22/09/2009

Soneto LXXXI


Já és minha. Repousa com teu sonho em meu sonho.
Amor, dor, trabalhos, devem dormir agora.
Gira a noite sobra suas invisíveis rodas
e junto a mim és pura como âmbar dormido.

Nenhuma mais, amor, dormirá com meus sonhos.
Irás, iremos juntos pelas águas do tempo.
Nenhuma mais viajará pela sombra comigo,
só tu, sempre-viva, sempre sol, sempre lua.

Já tuas mãos abriram os punhos delicados
e deixaram cair suaves sinais sem rumo,
teus olhos se fecharam como duas asas cinzas.

Enquanto eu sigo a água que levas e me leva:
a noite, o mundo, o vento enovelam seu destino,
e já não sou sem ti senão apenas teu sonho.


Pablo Neruda

21/09/2009

Sonetos Portugueses III


"Parte: não te separas? Que jamais

Sairei de tua sombra. Por distante

Que te vás, em meu peito, a cada instante,

Juntos dois corações batem iguais.

.
Não ficarei mais só. Nem nunca mais

Dona de mim, a mão, quando a levante,

Deixará de sentir o toque amante

Da tua, - ao que fugi. Parte: Não sais!

.
Como o vinho, que às uvas donde flui

Deve saber, é quanto faço e quanto

Sonho, que assim também todo te inclui.
.

A ti, amor! minha outra vida, pois

Quando oro a Deus, teu nome Ele ouve e o pranto

Em meus olhos são lágrimas de dois."
***

Elizabeth Browning Barret

Tradução de Manuel Bandeira
* gettyimages.com

20/09/2009

PRESENÇA


PRESENÇA

*************
É preciso que a saudade desenhe tuas linhas perfeitas,

teu perfil exato e que, apenas, levemente, o vento

das horas ponha um frêmito em teus cabelos...

É preciso que a tua ausência trescale

sutilmente, no ar, a trevo machucado,

as folhas de alecrim desde há muito guardadas

não se sabe por quem nalgum móvel antigo...

Mas é preciso, também, que seja como abrir uma janela

e respirar-te, azul e luminosa, no ar.

É preciso a saudade para eu sentir

como sinto - em mim - a presença misteriosa da vida...

Mas quando surges és tão outra e múltipla e imprevista

que nunca te pareces com o teu retrato...

E eu tenho de fechar meus olhos para ver-te.

***
Mário Quintana

19/09/2009

The Teahouse of the August Moon

"A Casa de Chá do Luar de Agosto" é um filme de 1956, dirigido por David Mann, com roteiro de John Patrick, baseado em livro de Vern J. Sneider.
Terminou a Segunda Guerra Mundial, Wainwright Purdy III (Paul Ford) é um coronel americano que comanda as tropas de ocupação no Japão e que está determinado a levar a cultura ocidental para os habitantes locais. O capitão Fisby (Glenn Ford ) é enviado ao vilarejo Tobiki em Okinawa para ensinar democracia à população, devendo construir uma escola, mas os alunos, depois de explicar ao mestre suas tradicões, tentam persuadi-lo a construir o que mais interessa a eles: uma casa de chá. Fisby chega a Tobiki disposto a implantar o modo de vida americano aos moradores da região, a organizar um clube social feminino e construir uma escola em forma de pentágono. Entretanto, acontece uma aculturação às avessas, pois Sakini (Marlon Brando), o guia e intérprete do capitão, conduz a situação do seu modo, fazendo Fisby assimilar os hábitos orientais.
Marlon Brando recebeu uma indicação ao Globo de Ouro de Melhor Ator - Comédia/Musical.

Minha nota: ****










18/09/2009

" Descoberta..."


" Descoberta..."



Aqui, sozinho,

percebo de repente

que a única coisa que sei fazer agora na vida

é te amar...

Minha vida se resume nesta angústia febril,

neste estranho tormento

de esperar pelo momento

em que vou novamente

te encontrar...



*************

J.G. de Araujo Jorge, do livro"A Sós..." 1a ed., 1958 )

17/09/2009

" E Os Teus Olhos Assim... "


"E Os Teus Olhos Assim... "


Nos teus olhos existe uma tortura imensa,

uma sombra de noite entre vagos clarões,

essa expressão inquieta e incerta de quem pensa

e vive o terror das interrogações...


E ao tempo que se esvai, cada vez mais se adensa

a noite em teu olhar ocultando aflições...

Parece que morreste, ou que sofres da doença

terrível da loucura ou das meditações...


A tua alma parou... A tua alma tão moça

não é como a água viva em loucas enxurradas,

mas como a água parada e morta de uma poça...


E os teus olhos assim... lembram, nessa negrura,

duas janelas rindo, aos céus, escancaradas,

numa casa vazia abandonada e escura!


( Poema de J.G. de Araújo Jorge, extraído do livro"Os Mais Belos Poemas Que O Amor Inspirou"Vol. I - 1a edição, 1965 )

16/09/2009

Soneto 116


De almas sinceras a união sincera

Nada há que impeça: amor não é amor

Se quando encontra obstáculos se altera

Ou se vacila ao mínimo temor.

.


Amor é um marco eterno, dominante,

Que encara a tempestade com bravura;

É astro que norteia a vela errante

Cujo valor se ignora, lá na altura.

.


Amor não teme o tempo, muito embora

Seu alfanje não poupe a mocidade;

Amor não se transforma de hora em hora,

.


Antes se afirma, para a eternidade.

Se isto é falso, e que é falso alguém provou,

Eu não sou poeta, e ninguém nunca amou.

***


Shakespeare (Tradução de Bárbara Heliodora)
Foto: Foz do Iguaçu - Jan/2009 /Liz Guides)

14/09/2009

Metade


Que a força do medo que eu tenho,

não me impeça de ver o que anseio.

Que a morte de tudo o que acredito

não me tape os ouvidos e a boca.

Porque metade de mim é o que eu grito,

mas a outra metade é silêncio...

Que a música que eu ouço ao longe,

seja linda, ainda que triste...

Que a mulher que eu amo

seja para sempre amada

mesmo que distante.

Porque metade de mim é partida,

mas a outra metade é saudade.

Que as palavras que eu falo

não sejam ouvidas como prece

e nem repetidas com fervor,

apenas respeitadas,
como a única coisa que resta

a um homem inundado de sentimentos.

Porque metade de mim é o que ouço,

mas a outra metade é o que calo.

Que essa minha vontade de ir embora

se transforme na calma e na paz

que eu mereço.

E que essa tensão

que me corrói por dentro

seja um dia recompensada.

Porque metade de mim é o que eu penso,

mas a outra metade é um vulcão.

Que o medo da solidão se afaste

e que o convívio comigo mesmo

se torne ao menos suportável.

Que o espelho reflita em meu rosto,

um doce sorriso,

que me lembro ter dado na infância.

Porque metade de mim

é a lembrança do que fui,

a outra metade eu não sei.

Que não seja preciso

mais do que uma simples alegria

para me fazer aquietar o espírito.

E que o teu silêncio

me fale cada vez mais.

Porque metade de mim

é abrigo, mas a outra metade é cansaço.

Que a arte nos aponte uma resposta,

mesmo que ela não saiba.

E que ninguém a tente complicar

porque é preciso simplicidade

para fazê-la florescer.

Porque metade de mim é platéia

e a outra metade é canção.

E que a minha loucura seja perdoada.

Porque metade de mim é amor,

e a outra metade...

também.

********

13/09/2009


Põe-me as mãos nos ombros...

Beija-me na fronte...

Minha vida é escombros,

A minha alma insonte.


Eu não sei por quê,

Meu desde onde venho,

Sou o ser que vê,

E vê tudo estranho.



Põe a tua mão

Sobre o meu cabelo...

Tudo é ilusão.

Sonhar é sabê-lo.

**************

Fernando Pessoa

12/09/2009

Para meu coração

Para meu coração teu peito basta,
para que sejas livre, minhas asas.
De minha boca chegará até o céu
o que era adormecido na tua alma.
Mora em ti a ilusão de cada dia
e chegas como o aljôfar às corolas.
Escavas o horizonte com tua ausência,
eternamente em fuga como as ondas.
Eu disse que cantavas entre vento
como os pinheiros cantam, e os mastros
tu és como eles alta e taciturna.
Tens a pronta tristeza de uma viagem.
Acolhedora como um caminho antigo,
povoam-te ecos e vozes nostálgicas.
Despertei e por vezes emigram e fogem
pássaros que dormiam em tua alma.

11/09/2009

Casablanca


Neste filme de 1942, dirigido por Michel Curtiz, Casablanca é a rota obrigatória de quem está fugindo dos nazistas na Segunda Guerra Mundial. É lá que Rick (Humphrey Bogart) vai reencontrar Ilsa (a belíssima Ingrid Bergman), anos depois de terem se apaixonado e se perdido em Paris, mas agora ela está casada com o herói Victor Laszlo (Paul Henreid).
Recebeu 3 Oscars: Melhor Filme, Melhor Diretor e Melhor Roteiro. Foi ainda indicado em outras 5 categorias: Melhor Ator (Humphrey Bogart), Melhor Ator Coadjuvante (Claude Rains), Melhor Fotografia, Melhor Edição e Melhor Trilha Sonora para Comédia/Musical.
Minha nota: *****

09/09/2009

"Oh, Como te Amo! Como à Luz do dia! "


Oh, como te amo! Como à luz do dia!
Teu nome invoco, apaixonada e triste,
e quando a noite veio, e tu partiste,
minha alma em ânsias ainda te pedia!
.
És para mim o tempo que me guia,
a idéia que ao meu pensamento assiste
porque em ti se concentra quanto existe:
a esperança, a paixão, minha poesia.
.
Não há canto que iguale em força e alento,
o teu amor, se sonhas e deliras;
num doce instante de arrebatamento...
.
Tremo ao te ouvir. Se me olhas tu me inspiras!
E quisera exalar o último alento,
abrasada ao calor do ar que respiras.
***
Carolina Coronado (1823-1911)
****************************
http://www.youtube.com/watch?v=U3BAkmUd5pc

06/09/2009

Noite


As casas fecham as pálpebras das janelas e dormem.
Todos os rumores são postos em surdina,
todas as luzes se apagam.
Há um grande aparato de câmara funerária
na paisagem do mundo.
Os homens ficam rígidos,
tomam a posição horizontal
e ensaiam o próprio cadáver.
Cada leito é a maquete de um túmulo.
Cada sono em ensaio de morte.
No cemitério da treva
tudo morre provisoriamente.
.........
Menotti del Picchia
São Paulo, SP, Brasil 1892 (*) - 1961 (+)

05/09/2009

Traduzir-se


Uma parte de mim

é todo mundo:

outra parte é ninguém:

fundo sem fundo.

Uma parte de mim

é multidão:

outra parte estranheza

e solidão.

Uma parte de mim

pesa, pondera:

outra parte

delira. Uma parte de mim

almoça e janta:outra parte

se espanta.Uma parte de mim

é permanente:outra parte

se sabe de repente.

Uma parte de mim

é só vertigem: outra parte,

linguagem. Traduzir uma parte

na outra parte

- que é uma questão

de vida ou morte

- será arte?


*********

Ferreira Gullar
Crédito da imagem: gettyimages.com

04/09/2009

" Coração Partido "


Acreditei que o coração já estava


curado para sempre. E já o havia


encantado com a música, a poesia


alta e pura, que à lira dedilhava.

.


E por onde eu seguia, onde eu passava,


a gentil primavera refloria;


- sonhos de paz e cantos de alegria,


a luz do sol em meu rincão entrava.


.

Mas, entre as rosas, eis que tu surgiste


como sempre, a sorrir, ó inconstante!


jogando redes, preparando laços...


.

E o meu altivo olhar tornou-se triste,


e o pobre coração, de novo, amante


outra vez aos teus pés fez-se em pedaços...




***


Juan Ramón Jiménez (poeta espanhol, 1881-1958)

Tradução de J. G. de Araújo Jorge
Créditos da imagem: gettyimages.com

03/09/2009


"Não fique

triste nas despedidas.

Uma despedida é necessária antes

de vocês poderem se encontrar

outra vez.

E se encontrar de novo,

depois de momentos ou

de vidas, é certo para

os que são amigos."

***


Richard Bach (Ilusões)

02/09/2009

Sono e sonho


Entre o sono e sonho,

Entre mim e o que em mim

É o quem eu me suponho

Corre um rio sem fim.


Passou por outras margens,

Diversas mais além,

Naquelas várias viagens

Que todo o rio tem.


Chegou onde hoje habito

A casa que hoje sou.

Passa, se eu me medito;

Se desperto, passou.


E quem me sinto e morre

No que me liga a mim

Dorme onde o rio corre

- Esse rio sem fim.

..............................
Fernando Pessoa, 11-9-1933

01/09/2009

" Meu Primeiro Amor "


O meu amor primeiro... o meu primeiro amor,
foi anseio, e viveu na incerteza de uma ânsia,
-botão que não se abriu... que não chegou a flor,
-um pedaço de céu, quase limpo e sem cor
perdido nos senfins azuis da minha infância...
.
Silhueta a se apagar, mas que o meu Ser divisa,
uma emoção feliz que nem foi emoção...
-nuvem leve a fugir aos impulsos da brisa,
tênue... vaga... sutil... bem distinta e imprecisa,
passando na memória do meu coração...
.
O meu primeiro amor, - um vulto que esqueci
num canto da lembrança a dormir empoeirado,
-um rosto que apagou porque nunca mais vi,
-um quadro que se esvai, e que deixei ali
esquecido no sótão velho de um passado...
.
Alma de uma ilusão pequenina e simplória
que se dissolve em mim... e aos poucos se desfaz...
parece outro destino, outra vida, outra história,
quando o tento arrancar das sombras da memória
tão longe... que ao lembrar-me... eu nem me lembro mais...
.
O meu primeiro amor... A primeira esperança
que abriu asas de sonho a procurar o além,
- hoje, é apenas lembrança a brincar na lembrança
levado na tristeza do que não se alcança,
na saudade de tudo o que nunca mais vem!
.
Pétala que entre um livro amarelou, perdida,
há muito tempo, há muito tempo... por alguém que o leu,
- e hoje, ao encontrá-la, seca e fenecida
no romance sem fim da minha própria vida
nem sei se quem a pôs entre as folhas fui eu...
.
O meu primeiro amor... O meu amor primeiro,
foi uma história azul dessas de "era uma vez"...
- uma história feliz... um conto verdadeiro
que um dia o meu Destino, um velho feiticeiro,
quis fazer mas não soube terminar talvez...
.
Minha glória primeira... e o meu maior desejo
de crescer, de subir, de explicar o Universo!
Passou... Foge de mim... mas ainda o sinto e o vejo,
- porque ele é a sensação do meu primeiro beijo
e a impressão imortal do meu primeiro verso!
***
J. G. de Araújo Jorge, extraído do livro"Bazar de Ritmos".

31/08/2009

O Poço


Cais,

às vezes, afundas

em teu fosso de silêncio,

em teu abismo de orgulhosa cólera,

e mal consegues

voltar, trazendo restos

do que achaste

pelas profunduras da tua existência.

Meu amor, o que encontras

em teu poço fechado?
Algas, pântanos, rochas?

O que vês, de olhos cegos,

rancorosa e ferida?

Não acharás, amor,

no poço em que cais

o que na altura guardo para ti:

um ramo de jasmins todo orvalhado,

um beijo mais profundo que esse abismo.

Não me temas, não caias

de novo em teu rancor.

Sacode a minha palavra que te veio ferir

e deixa que ela voe pela janela aberta.

Ela voltará a ferir-me

sem que tu a dirijas,

porque foi carregada com um instante duro

e esse instante será desarmado em meu peito.

Radiosa me sorris

e minha boca fere.

Não sou um pastor doce

como em contos de fadas,

mas um lenhador que comparte contigo

terras, vento e espinhos das montanhas.

Dá-me amor, me sorri

e me ajuda a ser bom.

Não te firas em mim, seria inútil,

não me firas a mim porque te feres.

***

Pablo Neruda

29/08/2009

O Carteiro e o Poeta (Il postino, 1994)



Por razões políticas, o poeta Pablo Neruda (Philippe Noiret) exila-se em uma remota ilha na Itália. Lá um desempregado quase analfabeto, Mario (Massimo Troisi) é contratado como carteiro extra, encarregado de cuidar da correspondência do poeta, e gradativamente entre os dois se forma uma sólida amizade. Neruda então o ajuda a conquistar seu grande amor, a bela Beatrice Russo (Maria Grazia Cucinotta). O cenário italiano é deslumbrante e poético e a história, fictícia . Direção: Michael Radford.
Vencedor do Oscar de Melhor Trilha Sonora - Drama.

Minha nota: ****
http://www.youtube.com/watch?v=CbGKKsf3_ag

"De otro. Será de otro. Como antes de mis besos.
Su voz, su cuerpo claro. Sus ojos infinitos.
Ya no la quiero, es cierto, pero tal vez la quiero.
Es tan corto el amor, y es tan largo el olvido.
Porque en noches como esta la tuve entre mis brazos,
mi alma no se contenta con haberla perdido.
Aunque éste sea el último dolor que ella me causa,
y éstos sean los últimos versos que yo le escribo."

Pablo Neruda

28/08/2009

Feitiço do Tempo (Groundhog day, 1993)

O arrogante repórter de televisão Phil Connors (Bill Murray), que faz previsões metereológicas em Pittsburg, vai a uma pequena cidade para fazer uma matéria especial sobre o inverno e o Dia da Marmota, mas fica preso no tempo. Comédia de humor ácido sobre uma pessoa arrogante, mal-humorada e mal-educada com os subalternos, como a produtora Rita (Andie MacDowell). Há quem veja nela mais que um filme, e sim uma filosofia... 

Minha nota: ****

27/08/2009

Contemplo o lago mudo
Que uma brisa estremece.
Não sei se penso em tudo
Ou se tudo me esquece.
O lago nada me diz,
Não sinto a brisa mexê-lo.
Não sei se sou feliz
Nem se desejo sê-lo.

Trêmulos vincos risonhos
Na água adormecida.
Por que fiz eu dos sonhos
A minha única vida?
*****************
Fernando Pessoa, 4-8-1930

A Morada da Sexta Felicidade (The Inn of the Sixth Happiness, EUA, 1958).


Este filme, espetacularmente produzido, é magnificamente interpretado por Ingrid Bergman, baseado na história verdadeira da inglesa Gladys Aylward, uma santa dos dias modernos, cuja paixão irredutível por fazer o bem a levou a atravessar meio mundo. Inspirada por seu sonho de tornar-se missionária, uma simples empregada viaja para a China, nos anos 30, e vai trabalhar em uma hospedaria para viajantes cansados e famintos que atravessam as desoladas trilhas nas montanhas.


Ela consegue vencer a hostilidade dos habitantes locais, ganhar o amor de um coronel eurasiano, Lin Na (Curt Jurgens), e converter um poderoso mandarim (Robert Donat) ao cristianismo. Mas seu grande feito acontece quando, durante a invasão japonesa da China, ela consegue levar uma centena de crianças sem lar a um local seguro, atravessando território dominado pelo inimigo. Para os chineses, deparamos no filme, cinco são as felicidades: a riqueza, a longevidade, a paz, a virtude e a saúde. A sexta felicidade seria essa hospedaria que centraliza o filme.


Forte e tocante, este filme inspirador foi adaptado do 'best seller' de Alan Burgess chamado The Small Woman.

26/08/2009

As Minhas Mãos


As Minhas Mãos


As minhas mãos magritas, afiladas,

Tão brancas como a água da nascente,

Lembram pálidas rosas entornadas

Dum regaço de Infanta do Oriente.


Mãos de ninfa, de fada, de vidente,

Pobrezinhas em sedas enroladas,

Virgens mortas em luz amortalhadas

Pelas próprias mãos de oiro do sol-poente.


Magras e brancas... Foram assim feitas...

Mãos de enjeitada porque tu me enjeitas...

Tão doces que elas são! Tão a meu gosto!


Pra que as quero eu - Deus! - Pra que as quero eu?!

Ó minhas mãos, aonde está o céu? ...

Aonde estão as linhas do teu rosto?



Florbela Espanca, in "Charneca em Flor"
Crédito da imagem: http://www.gettyimage.com/

25/08/2009

O nosso livro


Livro do meu amor, do teu amor,

Livro do nosso amor , do nosso peito...

Abre-lhe as folhas devagar, com jeito,

Como se fossem pétalas de flor.

.

Olha que eu outro já não sei compor

Mais santamente triste, mais perfeito

Não esfolhes os lírios com que é feito

Que outros não tenho em meu jardim de dor!

.

Livro de mais ninguém! Só meu! Só teu!

Num sorriso tu dizes e digo eu:

Versos só nossos mas que lindos sois!

.

Ah! meu Amor! Mas quanta, quanta gente

Dirá, fechando o livro docemente:

"Versos só nossos, só de nós os dois!"

.

Florbela Espanca
Imagem: gettyimages.com

24/08/2009

Há...


Há quanto tempo não canto
Na muda voz de sentir.
E tenho sofrido tanto
Que chorar fora sorrir.

Há quanto tempo não sinto
De maneira ao descrever,
Nem em ritmos vivos minto
O que não quero dizer...

Há quanto tempo me fecho
À chave dentro de mim.
E é porque já não me queixo
Que as queixas não têm fim.

Há quanto tempo assim duro
Sem vontade de falar!
Já estou amigo do escuro
Não quero o sal nem o ar.

Foi-me tão pesada e crescida
A tristeza que ficou
Que ficou toda a vida
Para cantar não sonhou.
.
Fernando Pessoa

23/08/2009

Angústia


Tortura do pensar! Triste lamento!

Quem nos dera calar a tua voz!

Quem nos dera cá dentro, muito a sós,

Estrangular a hidra num momento!

.

E não se quer pensar!...e o pensamento

Sempre a morder-nos bem, dentro de nós...

Querer apagar no céu - ó sonho atroz! -

O brilho duma estrela, com o vento!...

.

E não se apaga, não...nada se apaga!

Vem sempre rastejando como a vaga...

Vem sempre perguntando: "O que te resta?...

.


Ah! não ser mais que o vago, o infinito!

Ser pedaço de gelo, ser granito,

Ser rugido de tigre na floresta!

.

Florbela Espanca

21/08/2009

NEURASTENIA

(Cattleya amethistoglossa )
...

Sinto hoje a alma cheia de tristeza!

Um sino dobra em mim Ave-Marias!

Lá fora, a chuva, brancas mãos esguias,

Faz na vidraça rendas de Veneza...

.

O vento desgrenhado chora e reza

Por alma dos que estão nas agonias!

E flocos de neve, aves brancas, frias,

Batem as asas pela Natureza...

.

Chuva...tenho tristeza! Mas porquê?!

Vento...tenho saudades! Mas de quê?!

Ó neve que destino triste o nosso!

.

Ó chuva! Ó vento! Ó neve! Que tortura!

Gritem ao mundo inteiro esta amargura,

Digam isto que sinto que eu não posso !!...

...

Florbela Espanca

...

20/08/2009

Amor

Quadro de : Sergio Fingermann
.
Quem diz que Amor é falso ou enganoso,

Ligeiro, ingrato, vão desconhecido,

Sem falta lhe terá bem merecido

Que lhe seja cruel ou rigoroso.

.



Amor é brando, é doce, e é piedoso.

Quem o contrário diz não seja crido;

Seja por cego e apaixonado tido,

E aos homens, e inda aos Deuses, odioso.



.

Se males faz Amor em mim se vêem;

Em mim mostrando todo o seu rigor,

Ao mundo quis mostrar quanto podia.



.

Mas todas suas iras são de Amor;

Todos os seus males são um bem,

Que eu por todo outro bem não trocaria.

.

Luís de Camões

19/08/2009

A minha dor

A minha Dor é um convento ideal
Cheio de claustros, sombras, arcarias,
Aonde a pedra em convulsões sombrias
Tem linhas dum requinte escultural.
.
Os sinos têm dobres de agonias
Ao gemer, comovidos, o seu mal...
E todos têm sons de funeral
Ao bater horas, no correr dos dias...
.
A minha Dor é um convento. Há lírios
Dum roxo macerado de martírios,
Tão belos como nunca os viu alguém!
.
Nesse triste convento aonde eu moro,
Noites e dias rezo e grito e choro,
E ninguém ouve...ninguém vê...ninguém...
.
Florbela Espanca

18/08/2009

(Florada no campo - Malu Delibo - Arte Naif )
.
.
Como nuvens pelo céu

Passam os sonhos por mim.

Nenhum dos sonhos é meu

Embora eu os sonhe assim.

.
São coisas no alto que são

Enquanto a vista as conhece,

Depois são sombras que vão

Pelo campo que arrefece.

.
Símbolos? Sonhos? Quem torna

Meu coração ao que foi?

Que dor de mim me transtorna?

Que coisa inútil me dói?

.
Fernando Pessoa, 17-6-1932

17/08/2009


Aqueles que me têm muito amor

Não sabem o que sinto e o que sou...

Não sabem que passou, um dia, a Dor

À minha porta e, nesse dia, entrou.

.


E é desde então que eu sinto este pavor,

Este frio que anda em mim, e que gelou

O que de bom me deu Nosso Senhor!

Se eu nem sei por onde ando e onde vou!!

.


Sinto os passos de Dor, essa cadência

Que é já tortura infinda, que é demência!

Que é já vontade doida de gritar!

.


E é sempre a mesma mágoa, o mesmo tédio,

A mesma angústia funda, sem remédio,

Andando atrás de mim, sem me largar!

.

Florbela Espanca

16/08/2009

A minha vida é um barco abandonado

(A PONTE EM LANGLOIS - 1888, Van Gogh)



A minha vida é um barco abandonado

Infiel, no ermo porto, ao seu destino.

Por que não ergue ferro e segue o atino

De navegar, casado com o seu fado ?

.
Ah! falta quem o lance ao mar, e alado

Torne seu vulto em velas; peregrino

Frescor de afastamento, no divino

Amplexo da manhã, puro e salgado.

.

Morto corpo da ação sem vontade

Que o viva, vulto estéril de viver,

Boiando à tona inútil da saudade.

.
Os limos esverdeiam tua quilha,

O vento embala-te sem te mover,

E é para além do mar a ansiada Ilha.
.

Fernando Pessoa


O que me dói não é

O que há no coração

Mas essas coisas lindas

Que nunca existirão...

.
São as formas sem forma

Que passam sem que a dor

As possa conhecer

Ou as sonhar o amor.
.

São como se a tristeza

Fosse árvore e, uma a uma,

Caíssem suas folhas

Entre o vestígio e a bruma.

.

Fernando Pessoa

15/08/2009

Selo: Seu blog é mágico!


Recebi este selinho do Fabio Souza, do blog: http://fazinhu.blogspot.com/.

Regras:
1- Postar o selinho e as regras.
2- Responder às perguntas:
- Uma música mágica: Amor perfeito.
- Um filme mágico: A morada da sexta felicidade.
- Uma viagem mágica: a da minha mente (onde posso ser tudo e ter tudo que sonho).
- Um acessório de maquiagem básico: batom.
3-Indicar o selinho para 5 blogs mágicos.

Amor é fogo que arde sem se ver


Amor é fogo que arde sem se ver;

É ferida que dói e não se sente;

É um contentamento descontente;

É dor que desatina sem doer;


É um não querer mais que bem querer;

É solitário andar por entre a gente;

É nunca contentar-se de contente;

É cuidar que se ganha em se perder;


É querer estar preso por vontade;

É servir a quem vence, o vencedor;

É ter com quem nos mata lealdade.


Mas como causar pode seu favor

Nos corações humanos amizade,

Se tão contrário a si é o mesmo Amor?

.

Luís de Camões

14/08/2009

SONETO XXVIII


SONETO XXVIII

As minhas cartas! Todas elas frio,

mudo e morto papel! No entanto agora

Lendo-as, entre as mãos trêmulas o fio

da vida eis que retomo hora por hora.


Nesta queria ver-me — era no estio

—Como amiga a seu lado... Nesta implora

Vir e as mãos me tomar... Tão simples! Li-o

E chorei. Nesta diz quanto me adora.


Nesta confiou: sou teu, e empalidece

A tinta no papel, tanto o apertara

Ao meu peito que todo inda estremece!


Mas uma... Ó meu amor, o que me disse

Não digo. Que bem mal me aproveitara,

Se o o que então me disseste eu repetisse...
.
Elizabeth Barret Browning

Tradução: Manuel Bandeira

13/08/2009

Sonetos Portugueses XIV (Elizabeth B . Browning)


Ama-me por amor do amor somente.

Não digas: “Amo-a pelo seu olhar,

o seu sorriso, o modo de falar

honesto e brando. Amo-a porque se sente
.

minh’alma em comunhão constantemente

com a sua”. Por que pode mudar

isso tudo, em si mesmo, ao perpassar

do tempo, ou para ti unicamente.
.

Nem me ames pelo pranto que a bondade

de tuas mãos enxuga, pois se em mim

secar, por teu conforto, esta vontade
.
de chorar, teu amor pode ter fim!

Ama-me por amor do amor, e assim

me hás de querer por toda a eternidade.

.

Elizabeth Barrett Browning

Tradução: Manuel Bandeira

05/08/2009

Aonde


Aonde
.

Ando a chamar por ti, demente, alucinada,
Aonde estás, amor? Aonde… aonde… aonde?…
O eco ao pé de mim segreda… desgraçada…
E só a voz do eco, irônica, responde!
.
Estendo os braços meus! Chamo por ti ainda!
O vento, aos meus ouvidos, soluça a murmurar;
Parece a tua voz, a tua voz tão linda
Cantando como um rio banhado de luar!
.
Eu grito a minha dor, a minha dor intensa!
Esta saudade enorme, esta saudade imensa!
E só a voz do eco à minha voz responde…
.
Em gritos, a chorar, soluço o nome teu
E grito ao mar, à terra, ao puro azul do céu:
Aonde estás, amor? Aonde… aonde… aonde?…

.
Florbela Espanca.

04/08/2009

O Curioso Caso de Benjamin Button (The Curious Case of Benjamin Button, 2008)


Na Nova Orleans de 1918, nasceu Benjamin Button (Brad Pitt, na fase adulta; Charles Henry Wyson, Chandler Canterbury e Spencer Daniels), com a aparência e doenças de uma pessoa em torno dos oitenta anos. Ao invés de envelhecer com o passar do tempo, Button rejuvenesce. Quando ainda criança ele conhece Daisy (Cate Blanchett), da mesma idade que ele, por quem se apaixona. É preciso esperar que Daisy cresça, tornando-se uma mulher, e que Benjamin rejuvenesça para que, quando tiverem idades parecidas, possam enfim se envolver.

02/08/2009

Melancolia


Ah quanta melancolia!
Quanta, quanta solidão!
Aquela alma, que vazia,
Que sinto inútil e fria
Dentro do meu coração!
.
Que angústia desesperada!
Que mágoa que sabe a fim!
Se a nau foi abandonada,
E o cego caiu na estrada -
Deixai-os, que é tudo assim.
.
Sem sossego, sem sossego,
Nenhum momento de meu
Onde for que a alma emprego
-Na estrada morreu o cego
A nau desapareceu.
.
Fernando Pessoa, 3-9-1924
.

01/08/2009

Flans de manga


Créditos: Editora Escala.