31/08/2009

O Poço


Cais,

às vezes, afundas

em teu fosso de silêncio,

em teu abismo de orgulhosa cólera,

e mal consegues

voltar, trazendo restos

do que achaste

pelas profunduras da tua existência.

Meu amor, o que encontras

em teu poço fechado?
Algas, pântanos, rochas?

O que vês, de olhos cegos,

rancorosa e ferida?

Não acharás, amor,

no poço em que cais

o que na altura guardo para ti:

um ramo de jasmins todo orvalhado,

um beijo mais profundo que esse abismo.

Não me temas, não caias

de novo em teu rancor.

Sacode a minha palavra que te veio ferir

e deixa que ela voe pela janela aberta.

Ela voltará a ferir-me

sem que tu a dirijas,

porque foi carregada com um instante duro

e esse instante será desarmado em meu peito.

Radiosa me sorris

e minha boca fere.

Não sou um pastor doce

como em contos de fadas,

mas um lenhador que comparte contigo

terras, vento e espinhos das montanhas.

Dá-me amor, me sorri

e me ajuda a ser bom.

Não te firas em mim, seria inútil,

não me firas a mim porque te feres.

***

Pablo Neruda

29/08/2009

O Carteiro e o Poeta (Il postino, 1994)



Por razões políticas, o poeta Pablo Neruda (Philippe Noiret) exila-se em uma remota ilha na Itália. Lá um desempregado quase analfabeto, Mario (Massimo Troisi) é contratado como carteiro extra, encarregado de cuidar da correspondência do poeta, e gradativamente entre os dois se forma uma sólida amizade. Neruda então o ajuda a conquistar seu grande amor, a bela Beatrice Russo (Maria Grazia Cucinotta). O cenário italiano é deslumbrante e poético e a história, fictícia . Direção: Michael Radford.
Vencedor do Oscar de Melhor Trilha Sonora - Drama.

Minha nota: ****
http://www.youtube.com/watch?v=CbGKKsf3_ag

"De otro. Será de otro. Como antes de mis besos.
Su voz, su cuerpo claro. Sus ojos infinitos.
Ya no la quiero, es cierto, pero tal vez la quiero.
Es tan corto el amor, y es tan largo el olvido.
Porque en noches como esta la tuve entre mis brazos,
mi alma no se contenta con haberla perdido.
Aunque éste sea el último dolor que ella me causa,
y éstos sean los últimos versos que yo le escribo."

Pablo Neruda

28/08/2009

Feitiço do Tempo (Groundhog day, 1993)

O arrogante repórter de televisão Phil Connors (Bill Murray), que faz previsões metereológicas em Pittsburg, vai a uma pequena cidade para fazer uma matéria especial sobre o inverno e o Dia da Marmota, mas fica preso no tempo. Comédia de humor ácido sobre uma pessoa arrogante, mal-humorada e mal-educada com os subalternos, como a produtora Rita (Andie MacDowell). Há quem veja nela mais que um filme, e sim uma filosofia... 

Minha nota: ****

27/08/2009

Contemplo o lago mudo
Que uma brisa estremece.
Não sei se penso em tudo
Ou se tudo me esquece.
O lago nada me diz,
Não sinto a brisa mexê-lo.
Não sei se sou feliz
Nem se desejo sê-lo.

Trêmulos vincos risonhos
Na água adormecida.
Por que fiz eu dos sonhos
A minha única vida?
*****************
Fernando Pessoa, 4-8-1930

A Morada da Sexta Felicidade (The Inn of the Sixth Happiness, EUA, 1958).


Este filme, espetacularmente produzido, é magnificamente interpretado por Ingrid Bergman, baseado na história verdadeira da inglesa Gladys Aylward, uma santa dos dias modernos, cuja paixão irredutível por fazer o bem a levou a atravessar meio mundo. Inspirada por seu sonho de tornar-se missionária, uma simples empregada viaja para a China, nos anos 30, e vai trabalhar em uma hospedaria para viajantes cansados e famintos que atravessam as desoladas trilhas nas montanhas.


Ela consegue vencer a hostilidade dos habitantes locais, ganhar o amor de um coronel eurasiano, Lin Na (Curt Jurgens), e converter um poderoso mandarim (Robert Donat) ao cristianismo. Mas seu grande feito acontece quando, durante a invasão japonesa da China, ela consegue levar uma centena de crianças sem lar a um local seguro, atravessando território dominado pelo inimigo. Para os chineses, deparamos no filme, cinco são as felicidades: a riqueza, a longevidade, a paz, a virtude e a saúde. A sexta felicidade seria essa hospedaria que centraliza o filme.


Forte e tocante, este filme inspirador foi adaptado do 'best seller' de Alan Burgess chamado The Small Woman.

26/08/2009

As Minhas Mãos


As Minhas Mãos


As minhas mãos magritas, afiladas,

Tão brancas como a água da nascente,

Lembram pálidas rosas entornadas

Dum regaço de Infanta do Oriente.


Mãos de ninfa, de fada, de vidente,

Pobrezinhas em sedas enroladas,

Virgens mortas em luz amortalhadas

Pelas próprias mãos de oiro do sol-poente.


Magras e brancas... Foram assim feitas...

Mãos de enjeitada porque tu me enjeitas...

Tão doces que elas são! Tão a meu gosto!


Pra que as quero eu - Deus! - Pra que as quero eu?!

Ó minhas mãos, aonde está o céu? ...

Aonde estão as linhas do teu rosto?



Florbela Espanca, in "Charneca em Flor"
Crédito da imagem: http://www.gettyimage.com/

25/08/2009

O nosso livro


Livro do meu amor, do teu amor,

Livro do nosso amor , do nosso peito...

Abre-lhe as folhas devagar, com jeito,

Como se fossem pétalas de flor.

.

Olha que eu outro já não sei compor

Mais santamente triste, mais perfeito

Não esfolhes os lírios com que é feito

Que outros não tenho em meu jardim de dor!

.

Livro de mais ninguém! Só meu! Só teu!

Num sorriso tu dizes e digo eu:

Versos só nossos mas que lindos sois!

.

Ah! meu Amor! Mas quanta, quanta gente

Dirá, fechando o livro docemente:

"Versos só nossos, só de nós os dois!"

.

Florbela Espanca
Imagem: gettyimages.com

24/08/2009

Há...


Há quanto tempo não canto
Na muda voz de sentir.
E tenho sofrido tanto
Que chorar fora sorrir.

Há quanto tempo não sinto
De maneira ao descrever,
Nem em ritmos vivos minto
O que não quero dizer...

Há quanto tempo me fecho
À chave dentro de mim.
E é porque já não me queixo
Que as queixas não têm fim.

Há quanto tempo assim duro
Sem vontade de falar!
Já estou amigo do escuro
Não quero o sal nem o ar.

Foi-me tão pesada e crescida
A tristeza que ficou
Que ficou toda a vida
Para cantar não sonhou.
.
Fernando Pessoa

23/08/2009

Angústia


Tortura do pensar! Triste lamento!

Quem nos dera calar a tua voz!

Quem nos dera cá dentro, muito a sós,

Estrangular a hidra num momento!

.

E não se quer pensar!...e o pensamento

Sempre a morder-nos bem, dentro de nós...

Querer apagar no céu - ó sonho atroz! -

O brilho duma estrela, com o vento!...

.

E não se apaga, não...nada se apaga!

Vem sempre rastejando como a vaga...

Vem sempre perguntando: "O que te resta?...

.


Ah! não ser mais que o vago, o infinito!

Ser pedaço de gelo, ser granito,

Ser rugido de tigre na floresta!

.

Florbela Espanca

21/08/2009

NEURASTENIA

(Cattleya amethistoglossa )
...

Sinto hoje a alma cheia de tristeza!

Um sino dobra em mim Ave-Marias!

Lá fora, a chuva, brancas mãos esguias,

Faz na vidraça rendas de Veneza...

.

O vento desgrenhado chora e reza

Por alma dos que estão nas agonias!

E flocos de neve, aves brancas, frias,

Batem as asas pela Natureza...

.

Chuva...tenho tristeza! Mas porquê?!

Vento...tenho saudades! Mas de quê?!

Ó neve que destino triste o nosso!

.

Ó chuva! Ó vento! Ó neve! Que tortura!

Gritem ao mundo inteiro esta amargura,

Digam isto que sinto que eu não posso !!...

...

Florbela Espanca

...

20/08/2009

Amor

Quadro de : Sergio Fingermann
.
Quem diz que Amor é falso ou enganoso,

Ligeiro, ingrato, vão desconhecido,

Sem falta lhe terá bem merecido

Que lhe seja cruel ou rigoroso.

.



Amor é brando, é doce, e é piedoso.

Quem o contrário diz não seja crido;

Seja por cego e apaixonado tido,

E aos homens, e inda aos Deuses, odioso.



.

Se males faz Amor em mim se vêem;

Em mim mostrando todo o seu rigor,

Ao mundo quis mostrar quanto podia.



.

Mas todas suas iras são de Amor;

Todos os seus males são um bem,

Que eu por todo outro bem não trocaria.

.

Luís de Camões

19/08/2009

A minha dor

A minha Dor é um convento ideal
Cheio de claustros, sombras, arcarias,
Aonde a pedra em convulsões sombrias
Tem linhas dum requinte escultural.
.
Os sinos têm dobres de agonias
Ao gemer, comovidos, o seu mal...
E todos têm sons de funeral
Ao bater horas, no correr dos dias...
.
A minha Dor é um convento. Há lírios
Dum roxo macerado de martírios,
Tão belos como nunca os viu alguém!
.
Nesse triste convento aonde eu moro,
Noites e dias rezo e grito e choro,
E ninguém ouve...ninguém vê...ninguém...
.
Florbela Espanca

18/08/2009

(Florada no campo - Malu Delibo - Arte Naif )
.
.
Como nuvens pelo céu

Passam os sonhos por mim.

Nenhum dos sonhos é meu

Embora eu os sonhe assim.

.
São coisas no alto que são

Enquanto a vista as conhece,

Depois são sombras que vão

Pelo campo que arrefece.

.
Símbolos? Sonhos? Quem torna

Meu coração ao que foi?

Que dor de mim me transtorna?

Que coisa inútil me dói?

.
Fernando Pessoa, 17-6-1932

17/08/2009


Aqueles que me têm muito amor

Não sabem o que sinto e o que sou...

Não sabem que passou, um dia, a Dor

À minha porta e, nesse dia, entrou.

.


E é desde então que eu sinto este pavor,

Este frio que anda em mim, e que gelou

O que de bom me deu Nosso Senhor!

Se eu nem sei por onde ando e onde vou!!

.


Sinto os passos de Dor, essa cadência

Que é já tortura infinda, que é demência!

Que é já vontade doida de gritar!

.


E é sempre a mesma mágoa, o mesmo tédio,

A mesma angústia funda, sem remédio,

Andando atrás de mim, sem me largar!

.

Florbela Espanca

16/08/2009

A minha vida é um barco abandonado

(A PONTE EM LANGLOIS - 1888, Van Gogh)



A minha vida é um barco abandonado

Infiel, no ermo porto, ao seu destino.

Por que não ergue ferro e segue o atino

De navegar, casado com o seu fado ?

.
Ah! falta quem o lance ao mar, e alado

Torne seu vulto em velas; peregrino

Frescor de afastamento, no divino

Amplexo da manhã, puro e salgado.

.

Morto corpo da ação sem vontade

Que o viva, vulto estéril de viver,

Boiando à tona inútil da saudade.

.
Os limos esverdeiam tua quilha,

O vento embala-te sem te mover,

E é para além do mar a ansiada Ilha.
.

Fernando Pessoa


O que me dói não é

O que há no coração

Mas essas coisas lindas

Que nunca existirão...

.
São as formas sem forma

Que passam sem que a dor

As possa conhecer

Ou as sonhar o amor.
.

São como se a tristeza

Fosse árvore e, uma a uma,

Caíssem suas folhas

Entre o vestígio e a bruma.

.

Fernando Pessoa

15/08/2009

Selo: Seu blog é mágico!


Recebi este selinho do Fabio Souza, do blog: http://fazinhu.blogspot.com/.

Regras:
1- Postar o selinho e as regras.
2- Responder às perguntas:
- Uma música mágica: Amor perfeito.
- Um filme mágico: A morada da sexta felicidade.
- Uma viagem mágica: a da minha mente (onde posso ser tudo e ter tudo que sonho).
- Um acessório de maquiagem básico: batom.
3-Indicar o selinho para 5 blogs mágicos.

Amor é fogo que arde sem se ver


Amor é fogo que arde sem se ver;

É ferida que dói e não se sente;

É um contentamento descontente;

É dor que desatina sem doer;


É um não querer mais que bem querer;

É solitário andar por entre a gente;

É nunca contentar-se de contente;

É cuidar que se ganha em se perder;


É querer estar preso por vontade;

É servir a quem vence, o vencedor;

É ter com quem nos mata lealdade.


Mas como causar pode seu favor

Nos corações humanos amizade,

Se tão contrário a si é o mesmo Amor?

.

Luís de Camões

14/08/2009

SONETO XXVIII


SONETO XXVIII

As minhas cartas! Todas elas frio,

mudo e morto papel! No entanto agora

Lendo-as, entre as mãos trêmulas o fio

da vida eis que retomo hora por hora.


Nesta queria ver-me — era no estio

—Como amiga a seu lado... Nesta implora

Vir e as mãos me tomar... Tão simples! Li-o

E chorei. Nesta diz quanto me adora.


Nesta confiou: sou teu, e empalidece

A tinta no papel, tanto o apertara

Ao meu peito que todo inda estremece!


Mas uma... Ó meu amor, o que me disse

Não digo. Que bem mal me aproveitara,

Se o o que então me disseste eu repetisse...
.
Elizabeth Barret Browning

Tradução: Manuel Bandeira

13/08/2009

Sonetos Portugueses XIV (Elizabeth B . Browning)


Ama-me por amor do amor somente.

Não digas: “Amo-a pelo seu olhar,

o seu sorriso, o modo de falar

honesto e brando. Amo-a porque se sente
.

minh’alma em comunhão constantemente

com a sua”. Por que pode mudar

isso tudo, em si mesmo, ao perpassar

do tempo, ou para ti unicamente.
.

Nem me ames pelo pranto que a bondade

de tuas mãos enxuga, pois se em mim

secar, por teu conforto, esta vontade
.
de chorar, teu amor pode ter fim!

Ama-me por amor do amor, e assim

me hás de querer por toda a eternidade.

.

Elizabeth Barrett Browning

Tradução: Manuel Bandeira

05/08/2009

Aonde


Aonde
.

Ando a chamar por ti, demente, alucinada,
Aonde estás, amor? Aonde… aonde… aonde?…
O eco ao pé de mim segreda… desgraçada…
E só a voz do eco, irônica, responde!
.
Estendo os braços meus! Chamo por ti ainda!
O vento, aos meus ouvidos, soluça a murmurar;
Parece a tua voz, a tua voz tão linda
Cantando como um rio banhado de luar!
.
Eu grito a minha dor, a minha dor intensa!
Esta saudade enorme, esta saudade imensa!
E só a voz do eco à minha voz responde…
.
Em gritos, a chorar, soluço o nome teu
E grito ao mar, à terra, ao puro azul do céu:
Aonde estás, amor? Aonde… aonde… aonde?…

.
Florbela Espanca.

04/08/2009

O Curioso Caso de Benjamin Button (The Curious Case of Benjamin Button, 2008)


Na Nova Orleans de 1918, nasceu Benjamin Button (Brad Pitt, na fase adulta; Charles Henry Wyson, Chandler Canterbury e Spencer Daniels), com a aparência e doenças de uma pessoa em torno dos oitenta anos. Ao invés de envelhecer com o passar do tempo, Button rejuvenesce. Quando ainda criança ele conhece Daisy (Cate Blanchett), da mesma idade que ele, por quem se apaixona. É preciso esperar que Daisy cresça, tornando-se uma mulher, e que Benjamin rejuvenesça para que, quando tiverem idades parecidas, possam enfim se envolver.

02/08/2009

Melancolia


Ah quanta melancolia!
Quanta, quanta solidão!
Aquela alma, que vazia,
Que sinto inútil e fria
Dentro do meu coração!
.
Que angústia desesperada!
Que mágoa que sabe a fim!
Se a nau foi abandonada,
E o cego caiu na estrada -
Deixai-os, que é tudo assim.
.
Sem sossego, sem sossego,
Nenhum momento de meu
Onde for que a alma emprego
-Na estrada morreu o cego
A nau desapareceu.
.
Fernando Pessoa, 3-9-1924
.

01/08/2009

Flans de manga


Créditos: Editora Escala.

31/07/2009

" Sobre a Esperança... "


" Sobre a Esperança... "
************************
Os olhos dele
dos olhos dela
um segundo que fosse, não se separavam,
como se quisessem acender as chamas que vacilavam
com a luz da própria Vida...
E a chama dos olhos dela, vacilantes, na noite
de vigília, sem dormida,
eram como as chamas no pavio das velas
quando o vento abre as janelas..."
.
J. G. de Araújo Jorge (" AMO ! " ,1ª edição, 1938 )
.
Quadro: A Estrela, Edgar Degas.

30/07/2009

SAUDADE ESTÉRIL



SAUDADE ESTÉRIL
A saudade comum, essa consiste
em nos rememorar cada momento,
um quer que seja, cujo afastamento
pungindo-nos o peito, o torna triste.
.
Outra saudade, todavia, existe
que nos agita. Vem do firmamento
que nos clarões do luar, e o pensamento,
por mais firme e tenaz, lhe não resiste.
.
É a saudade de ignotas primaveras,
é a saudade de quadros incriados,
é a saudade de coisas nunca tidas.
.
É a saudade infecunda das esferas,
onde os astros rolaram, conglobados,
desde as fundas idades escondidas.
.
Narciso da Costa Araújo(1877/1944)

24/07/2009

" A Vida "

I
"...Mudarás, todos mudam, e os espinhos
com surpresa verás por todo lado,
- são assim nesta vida os seus caminhos
desde que o homem no mundo tem andado...

Não hás de ser o eterno namorado
com as mãos e os lábios cheios de carinho,
- hoje, juntos os dois... tudo encantado!
- amanhã, tudo triste... os dois sozinhos!...

E sentindo o teu braço então vazio,
abatido verás que não resistes
à inclemência do tempo úmido e frio!

Rolarás por escarpas e barrancos:
sobre o epitáfio dos teus olhos tristes
trazendo a campa dos cabelos brancos!"

I I
" . . .Tem sido assim e assim será... Mais tarde
o que hoje pensas chamarás: - quimera!
E esse esplendor que nos teus olhos arde,
será a visão de extinta primavera...

Escondido à traição, como uma fera,
bem em silêncio, e sem fazer alarde,
o Destino que é mau e que é covarde,
naquela sombra adiante já te espera!

E num requinte de perversidade
faz de cada ilusão, de cada sonho,
a ruína de uma dor... e uma saudade...

E se voltares, notarás então
desesperado, ao teu olhar tristonho
que em vão sonhaste... e que viveste em vão!..."

I I I...
A vida é assim, segue e verás, - a vida
é um dia de esperança, um longo poente
de incertezas cruéis, e finalmente
a grande noite estranha e dolorida...

Hoje o sol, hoje a luz, hoje contente
a estrada a percorrer suave e florida...
- amanhã, pela sombra, inutilmente
outra sombra a vagar, triste e perdida...

A vida é assim, é um dia de esperança
uma réstia de luz entre dois ramos
que a noite envolve cedo, sem tardança...

E enquanto as sombras chegam,
nós, ao vê-las,ainda somos felizes e encontramos
a saudade infinita das estrelas!..."

IV"
...A vida é assim, uma ânsia... feito a vaga
que se ergue e rola a espumejar na areia,
- apor esse bem que a tua mão semeia
espera o mal que ainda terás por paga!

A essa hora boa que te agrada e enleia
sucede uma outra torturante e aziaga,
- a vida é assim... um canto de sereia
que à morte nos convida, e nos afaga...

O teu sonho melhor bem pouco dura,
e há sempre "um amanhã" cheio de dor
para "um hoje" nem sempre de ventura...

Toma entre as mãos o búzio da alegria
e surpreso verás que no interior
canta profunda e imensa nostalgia!..."

V
Isso tudo nos dizem, - entretanto
nós dois seguimos de braços dados,
creio que se tu sabes que te adoro tanto
do que ouviste talvez não tens receio...

A vida, - é o nosso amor, o nosso encanto!
Nem a podemos mais parar no meio...
Chorar? - bem sei que choras, mas teu pranto
é a alegria que canta no teu seio...

O mundo é bom e nós o cremos, basta!
E se um amor tão grande nos enleva
e pela vida unidos nos arrasta,

- que eu te abrace e te apoies sempre em mim,
e desafiando o mundo envolto em treva
sigamos juntos para um mesmo fim!

Poema de J. G. de Araújo Jorge ("Os Mais Belos Poemas Que O Amor Inspirou", Vol. I)

" Chuva"

(Effect de neige a Vetheuil, Claude Monet)



" Chuva"

Há tanto tempo que não chove assim!

O dia veste um céu triste e cinzento,
e ouço a chuva a cair como um lamento
no seu rumor monótono... sem fim...

Que estranha sensação de isolamento!
-Nem uma voz ouço ao redor de mim,
escuto apenas lá por fora, o vento
a desfolhar as flores no jardim...

Ninguém ao meu redor... ninguém me fala...
- e me deixo a ficar num tédio imenso,
na tóxica penumbra desta sala...

Que inquietude vazia há dentro de mim!
-Não sei se existo... não sei bem se penso...

Há tanto tempo não chove assim!

J.G. de Araújo Jorge ("Bazar de Ritmos", 1ª edição, 1935)

23/07/2009

" Por Quê ? "

(Quadro: Casa Azul, de Frida Kahlo)
.
.


"Foi tudo uma surpresa, tudo de repente,


talvez nenhum de nós saiba explicar porque,


- você deixou de ser o que era antigamente


e o que era antigamente eu já não sou, se vê...





Eu era um seu amigo. E pra mim, você


por muito tempo foi a amiga e a confidente,


- deixei-a ler, assim como um cigano lê


nas mãos, toda a minha alma indiferentemente...





Por muito tempo, os dois, felizes, nos julgamos,


até que certo dia... (e eu não lhe disse nada


nem você disse nada) nós nos afastamos...





Hoje você me evita... Hoje evito a você...


E seguimos então, cada um por sua estrada


sem que nenhum de nós saiba explicar porque..."





J. G. de Araújo Jorge (" AMO ! ", 1a edição, 1938 )

21/07/2009

Bilhete




Se tu me amas, ama-me baixinho.

Não o grites de cima dos telhados.

Deixa em paz os passarinhos

Deixa em paz a mim!

Se me queres,enfim,

tem de ser bem devagarinho, Amada,

que a vida é breve, e o amor mais breve ainda...


Mário Quintana

20/07/2009

Meu Destino.


Meu Destino.

Nas palmas de tuas mãos
leio as linhas da minha vida.
Linhas cruzadas, sinuosas,
interferindo no teu destino.
Não te procurei, não me procurastes
– íamos sozinhos por estradas diferentes.
Indiferentes, cruzamos.
Passavas com o fardo da vida...
Corri ao teu encontro.
Sorri. Falamos.
Esse dia foi marcado
com a pedra branca da cabeça de um peixe.
E, desde então, caminhamos
juntos pela vida...

Cora Coralina
Créditos da imagem: gettyimages.com

19/07/2009

De Longe Te Hei-de Amar


De longe te hei-de amar
- da tranquila distância
em que o amor é saudade
e o desejo, constância.

Do divino lugar
onde o bem da existência
é ser eternidade
e parecer ausência.

Quem precisa explicar
o momento e a fragrância
da Rosa, que persuade
sem nenhuma arrogância?

E, no fundo do mar,
a Estrela, sem violência,
cumpre a sua verdade,
alheia à transparência.

Cecília Meireles ("Canções")

18/07/2009

A Cabana


A Cabana, de William P. Young



Adoro ler. Sou viciada em livros desde meus oito anos, quando li "Viagem ao centro da terra", do Julio Verne, mas confesso que minhas escolhas nunca são comerciais, nem os livros da moda ou os que aparecem no topo de qualquer lista. Sou eclética, curiosa; gosto dos clássicos, gosto do Érico Veríssimo, do John Steinbeck, do Romain Rolland, do Philip Yancey, sou fã nº 1 do C.S. Lewis; gosto de poetas como Araújo Jorge, Cora Coralina, Cecília Meireles, Mario Quintana, Drummond, Florbela Espanca, Elizabeth Browning Barret e Manuel Bandeira...

Mas, depois de ver este livro tanto tempo em primeiro lugar em vendas, aqui e nos EUA, resolvi dar uma "chance". Comprei e li-o em menos de dois dias.

É um livro instigante, que quebra ideias preconcebidas e, acho eu, no meu modesto modo de pensar, por isso tem suscitado tantas críticas, prós e contras. Acabei de ler, ainda estou "digerindo" algumas partes, procurando na Bíblia respaldo para algumas novas ideias que o autor lança sobre quem é Deus (não é um velho de barba branca!), a Trindade (conceito não muito explícito na Bíblia), a Graça, o Perdão, a Reconciliação (a que não se segue necessariamente o perdão) e "otras cositas mas"...

Espero, aos poucos, entender melhor o que o autor quis transmitir, separar o joio do trigo...

"A incredulidade de alguns ateus está mais próxima do amor de Deus do que a fé fácil daqueles que, sem nunca tê-lo experimentado, penduram uma placa com o seu nome como se fosse uma fantasia infantil ou uma projeção do eu’". Simone Weil

17/07/2009

"Retrato"


"Retrato"


Eu não tinha este rosto de hoje,

assim calmo, assim triste, assim magro,

nem estes olhos tão vazios, nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,

tão paradas e frias e mortas;

eu não tinha este coração que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança, tão simples,

tão certa, tão fácil:

Em que espelho ficou perdida a minha face?"



Imagem: gettyimages.com

16/07/2009

15/07/2009

" Noturno n.º 1 "


Pela madrugada o rádio põe em surdina
um fundo musical de filme
em meu desespero.
E a serenidade da noite, impassível,
com sua felicidade de luar e estrelas
me faz mal,parece afrontar meu desejo impossível
e ainda me torna mais triste, mais sentimental...
Você está em todas as formas do pensamento,
no pensamento que conforma todas as coisas...
Em vão tento fugir com a música, tento evadir-me com a noite,
em vão!
Você é a música, a noite, você é tudo!
É a própria forma e o conteúdo
Da minha solidão...
*
J.G. de Araújo Jorge (" A Sós..." ,1a ed. ,1958 )

14/07/2009

Estrelas...

"Noite Estrelada", de Vincent Van Gogh.
-
"As pessoas têm estrelas que não são as mesmas. Para uns, que viajam, as estrelas são guias. Para outros, elas não passam de pequenas luzes. Para outros, os sábios, são problemas. Para o meu negociante, eram ouro. Mas todas essas estrelas se calam. Tu, porém, terás estrelas como ninguém...

Quero dizer: quando olhares o céu de noite, (porque habitarei uma delas e estarei rindo), então será como se todas as estrelas te rissem! E tu terás estrelas que sabem sorrir! Assim, tu te sentirás contente por me teres conhecido. Tu serás sempre meu amigo (basta olhar para o céu e estarei lá). Terás vontade de rir comigo. E abrirá, às vezes, a janela à toa, por gosto... e teus amigos ficarão espantados de ouvir-te rir olhando o céu. Sim, as estrelas, elas sempre me fazem rir!"
(Antoine de Saint-Exupèry, O Pequeno Príncipe)

13/07/2009

"Nós"


"Nós
Tu és a força, eu a fragilidade.
Tu tens cérebro, e eu tenho coração...
A tua vida pautas na vontade,
e a minha vida toda é uma ilusão.
Tens a lei do trabalho e da igualdade,
exaltas tudo quanto é nobre e são,
e eu fiz a minha gloria da humildade
de viver sob o jugo dessa mão.
Tu tens o olhar dominador, profundo,
eu tenho o olhar mais triste que há no mundo,
cheio sempre das sombras do sol-por...
Eu e tu... Tão diversos! Mas, no entanto,
como é que nos queremos tanto e tanto
se eu sou tão fraca e tu tão forte, amor?”
*********************
GUSMÃO, Aracy Dantas de, in ARAÚJO JORGE, J. G. de. Os mais belos poemas que o amor inspirou. Poesia Brasileira. Vol. I. São Paulo: Theor S.A, 1963. 1ª edição.

Foto: Igreja de Brumado - BA.


12/07/2009

" Borboletas "


Aos casais... - ante a espessa ramaria

verde, e rendada ao sol deste verão

- livres, felizes, cheias de alegria

as borboletas pelos céus se vão...


Despreocupadas... pela floração

se perdem, numa inquieta correria...

- Onde foram?... e em que lugar estão?

Já não se vê o olhar que as perseguia...


Mas... de repente, voltam pelo espaço,

- trêmulas e amorosas de cansaço,

asas roxas e azuis coo violetas...


E invejoso pensei, vendo-as pelo ar:

- quem me dera nascer, viver e amar,

como aqueles casais de borboletas !


J. G. de Araújo Jorge ("Os Mais Belos Poemas Que O Amor Inspirou"Vol. I - 1a edição 1965 )

11/07/2009

" Sem ti "

(Spiderman)
...

Sem ti

em meu enervamento

sou como um artista sem instrumento

- um pianista sem piano

- um marinheiro sem mar

ou sem navio,

um alcoólatra sem bebida...

um corpo a teimar que ainda pode viver

assim vazio,
sem vida...

***
(Poema de J.G. de Araújo Jorge, do livro" A Sós...")

10/07/2009

"ETERNO MOTIVO"



" Eterno Motivo "


Não me envergonho nunca de falar de amor !
............................................................................

Terá vergonha a fonte em murmúrios de festa,
águas claras rolando dentro da floresta de embalar a flor?
Terá vergonha o pássaro inquieto, sozinho,
de um dia cantar mais, (como todos cantamos...)
- e tecer com gravetos de palha
o seu ninho na altura dos ramos?
Terá vergonha a terra de acordar cheirosa
e inteirinha vibrar ao despontar do dia,
oferecendo ao sol sua boca macia naquela rosa?
Terá vergonha o mar de acariciar a areia
e oferecer-lhe conchas ao invés de anéis?
E dizer-lhe canções, em que todo se enleia aos seus pés?
Terá vergonha a noite, que de astros se encheu,
ao pôr o seu vestido imensamente
azul para um baile de luz,
de ostentar o presente que o tempo lhe deu
o "pendentif" em cruz do Cruzeiro do Sul?
...............................................................................
Por que razão, portanto,
- Ele, o predestinado, que nasceu
para amar com grandeza e esplendor
e trouxe um coração de poeta enamorado
há de sentir pudor?
Eu, por mim, sou feliz, porque amo e sou amado!
Nem me envergonho nunca de falar de amor!



Poema de J. G. de Araujo Jorge.

09/07/2009

Pavê de Chocolate Branco


Créditos: Revista Ana Maria, Editora Abril.

08/07/2009

Mandela – A Luta pela Liberdade (Goodbye Bafana, 2008)

A história de Nelson Mandela (Dennis Haybert) contada do ponto de vista de um guarda branco e racista, James Gregory (Joseph Fiennes) e sua esposa Gloria (Diane Kruger), na África do Sul do apartheid. Gregory foi designado para vigiar Mandela por falar Xhosa, agindo, assim, como espião do governo, mas depois de 20 anos guardando a cela de Mandela, sua vida é alterada. Dirigido pelo cineasta dinamarquês Billy August, foi baseado no livro de James Gregory.
Minha nota: ****

Pavê de Cookies


Créditos: Revista Ana Maria, Editora Abril.

07/07/2009

Pavê de Nutella

Créditos: Revista Ana Maria, Editora Abril.

06/07/2009

Leões e Cordeiros (Lions for Lambs , EUA, 2007)


O carismático senador Jasper Irving (Tom Cruise) pretende lançar sua nova "estratégia completa" para a guerra dos Estados Unidos no Afeganistão e, para divulgá-la, precisa convencer a experiente jornalista Janine Roth (Meryl Streep).
Ao mesmo tempo, o dr. Stephen Malley (Robert Redford), um professor idealista da Califórnia, tenta convencer Todd (Andrew Garfield), um de seus alunos mais promissores, a mudar o curso de sua vida. Enquanto isso, Ernest (Michael Peña) e Arian (Derek Luke), ex-alunos do professor, são soldados que estão lutando nas montanhas geladas do Afeganistão, e que se alistaram no exército americano em busca de um sentido para suas vidas. Direção de Robert Redford. Censura: 12 anos.
Minha nota: ****

05/07/2009

" Tuas Mãos "




Mãos frágeis, mãos divinas, mãos pequenas,

leves, espirituais e perfumadas,

cujas unhas são pérolas morenas

nos escrínios dos dedos engastadas.




Mãos que são duas sílabas amenas

no poema dos teus braços enfeixadas;

que, estando acima das visões terrenas,

jamais serão por outras igualadas.




Mãos que ostentam, nas formas delicadas

todo o enc anto das noites enluaradas

na linda terra que te viu nascer...




E para eu ser feliz basta somentes

beijar t eus dedos demoradamente

e sob o afago dessas mãos morrer!

.




Abílio de Carvalho (Vitória, ES - 22/02/1916/Rio de Janeiro - 08/10/1977).