúva e do microscopista


que habitavam a barraca


e não foram encontrados


ao amanhecer



esse amanhecer


mais noite que a noite.

Carlos Drummond de Andrade

Sensibilidade



Meu coração,



Um quarto de espelhos,



Reflete e multiplica,



Infinitamente,



Uma impressão.



Eco dos longos corredores desertos,



Repete e amplifica,



Misteriosamente,



Uma palavra.



Frasco de Perfume Raro,



Guardou,



Para sempre,



Um leve aroma da essência que encerrou.







Helena Kolody



In:"Poesia sempre"

12/10/2010

Amar:
Fechei os olhos para não te ver
e a minha boca para não dizer...
E dos meus olhos fechados desceram
lágrimas que não enxuguei,
e da minha boca fechada nasceram sussurros
e palavras mudas que te dediquei...
O amor é quando a gente mora um no outro.

***

Mário Quintana

11/10/2010

Canção da estrela murmurante

Canção da estrela murmurante




Nós nos amaremos docemente,

Nesta luz, neste encanto, neste medo:

Nós nos amaremos livremente

No dia marcado pelos deuses.

Nós nos amaremos com verdade

Porque estas almas já se conheciam:

nós nos amaremos para sempre

Além da concreta realidade.

Nós nos amaremos lindamente,

nós nos amaremos como poucos.

no teu tempo.


Lya Luft

10/10/2010

Recordar


Qual se fosse num túmulo encerrado,

para minha saudade é que hoje vivo.

Levo as mãos à cabeça, pensativo,

e recordo o esplendor do meu passado.

Será possível que um amor tão forte

tenha subitamente se extinguido?

O amor é mais potente do que a morte,

mas não pode escapar à lei do Olvido.

Largas horas de espera... Eternidades

que enchem de anseio as minhas soledades!

Sonhando e só com teu amor me tens.

Esperando que voltes, considero:

se nunca chegarás, por que te espero?

e se te espero assim, por que não vens?
**
Francisco Villaespesa (1877-1936)
Tradução de Osório Duque

08/10/2010

Balada da Chuva

A tarde se embaça: - um pingo, outro pingo

respinga um respingo de encontro à vidraça;

um pingo, outro pingo, e a chuva aumentando

e eu nada distingo, - respinga um respingo

tinindo, cantando de encontro à vidraça.

A noite está baça e a chuva enervante

batendo, batendo, constante, cantante

de encontro à vidraça.

A terra se alaga, o céu se nevoa,

e a chuva é uma vaga fininha, descendo,

parece garoa!

parece fumaça!

- e as águas subindo e as poças subindo

e a chuva descendo e a chuva não passa!

O dia surgindo, manhã turva e baça.

A chuva fininha miudinha, miudinha,

parece farinha lá fora caindo,

através da vidraça.

A tarde está escura, a noite está baça,

e as brumas de um tédio,

de um tédio sem cura,

talvez sem remédio,

minha alma esfumaça:

- um dia, outro dia e os dias passando

em lenta agonia segunda a domingo;

um pingo, outro pingo, respinga um respingo,

batendo, cantando, mil dedos tocando

de encontro à vidraça...

- que chuva! que chuva!

e a chuva não passa!

Constante, cantante caindo distante

nas folhas molhadas,

nas poças paradas despidas e nuas,

e murmurejante rolando nas ruas;

- um pingo, outro pingo

na lata cantando goteira se abrindo

pingando, pingando

batendo, batendo

tinindo, tinindo,

 

parece um tinido, de taça com taça,

e a chuva chovendo

e a chuva não passa!

O vento nas folhas de leve perpassa,

e as gotas nos fios rolando, escorrendo

lá fora estou vendo através da vidraça,

- que dias sem alma!

- que noites sem graça!

e a chuva, que calma!

chovendo, chovendo

não passa! não passa!

A terra está envolta nas brumas de um véu,

de um véu de viúva que o dia escurece,

e a noite enfumaça.

- E' a chuva que chove, e do alto se solta

descendo, descendo, rolando, escorrendo

nos olhos do céu...

Nos olhos do céu e no olhar da vidraça!

- que chuva! que chuva! parece um dilúvio,

quem sabe? - parece que a chuva não passa! 

(Poema de J. G. de Araújo Jorge

do livro - Antologia Poética - 1978)





















O livro mais mal-humorado da Bíblia

"Com os anos fui perdendo a paciência com pessoas que sabem muito, falam muito, mas não têm brilho nos olhos, não conseguem construir vínculos afetivos, e tudo quanto ocupa suas conversas é a objetividade da realidade, sem qualquer referência às coisas do coração.
Na dimensão da perplexidade, é mais fácil compreender do que explicar [...] A perplexidade é a dimensão em que há admiração, êxtase, alegria. Diante de um pôr do sol, de uma obra de arte ou da pessoa amada, não estamos lidando com problemas ou paradoxos. Estamos perplexos.
A linguagem do problema é a linguagem do engenheiro, do físico e do matemático. A linguagem do paradoxo é a do filósofo, do teólogo e talvez até do psicólogo. E a linguagem da perplexidade é a linguagem do poeta, do amante, do afeto; é a voz do coração, do encantamento, do deslumbramento e do queixo caído. Algumas coisas podem ser organizadas e administradas na dimensão do problema, outras na dimensão do paradoxo, mas há coisas com as quais lidamos apenas na dimensão da perplexidade."1

Ed René Kivitz investiga a mensagem deixada por Salomão em busca das respostas que a humanidade persegue desde os primórdios e com rara habilidade desvenda o nó da existência humana.







Em sua releitura de Eclesiastes, Kivitz nos mostra que é possível vencer os amargos obstáculos da vida e ultrapassar as barreiras do tédio, do utilitarismo, da morte, da injustiça, da religião, do dinheiro, da pretensão, do crime, da fatalidade, da insensatez, da luta pela sobrevivência, do tempo e da ausência de sentido. Eclesiastes retrata a vida como ela é, suas facetas mais obscuras, sem floreios e amenizações. Ed René mostra que existe um sentido para nossa existência e permanência na Terra e revela como encontrar esse sentido tomando as decisões certas, atendo-se ao que realmente importa. Ele enfoca que, mesmo com tantas adversidades, a vida vale a pena ser vivida!




1 KIVITZ, Ed René. O livro mais mal-humorado da Bíblia. A acidez da vida e a sabedoria do Eclesiastes. São Paulo:  Mundo Cristão, 2009. p. 211 e 221.

07/10/2010

Há momentos...


Há momentos na vida em que sentimos tanto
a falta de alguém que o que mais queremos
é tirar esta pessoa de nossos sonhos
e abraçá-la.
Sonhe com aquilo que você quiser.
Seja o que você quer ser,
porque você possui apenas uma vida
e nela só se tem uma chance
de fazer aquilo que se quer.
Tenha felicidade bastante para fazê-la doce.
Dificuldades para fazê-la forte.
Tristeza para fazê-la humana.
E esperança suficiente para fazê-la feliz.
As pessoas mais felizes
não têm as melhores coisas.
Elas sabem fazer o melhor
das oportunidades que aparecem
em seus caminhos.
A felicidade aparece para aqueles que choram.
Para aqueles que se machucam.
Para aqueles que buscam e tentam sempre.
E para aqueles que reconhecem
a importância das pessoas que passam por suas vidas.
O futuro mais brilhante
é baseado num passado intensamente vivido.
Você só terá sucesso na vida
quando perdoar os erros
e as decepções do passado.
A vida é curta, mas as emoções que podemos deixar
duram uma eternidade.
A vida não é de se brincar
porque um belo dia se morre.
*
Clarice Lispector

06/10/2010

Blues fúnebre,


Parem todos os relógios, desliguem o telefone,
Impeçam o cão de latir com um osso enorme,
Silenciem os pianos e ao som abafado dos tambores
Tragam o caixão, deixem as carpideiras carpir suas dores.
Deixem os aviões aos círculos a gemer no céu
Rabiscando no ar a mensagem Ele Morreu,
Ponham laços crepe nas pombas brancas da nação,
Deixem os sinaleiros usar luvas pretas de algodão.
Ele era o meu Norte, meu Sul, meu Este e Oeste,
Minha semana de trabalho, meu Domingo de festa
Meu meio-dia, meia-noite, minha conversa, minha canção;
Pensei que o amor ia durar para sempre: foi ilusão.
As estrelas já não são precisas: levem-nas uma a uma;
Desmantelem o sol e empacotem a lua;
Despejem o oceano e varram a floresta;
Porque agora já nada de bom me resta.

W.H. Alden (1936)

05/10/2010

Dedicatória N.1



Este meu livro é todo teu, repara
que ele traduz em sua humilde glória
verso por verso, a estranha trajetória
desta nossa afeição ciumenta e rara!
Beijos! Saudades! Sonhos! Nem notara
tanta cousa afinal na nossa história...
E este verso – é a feliz dedicatória...
onde a minha alma inteira se declara...
Abre este livro... E encontrarás então
teu coração, de amor, rindo e cantando,
cantando e rindo com o meu coração...
E se o leres mais alto, quando a sós,
é como se estivesses me escutando
falar de amor com a tua própria voz!

***

J. G. de Araújo Jorge

04/10/2010

Sem ti





Sem ti
em meu enervamento
sou como um artista sem instrumento
- um pianista sem piano -

um marinheiro sem mar

ou sem navio,

um alcoólatra sem bebida...
um corpo a teimar que ainda pode viver
assim vazio,
sem vida...

( Poema de J. G. de Araujo Jorge

do livro" A Sós..." 1a ed. 1958 )

A Voz do Coração (Les Choristes, 2004, França)



Pierre Morhange é um famoso maestro que retorna à sua cidade-natal após o falecimento de sua mãe. Lá ele encontra um diário mantido por seu antigo professor de música, Clémente Mathieu, através do qual passa a relembrar sua própria infância, na década de 40, quando começou a participar de um coro organizado pelo professor, no internato dirigido pelo inflexível Rachin (François Berléand) e que terminou por revelar seus dotes musicais.
Com François Berléand (Rachin), Jean-Baptiste Maunier (Pierre Morhange - criança), Jacques Perrin (Pierre Morhange - adulto), Kad Merad (Chabert), Marie Bunel (Violette Morhange), Philippe Du Janerand (Langlois), Jean-Paul Bonnaire (Maxence), Maxence Perrin (Pépinot - criança), Didier Flamand (Pépinot - adulto). Recebeu duas indicações ao Oscar: melhor filme estrangeiro e melhor canção original.
 
Minha nota: *****



03/10/2010

É uma brisa leve


É uma brisa leve

Que o ar um momento teve

E que passa sem ter

Quase por tudo ser.

Quem amo não existe.

Vivo indeciso e triste.

Quem quis ser já me esquece

Quem sou não me conhece.

E em meio disto o aroma

Que a brisa traz me assoma

Um momento à consciência

Como uma confidência.
*
Fernando Pessoa
(in "OBRA POÉTICA","INÉDITAS", Ed. Aguilar, 1960)

02/10/2010

Um Amor Para Recordar

Um aluno rebelde e indisciplinado, Landon Carter (Shane West), faz uma brincadeira de mau gosto em sua escola, que resulta em acidente com um colega. Como punição, ele é encarregado de participar de uma peça teatral, que está sendo montada na escola. É quando ele conhece Jamie Sullivan (Mandy Moore), uma jovem estudante, filha do reverendo da cidade, que não aprova tal amizade. Com o tempo, Landon acaba se apaixonando por Jamie que, por razões pessoais, faz de tudo para escapar de seu assédio. Ao saber do segredo que ela esconde, Landon se transforma e faz tudo o que pode parr proporcionar à Jamie alguns dias felizes e a relização de seus sonhos. Um filme para repensar valores. 
Elenco: Shane West (Landon Rollins Carter), Mandy Moore (Jamie Elizabeth Sullivan),Peter Coyote (Reverendo Sullivan), Daryl Hannah (Cynthia Carter), Lauren German (Belinda). Ganhou o MTV Movie Awards, na categoria de Melhor Revelação Feminina (Mandy Moore).

http://www.youtube.com/watch?v=mmNec5t9fBA

Minha nota: **** (sou romântica, alma barroca, fazer o quê?)


.
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada.
Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.
A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera.
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.
Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado.
Ele dela é ignorado.
Ela para ele é ninguém.
Mas cada um cumpre o Destino
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.
E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E, vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora.
E, inda tonto do que houvera,
A cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A princesa que dormia.
(Fernando Pessoa, maio — 1934)

Buril



O sofrimento burila
a própria argila pensante,

muda a maneira de ser. 

Não se tranfere a ninguém

esse pungir que aprofunda

e nem a dor de aprender.
 
Helena Kolody 

01/10/2010

Adoração Suprema



Quando cerro os meus olhos, na minha grande noite

eternamente vejo a tua imagem,

tua doce figura

como uma silhueta de luz a recordas a sombra...

Se eu cerrasse os meus olhos neste instante a derradeira vez,

na última tarde da vida

e mandassem revelar depois minhas retinas,

veriam tua imagem refletida...

Por que eu hei de levar comigo essa imagem de luz

que ilumina a minha alma triste e enche o meu pensamento

quando cerro os meus olhos e medito...

Hei de levar-te dentro dos meus olhos tristes

quando a morte os vidrar,

e eles serão talvez para a tua imagem adorada e querida

o caixão de vidro da Branca de Neve morta, entre os anões da lenda,

que moram muito longe, muito alto,

num longínquo planalto,

num bosque encantado e feliz sobre uma rocha imensa de granito...

Hei de levar-te comigo, para que possas guiar meus passos

por entre as sombras que despencarão sobre as nossas cabeças

para além do infinito!
****************
 J.G. de Araujo Jorge

30/09/2010

FALO DE TI ÀS PEDRAS DAS ESTRADAS

FALO DE TI ÀS PEDRAS DAS ESTRADAS
 
Falo de ti às pedras das estradas,
E ao sol que e louro como o teu olhar,
Falo ao rio, que desdobra a faiscar,
Vestidos de princesas e de fadas;
Falo às gaivotas de asas desdobradas,
Lembrando lenços brancos a acenar,
E aos mastros que apunhalam o luar
Na solidão das noites consteladas;
Digo os anseios, os sonhos, os desejos
Donde a tua alma, tonta de vitória,
Levanta ao céu a torre dos meus beijos!
E os meus gritos de amor, cruzando o espaço,
Sobre os brocados fúlgidos da glória,
São astros que me tombam do regaço!

Florbela Espanca


29/09/2010

Assombros

Às vezes, pequenos grandes terremotos

ocorrem do lado esquerdo do meu peito.

Fora, não se dão conta os desatentos.

Entre a aorta e a omoplata rolam

alquebrados sentimentos.

Entre as vértebras e as costelas

há vários esmagamentos.

Os mais íntimos

já me viram remexendo escombros.

Em mim há algo imóvel e soterrado

em permanente assombro.


Affonso Romano de Sant'Ana

(Em "Lado Esquerdo do Meu Peito")

28/09/2010

" Está Cheio de Ti meu Coração..."

 


Está cheio de ti meu coração

como a noite de estrelas está cheia,

tão cheia, que ao se olhar para a amplidão

o olhar de luz se inunda e se incendeia...


Está cheio de ti meu coração

como de ondas o mar que o dorso alteia,

como a praia que estende sobre o chão

milhões de grãos do seu lençol de areia...


Está cheio de ti meu coração,

como uma taça, erguida, transbordante,

num momento de amor e de emoção,


- como o meu canto enquanto eu viva e eu cante

como o meu pensamento a todo instante

está cheio de ti meu coração !

***

J. G. de Araujo Jorge (coletânea -



"Meus Sonetos de Amor " - 1a edição1961 )

27/09/2010

APARIÇÃO AMOROSA



Doce fantasma, por que me visitas

como em outros tempos nossos corpos se visitavam?

Tua transparência roça-me a pele, convida

a refazermos carícias impraticáveis: ninguém nunca

um beijo recebeu de rosto consumido.


Mas insistes, doçura. Ouço-te a voz,

mesma voz, mesmo timbre,

mesmas leves sílabas,

e aquele mesmo longo arquejo

em que te esvaías de prazer,

e nosso final descanso de camurça.

Então, convicto,

ouço teu nome, única parte de ti que não se dissolve

e continua existindo, puro som.

Aperto... o quê? a massa de ar em que te converteste

e beijo, beijo intensamente o nada.

Amado ser destruído, por que voltas
e és tão real assim tão ilusório?

Já nem distingo mais se és sombra

ou sombra sempre foste, e nossa história

invenção de livro soletrado

sob pestanas sonolentas.

Terei um dia conhecido

teu vero corpo como hoje o sei

de enlaçar o vapor como se enlaça

uma idéia platônica no espaço?



O desejo perdura em ti que já não és,
querida ausente, a perseguir-me, suave?

Nunca pensei que os mortos

o mesmo ardor tivessem de outros dias

e no-lo transmitissem com chupadas

de fogo aceso e gelo matizados.


Tua visita ardente me consola.

Tua visita ardente me desola.

Tua visita, apenas uma esmola.

Carlos Drummond de Andrade

26/09/2010

" Última Página "






Todo este grande amor que nasceu em segredo,

e cresceu e floriu na humildade mais pura,

teve o encanto pueril desses contos de enredo

quase ingênuo, onde a graça ao candor se mistura.

Entrou nos nossos corações como a brancura

de uma réstia de luar numa alcova entra a medo.

Nunca teve esse fogo intenso de loucura,

que há em todo amor que nasce tarde e morre cedo.

E quando ele aflorou tímido e pequenino,

como uma estrela azul no meu, no teu destino,

não sei que estranha voz ao coração me disse,

que este amor suave e bom, de pureza e lealdade,

sendo o primeiro amor da tua meninice,

era o último amor da minha mocidade.
*

Alceu de Freitas Wamosy



1895 - Uruguaiana RS - 14 de fevereiro



1923 - Livramento, RS - 13 de setembro

25/09/2010

O Amor

O amor nos abala e nos embala

O amor nos consome e nos nutre

O amor nos enlouquece e embriaga

Com seu vinho e seu delírio

O amor nos desfolha e nos transporta

O amor nos desnuda e nos veste

O amor nos dissolve e nos envolve

Com seu fogo e seu vento.

O amor nos ascende

E nos transcende

O amor nos sepulta e ressuscita

Com suas asas e sua magia

O amor nos indaga e nos responde

O amor nos vence e nos abraça

O amor nos absolve e nos consagra

com seu mistério e sua prece.

(Frei Clemente de Keissemeir)

24/09/2010

De quem é o olhar


De quem é o olhar
Que espreita por meus olhos?
Quando penso que vejo,
Quem continua vendo
Enquanto estou pensando?
Por que caminhos seguem,
Não os meus tristes passos,
Mas a realidade
De eu ter passos comigo?
Às vezes, na penumbra
Do meu quarto, quando eu
Por mim próprio mesmo
Em alma mal existo,
Toma um outro sentido
Em mim o Universo -
É uma nódoa esbatida
De eu ser consciente sobre
Minha idéia das coisas.
Se acenderem as velas
E não houver apenas
A vaga luz de fora -
Não sei que candeeiro
Aceso onde na rua -
Terei foscos desejos
De nunca haver mais nada
No Universo e na Vida
De que o obscuro momento
Que é minha vida agora!
Um momento afluente
Dum rio sempre a ir
Esquecer-se de ser,
Espaço misterioso
Entre espaços desertos
Cujo sentido é nulo
E sem ser nada a nada.
E assim a hora passa
Metafisicamente.

Fernando Pessoa

23/09/2010

Baú de Guardados

Trago, fechado no peito,
um baú de guardados.
Jóias, gemas e pérolas
que podem
ofuscar meus olhos.
Pedras, perdas, penas
que conseguem
represar meu rio.
Mas basta um som de flauta,
um dedilhar de piano,
o acorde de um violão,
o cristal de uma voz
e todas as comportas
se abrem
e me descobrem
levando de roldão
tudo que cabe
nesse cofre desvendado,
o coração.
Jóias, gemas, pérolas,
pedras, perdas, penas.
Brilhos que se confundem
no que sou.
Rolam nas águas e me levam
para perto, bem mais perto
de onde estou.

Alice Ruiz