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30/01/2010

Dois

Dois...
Apenas dois.
Dois seres...
Dois objetos patéticos.
Cursos paralelos
Frente a frente...
... Sempre...
... A se olharem... Pensar talvez.
"Paralelos que se encontram no ininito..."
No entanto sós por enquanto.
Eternamente apenas dois.
Pablo Neruda

27/01/2010

Soneto XCIV

(Porto Belo SC)
.........................
Se morro sobrevive-me com tanta força pura
que despertes a fúria do pálido e do frio,
de Sul a Sul levanta teus olhos indeléveis,
de sol a sol que soe tua boca de guitarrra.
Não quero que vacilem teu riso nem teus passos,
não quero que pereça minha herança de alegria,
não me chames a meu peito, estou ausente.
Vive em minha ausência como em uma casa.
É casa tão grande a ausência
que passarás nela através dos muros
e pendurarás os quadros no ar.
É uma casa tão transparente a ausência
que eu sem vida te verei viver
e se sofres, meu amor, morrerei outra vez.
Pablo Neruda
 

28/11/2009

Soneto XLVI


Das estrelas que admirei,
molhadas
por rios e rocios diferentes,
eu não escolhi senão
a que eu amava
e desde então durmo
com a noite.
Da onda, uma onda e outra

onda,
verde mar, verde frio, ramo
verde,
eu não escolhi senão
uma só onda:
a onda indivisível
de teu corpo.
Todas as gotas, todas as

raízes,
todos os fios da luz vieram,
vieram-me ver tarde ou cedo.
Eu quis para mim tua cabeleira.

E de todos os dons de minha
pátria
só escolhi teu coração
selvagem.
::::::::::::::::::

Pablo Neruda

12/11/2009

Caminhos


"Amor, quantos caminhos até chegar a um beijo,

que solidão errante até tua companhia!

Seguem os trens sozinhos rodando com a chuva.

Em taltal não amanhece ainda a primavera.

Mas tu e eu, amor meu, estamos juntos,

juntos desde a roupa às raízes,

juntos de outono, de água, de quadris,

até ser só tu, só eu juntos.

Pensar que custou tantas pedras que leva o rio,

a desembocadura da água de Boroa,

pensar que separados por trens e nações

tu e eu tínhamos que simplesmente amar-nos

com todos confundidos, com homens e mulheres,

com a terra que implanta e educa cravos.”

::::

Pablo Neruda

31/10/2009

Tuas mãos




Tuas mãos






Quando tuas mãos saem,


amada, para as minhas,


o que me trazem voando?


Por que se detiveram


em minha boca, súbitas,


e por que as reconheço


como se outrora então


as tivesse tocado,


como se antes de ser


houvessem percorrido


minha fronte e a cintura?






Sua maciez chegava


voando por sobre o tempo,


sobre o mar, sobre o fumo,


e sobre a primavera,


e quando colocaste


tuas mãos em meu peito,


reconheci essas asas


de paloma dourada,


reconheci essa argila


e a cor suave do trigo.






A minha vida toda


eu andei procurando-as.


Subi muitas escadas,


cruzei os recifes,


os trens me transportaram,


as águas me trouxeram,


e na pele das uvas


achei que te tocava.


De repente a madeira


me trouxe o teu contacto,


a amêndoa me anunciava


suavidades secretas,


até que as tuas mãos


envolveram meu peito


e ali como duas asas


repousaram da viagem.







02/10/2009

Saudade




Saudade é solidão acompanhada,

é quando o amor ainda não foi embora, mas o amado já...

Saudade é amar um passado que ainda não passou,

é recusar um presente que nos machuca,

é não ver o futuro que nos convida...

Saudade é sentir que existe o que não existe mais...

Saudade é o inferno dos que perderam,

é a dor dos que ficaram para trás,

é o gosto de morte na boca dos que continuam...

Só uma pessoa no mundo deseja sentir saudade:

aquela que nunca amou.

E esse é o maior dos sofrimentos:

não ter por quem sentir saudades, passar pela vida e não viver.

O maior dos sofrimentos é nunca ter sofrido.



Pablo Neruda

22/09/2009

Soneto LXXXI


Já és minha. Repousa com teu sonho em meu sonho.
Amor, dor, trabalhos, devem dormir agora.
Gira a noite sobra suas invisíveis rodas
e junto a mim és pura como âmbar dormido.

Nenhuma mais, amor, dormirá com meus sonhos.
Irás, iremos juntos pelas águas do tempo.
Nenhuma mais viajará pela sombra comigo,
só tu, sempre-viva, sempre sol, sempre lua.

Já tuas mãos abriram os punhos delicados
e deixaram cair suaves sinais sem rumo,
teus olhos se fecharam como duas asas cinzas.

Enquanto eu sigo a água que levas e me leva:
a noite, o mundo, o vento enovelam seu destino,
e já não sou sem ti senão apenas teu sonho.


Pablo Neruda

12/09/2009

Para meu coração

Para meu coração teu peito basta,
para que sejas livre, minhas asas.
De minha boca chegará até o céu
o que era adormecido na tua alma.
Mora em ti a ilusão de cada dia
e chegas como o aljôfar às corolas.
Escavas o horizonte com tua ausência,
eternamente em fuga como as ondas.
Eu disse que cantavas entre vento
como os pinheiros cantam, e os mastros
tu és como eles alta e taciturna.
Tens a pronta tristeza de uma viagem.
Acolhedora como um caminho antigo,
povoam-te ecos e vozes nostálgicas.
Despertei e por vezes emigram e fogem
pássaros que dormiam em tua alma.

31/08/2009

O Poço


Cais,

às vezes, afundas

em teu fosso de silêncio,

em teu abismo de orgulhosa cólera,

e mal consegues

voltar, trazendo restos

do que achaste

pelas profunduras da tua existência.

Meu amor, o que encontras

em teu poço fechado?
Algas, pântanos, rochas?

O que vês, de olhos cegos,

rancorosa e ferida?

Não acharás, amor,

no poço em que cais

o que na altura guardo para ti:

um ramo de jasmins todo orvalhado,

um beijo mais profundo que esse abismo.

Não me temas, não caias

de novo em teu rancor.

Sacode a minha palavra que te veio ferir

e deixa que ela voe pela janela aberta.

Ela voltará a ferir-me

sem que tu a dirijas,

porque foi carregada com um instante duro

e esse instante será desarmado em meu peito.

Radiosa me sorris

e minha boca fere.

Não sou um pastor doce

como em contos de fadas,

mas um lenhador que comparte contigo

terras, vento e espinhos das montanhas.

Dá-me amor, me sorri

e me ajuda a ser bom.

Não te firas em mim, seria inútil,

não me firas a mim porque te feres.

***

Pablo Neruda

29/08/2009

O Carteiro e o Poeta (Il postino, 1994)



Por razões políticas, o poeta Pablo Neruda (Philippe Noiret) exila-se em uma remota ilha na Itália. Lá um desempregado quase analfabeto, Mario (Massimo Troisi) é contratado como carteiro extra, encarregado de cuidar da correspondência do poeta, e gradativamente entre os dois se forma uma sólida amizade. Neruda então o ajuda a conquistar seu grande amor, a bela Beatrice Russo (Maria Grazia Cucinotta). O cenário italiano é deslumbrante e poético e a história, fictícia . Direção: Michael Radford.
Vencedor do Oscar de Melhor Trilha Sonora - Drama.

Minha nota: ****
http://www.youtube.com/watch?v=CbGKKsf3_ag

"De otro. Será de otro. Como antes de mis besos.
Su voz, su cuerpo claro. Sus ojos infinitos.
Ya no la quiero, es cierto, pero tal vez la quiero.
Es tan corto el amor, y es tan largo el olvido.
Porque en noches como esta la tuve entre mis brazos,
mi alma no se contenta con haberla perdido.
Aunque éste sea el último dolor que ella me causa,
y éstos sean los últimos versos que yo le escribo."

Pablo Neruda